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O HOMEM SEM CORAÇÃO - Capítulo XI
Reuniões
Vicente Miranda

–– Meus caros ‘pesselistas’! É com imensa satisfação que abro esta primeira reunião de 2005 aqui na sede do PSE em São Paulo. Meus queridos companheiros, na eleição do ano passado o nosso partido conquistou várias prefeituras no país, inclusive em algumas capitais e em cidades de grande porte industrial e econômico de alguns Estados brasileiros, nada disso teria acontecido se todos nós com muito trabalho e união não tivéssemos enfrentado as adversidades financeiras internas por que passou o PSE em 2004. Sabemos por intermédio de nossos poucos, porém leais, representantes do PSE em Brasília que o governo federal está enchendo os cofres de alguns partidos de dinheiro, não sabemos de onde vem este dinheiro, mas o fato é que o governo federal tem as chaves do ouro nas mãos. Pois bem, o dinheiro que é injetado nos partidos e nos políticos em Brasília não é de graça, trata-se de uma troca, o governo federal precisa ter a maioria no Congresso Nacional se quiser governar, e apenas o PSE, outros partidos de pequeno porte e a oposição da ocasião não estão vendo a cor deste dinheiro, o nosso partido por ter pouca representatividade em Brasília continua esquecido e desprezado. Não há em nosso caixa uma pataca furada que tenha vindo do governo federal, lamentamos muito este fato, foram muitos os companheiros do nosso partido que não puderam arcar com o pagamento do que deviam depois de suas campanhas, infelizmente o partido não pôde ajudá-los, muitos destes fiéis ‘pesselistas’, quero com estas palavras prestar-lhes uma singela homenagem, pois eles, mesmo assim, continuam firmes e fortes dentro do PSE sem sustentarem mágoas ou quaisquer espécies de rancor ou vingança, apenas aguardam os seus lugares ao sol. Por tudo isso, tenho certeza de que, aos poucos, trabalharemos como sempre fizemos e no ano que vem quando ocorrerão as eleições de 2006 para governadores, presidente, senadores e deputados estaduais e federais, nós nos tornaremos mais fortes e influentes em Brasília e em todos os Estados brasileiros exigindo do governo federal mais consideração e respeito com a nossa legenda partidária. Estamos na semana que antecede ao carnaval, sabemos que este ano não haverá eleições, mesmo assim esta é a hora de arregaçarmos as mangas e iniciarmos os trabalhos para as eleições do ano que vem. É a hora do plantio e todos vocês, meus queridos ‘pesselistas’, verão que a colheita será farta e próspera. Muito obrigado a todos os presentes!
Alberto e Mário estavam presentes e acompanharam o discurso do doutor Tavares, que viera de Brasília especialmente para a primeira reunião do ano do PSE em São Paulo. Alberto parecia entusiasmado com os aspectos mirabolantes que o discurso do doutor Tavares ganhava junto aos espectadores. Tavares era um ótimo orador. O professor, devido aos comentários que os partidários faziam naquele auditório, percebeu a importância da boa oratória a um político profissional.
–– Alberto, este que acabou de falar é o presidente nacional do PSE, ele se chama Tavares, por respeito, pelo tempo de partido e pela experiência política que ele tem, todos nós do partido o tratamos por doutor Tavares.
–– Ele discursa bem, não é, Mário?
–– Precisa ser assim. Costumo dizer, Alberto, confesso que agora tenho mais liberdade de conversar estas coisas com você depois das longas conversas que tivemos ultimamente e de perceber que você compreende o funcionamento da política nacional mais claramente, que um político não precisa ser político, basta apenas que ele pareça um político, e este velho que acabou de discursar sabe disto muito bem. Ninguém nasce político, Alberto, mas todos nós nascemos fazendo política. Por exemplo: o ato do bebê que chora querendo mamar já tem natureza política, se ele não chorar, não mama, entendeu? O bom político é um verdadeiro ator, Alberto, e se você gostar da coisa de verdade eu vou ensiná-lo a ser político.
–– Mário, eu estou adorando me aprofundar na vida política. Tenho lido poucos, mas bons livros sobre diversos assuntos relacionados à política, à oratória, à persuasão, à criação dos partidos e me interessado por tudo o que está relacionado ao mundo político, acho que quero entrar de cabeça nesta atividade. Quero participar de todas as reuniões do PSE para me familiarizar com o partido e, quem sabe, tentar uma investida na carreira daqui a algum tempo. Eu também vou confessar uma coisa para você, eu não estou mais aguentando esta vidinha de professor, parece que tenho até alergia das salas de aula e daquele bando de alunos idiotas e mal-educados que nunca vão aprender nada mais que operações de subtração na vida.
–– Agora você falou pouco, mas falou bonito, Alberto! Continue conosco que assim que eu tiver uma oportunidade vou arrumar um esquema bom para colocar você na crista da onda. Você vai até esquecer que existe escola, meu bom!
A pequena pausa na reunião foi interrompida pelo anuncio vindo das caixas de som espalhadas pelo ambiente: “Convocamos agora para o prosseguimento desta reunião de hoje o melhor articulador político do PSE, um homem que muito contribui para a expansão do nosso partido, por gentileza a palavra lhe pertence doutor Mário”. Mário dirigiu-se ao microfone e com o dedo em riste, começou o discurso:
–– Colegas de partido, faço minhas as palavras do nosso querido presidente. Precisamos iniciar a nossa campanha em busca de mais espaço na cena política federal. Quero expor a todos vocês o que estou preparando para o PSE, ando em contato constante com várias agências de publicidade e propaganda, com as mais conceituadas e procuradas, diga-se de passagem, na tentativa de construir uma imagem sólida do nosso partido no Brasil. Chegou o momento de deixarmos o amadorismo político de lado para nos tornarmos políticos conhecidos e respeitados nacionalmente, tudo isso só será possível com uma propaganda muito bem feita. Em política a única coisa que se precisa é aparecer para aparentar alguma importância. Por enquanto, as nossas negociações estão mais avançadas com a agência de publicidade nacional do marqueteiro, ou melhor, publicitário, ele não gosta de ser chamado de marqueteiro, Chiquinho Sollo. Está quase tudo acertado, sendo praticamente certo que ele será o divulgador do nosso partido no país todo. Concedo-me, colegas, se me permitem, um pouco deste espaço para parabenizar também a militância do PSE que anda fazendo um trabalho excepcional, um exemplo desta militância está presente na reunião e pretende participar de todas as nossas próximas reuniões, os militantes não participam destas nossas reuniões fechadas, mas este militante que hoje está entre nós, a partir de hoje não será apenas um mero militante, ele será mais um de nós. É com grande satisfação que eu gostaria de lhes apresentar o professor Alberto Monteiro, um homem que durante anos vem trabalhando silenciosamente pelo PSE junto a escolas, a outros professores e, principalmente, alunos e familiares nas regiões do Ipiranga, Mooca, Vila Prudente e imediações, este homem é um exemplo para todos nós e tenho certeza de que este partido deve muito à presença oculta e ignorada deste militante. Quero conceder neste momento, com a permissão dos senhores, a palavra ao professor Alberto. Por favor, venha até aqui professor, nós queremos ouvi-lo.
Alberto atendeu prontamente ao chamado do cunhado. O professor apesar de nunca ter palestrado em público sobre assuntos relacionados à política, algo que até pouco tempo repugnava, concluiu de imediato que o que Mário queria na realidade era testá-lo, um raciocínio puramente lógico parecia avisá-lo constantemente do que estava escondido por trás de cada situação imprevisível ou de cada intenção escondida. Alberto adquirira uma malícia que nunca havia tido antes, por isso encarou todos os políticos presentes na reunião e elevando-se à frente dos microfones friamente começou o seu discurso de estréia:
–– Boa noite, amigos. Durante anos, como bem frisou o doutor Mário, trabalhei para o PSE em silêncio, sem ser notado. O partido nunca soube que eu existia, eu era apenas um número a mais nos arquivos do PSE, porém fui um militante ferrenho, destes que dão a vida por uma boa causa, no nosso caso esta causa é a educação, a única testemunha de todo o meu esforço é o dr. Mário. Nenhum outro militante ou político da legenda me conhece porque sempre fui um ‘pesselista’ solitário e aguerrido. No entanto, meus amigos, chega a hora em que o homem deixa a meninice de lado e parte para vislumbrar horizontes mais definidos e reais. Todos nós aqui não somos tão ingênuos a ponto de acreditarmos que este país tirará o pé da lama em questões como educação e cultura em prazo curto, nunca houve interesse dos detentores do poder para que isso acontecesse antes, não é mesmo? Então parei, pensei e comecei a questionar-me insistentemente –– ‘Por que eu serei o único maluco a continuar remando contra a corrente?’ ––, meus queridos amigos, nós do PSE não daremos um passo sequer em qualquer área social se não nos fizermos fortes o suficiente para a conquista do poder, sim o poder, precisamos conquistar o poder custe o que custar. O primeiro passo será nos preocuparmos em dar estrutura e condições de trabalho a todos os políticos e representantes do PSE, vamos parar de uma vez por todas com esse chove não molha de amadores, eu sei que todo mundo aqui quer é se dar bem primeiro, não é? Depois, se for possível, pensaremos na sociedade, todos os partidos e todos os políticos no fundo pensam assim, em primeiro lugar todos querem ajudar a si próprios. Não me venham com qualquer discursinho idealista porque isso não cola mais. Eu, Alberto, dispenso o título de professor da frente do meu nome, gostaria de ser chamado simplesmente de Alberto ou Alberto Monteiro, sou o primeiro a me colocar a disposição do que for preciso para que o PSE conquiste o poder, meus amigos. É claro que devemos manter em nossa cartilha a educação e a cultura como prioridades frente à população e aos nossos militantes, mas aqui no núcleo do partido nós devemos objetivar é o poder, sempre o poder o qual devemos conquistar e continuar nele o maior tempo possível. Obrigado pela oportunidade, meus amigos ‘pesselistas’! Está sendo um prazer conhecê-los! Pensem no que falei, talvez alguns de vocês se espantem com a minha sinceridade, mas lembrem-se de que somente os amigos são sinceros de verdade, não há outro caminho para um partido crescer que não seja a busca incessante pelo poder. Avante, ‘pesselistas’! Boa noite.
Houve um burburinho geral na reunião, todos os políticos presentes queriam saber quem era aquele homem que dividia opiniões já no seu primeiro discurso. Mário estava parado, perplexo e boquiaberto com as palavras que o cunhado acabara de proferir, o seu olhar vidrado e admirado atravessava Alberto e ia além, sua cabeça vagava em questionamentos –– “Este Alberto está me surpreendendo. O que será que aconteceu com esse cara para que ele mudasse tão drasticamente depois daquele acidente? Vai ver que agora acordou de verdade para a vida. Por que será que ele está tão contagiado pela política agora? Bom, o importante é que está se saindo muito bem, parece que Alberto entendeu direitinho o que é a política” ––, mas não via importância em obter respostas imediatas para estas perguntas, o mais significativo naquele momento era o que estava à sua frente, sentia que naquele dia, ali dentro daquela reunião interna do PSE, nascia um grande político. A experiência que tinha neste campo mostrava-lhe isso claramente. Alberto havia sido frio, sutil e persuasivo em seu discurso, algo inerente e necessário a um verdadeiro político. Mário tinha certeza de que se aquele homem continuasse assim, certamente subiria e dominaria qualquer palanque persuadindo e conquistando multidões. Vendo que Alberto vinha ao seu encontro, abriu-lhe os braços e um largo sorriso, como um pai cheio de orgulho receberia um filho:
–– Puuutz, cara! Tô espantado com você!
–– Por que, Mário? Não me sai bem?
–– Não, não é isso. Você se saiu melhor que a encomenda, a nossa mentirinha colou direitinho, né? De vez em quando uma mentirinha cai tão bem na vida política. Mas acho que ninguém esperava que alguém aqui fosse tão objetivo e decidido como você foi. Você está coberto de razões, a conquista do poder é o nosso principal alvo. A única coisa que me espanta é que eu não esperava uma mudança tão radical em você, cara! Mas eu tô feliz, é assim que se faz Alberto.
–– Mário, como eu disse no discurso, chegou a hora de colocar a meninice de lado, eu amadureci politicamente, preciso crescer nisso também, preciso ganhar dinheiro, preciso ter poder, chega de miséria! Sinto que a minha última cartada é a política, Mário! Não posso errar. Estou desesperado e sedento de vontade de me dar bem também, entendeu? Se eu realmente mudei, foi pra melhor.
–– Alberto, era isso que eu sempre quis ouvir da sua boca! Você se lembra quanto eu labutei para que isso acontecesse e eu tenho certeza absoluta que não demorará muito para você começar a se dar bem, pode deixar comigo, vou ensinar-lhe tudo o que aprendi sobre como fazer política. Olha só, alguns amigos estão nos chamando, vamos lá quero apresentá-lo a eles.
Enquanto Mário estava feliz com o início marcante de Alberto no PSE, quem não andava nada contente com as mudanças repentinas do professor era Mirtes. Alberto, depois do acidente ocorrido há cerca de dois meses, tinha mudado muito de comportamento, mas muito mesmo. O seu comportamento em casa havia dado uma meia volta, um giro de cento e oitenta graus. O professor já não lia literatura e poesia como fazia antes, preferia agora ler menos e apenas sobre assuntos relacionados à política, formas de controle de Estado, poder e filosofia, além disso, dava a impressão de que todos os assuntos que Alberto lia atualmente ficavam na sua cabeça por dias, Mirtes o flagrava frequentemente com a mão no queixo, olhando para as paredes ou para o teto, pensando, pensando, pensando... Já não brincava e conversava tanto com as crianças, não demonstrava mais o carinho que tinha por ela como fazia antes, e quando à noite ele a procurava na cama, dava à esposa apenas sexo e quase nenhuma atenção. Mirtes sentia que o marido estava mais sedento e interessado em sexo que nunca, parecia um cavalo que se descontrolava todo ao notar a presença de uma égua no cio, mas não era desse jeito que Mirtes gostava, não era assim que ela queria, precisava dos carinhos que o marido lhe fazia antes de dormir, precisava da voz de Alberto lhe dizendo como fora o dia, precisava sentir-se amada, e tudo isso ela não estava tendo mais. Ainda por cima, Mirtes estava pasma com esse negócio de Alberto entrar na política, ela não estava entendendo nada, o marido que sempre fora um rígido opositor de qualquer proposta política que lhe fizessem, agora não falava em outras coisas que não fosse partido, política e poder –– “Está muito estranho isso. Pensei até que o Alberto havia batido com a cabeça e ficado maluco no acidente?” ––. Essa dúvida fora descartada por exames feitos em laboratório por indicação de um médico neurologista ao qual Mirtes insistiu muito para que o professor fosse duas semanas atrás, é claro que ela não disse a ele que era por causa do comportamento diferenciado que observava, disse-lhe que estes exames seriam para ratificar e certificar-se que sua saúde estava perfeita depois do acidente. Mesmo sabendo que Alberto estava muito bem de saúde e ótimo de cabeça, Mirtes desconfiava que havia algo errado com aquele homem, ele não era nem a sombra do marido que ela conheceu como a palma de sua mão. “Será que é algum mal espiritual?” –– questionava-se também, mas logo descartava a possibilidade –– “Acho que não, nós nunca nos ligamos nestas coisas, nem gostamos de mexer com isto”. Os comportamentos estranhos do professor eram facilmente detectados pela esposa, Mirtes percebeu, embora tenha achado melhor não comentar, que Alberto não havia tocado as mãos em nenhum dos livros que havia comprado no dia do acidente, os livros foram devolvidos a ele na mesma noite em que saiu do hospital, quando o professor chegou em casa atirou-os na dispensa e, desde então, caixas e sapatos velhos faziam-lhes companhia. Mirtes, quando bisbilhotou o saco, viu que ele havia comprado livros aos quais tinha grande estima e muita ansiedade em adquiri-los, estranhava que o marido desprezasse aquela leitura –– “Mas que diabos teriam mordido esse homem? Ele atualmente só quer saber de política, não comenta mais os assuntos da escola, não lê mais poesia e literatura, quase não comenta mais nada da sua vida comigo” –– ela sentia saudade daquele tempo em que Alberto era um simples professor –– “Ah! Deve ser isso. Este envolvimento com política deve estar virando a cabeça do Alberto de vez. Vou ter uma conversa franca com ele. Apesar das dificuldades que temos, nunca precisamos disso para tocar a nossa vida”.
Dias depois veio a conversa e tudo ficou na mesma. Alberto disse à esposa que não havia mudado e que tudo não passava de impressão dela, disse também que havia tomado a decisão de participar de reuniões e se interessar por política porque acreditava no PSE e queria lutar pela causa educacional e, ainda, que estava cansado de dar aulas de Literatura e Gramática e já não aguentava mais entrar na escola, parecia-lhe um sacrifício fora do comum por um mísero salário, por isso não se interessava mais por poesia e romance. Alberto alertou a esposa de que tudo isso era uma decisão sua e uma decisão bem tomada, ele agora queria progredir e não morrer dentro de uma sala de aula, queria tentar algo novo, não estava mais suportando as privações financeiras pelas quais passavam. Mirtes achou estranho tudo aquilo que o marido lhe havia dito, principalmente o fim da relação apaixonada entre ele e a escola, mas decidiu respeitá-lo em suas decisões pessoais, com tanto que ele não cometesse nenhuma loucura como, por exemplo, abandonar o emprego.
Alberto durante meses a fio não faltou a nenhuma reunião do PSE, por isso logo passaria a conhecer praticamente todos os elementos da alta cúpula do partido. Mais ou menos no meio do ano, quando o país se via em meio a uma das maiores crises políticas nacionais, onde escândalos e mais escândalos envolviam deputados, ministros e parlamentares de vários partidos, pondo em risco inclusive o mandato do presidente da República, o professor se lançaria de vez na carreira política.
Os escândalos que rondavam o país e vinham à tona em uma sequencia interminável e incontestável mancharam o partido do presidente da República e diversos partidos coligados a ele, porém o PSE que era um partido ainda pequeno e que por isso nada obteve de benefício com a corrupção que assolou o país passou a ser visto com bons olhos pela população brasileira. As reuniões partidárias passaram a ser cada vez mais frequentes, às vezes fazia-se até cinco reuniões por semana, e o professor Alberto participava de todas elas cada vez mais interessado pelos assuntos que rondavam a cena política nacional. Foi quando em uma destas reuniões discursava um prefeito do PSE que havia sido eleito para administrar uma grande cidade do Estado de São Paulo que ficava próxima da capital:
... e assim, meus amigos, é certo que chegou a nossa vez. Todos os partidos do primeiro escalão já foram testados e desaprovados pela população que já não vê esperança na política brasileira, restaram apenas os partidos tidos como sendo de segundo escalão onde nós estamos localizados, a esquerda brasileira mostrou-se tão igual à direita que misturou-se todo o discurso, não sabemos mais quem é quem, o presidente não consegue explicar tanta corrupção ocorrendo embaixo do seu nariz, a situação política em Brasília está em polvorosa, mas nós do PSE precisamos ter sangue frio e muita cautela para tirarmos proveito disso tudo, estamos crescendo e cresceremos mais daqui pra frente, não há nenhum político nosso envolvido nestes escândalos que espantam e revoltam a Nação, vamos às ruas contar a nossa história, vamos às praças dizer o que achamos disso tudo e, certamente, veremos que o resultado será a nossa vitória cada vez mais maciça nas urnas. Na minha prefeitura há três cargos muito bons à disposição para serem preenchidos por companheiros deste nosso partido, estou em conversação com os nossos líderes e há possibilidade de que eu saia desta reunião já com os nomes dos companheiros que trabalharão comigo na minha administração. Gostaria de parabenizar o presidente do PSE e todos os companheiros que de certa forma concorreram para que eu pudesse ser eleito. Muito obrigado, gente!
Quando o prefeito Tomazzetti encerrou o seu discurso e a reunião praticamente tinha se encerrado, Mário foi ao encontro de Alberto que estava sentado na segunda fileira de cadeiras tomando nota de alguns detalhes da reunião:
–– Boa noite, cunhado!
–– Boa noite!
–– Alberto, você está preparado mesmo para ingressar na política?
–– É claro, Mário. O que é que você acha que eu estou fazendo aqui?
–– Então, meu velho, saiba que eu consegui pra você um cargo de sub-secretário da cultura na cidade do prefeito Tomazzetti, esse aí que acabou de falar agora.
–– Não brinca, Mário.
–– É verdade, cara. Topas?
–– Estou dentro. Mas, Mário, que mal lhe pergunte, o que faz um sub-secretário da cultura na prefeitura de uma cidade?
–– Cara, os sub-secretários da cultura nas prefeituras de outras cidades eu não sei se fazem alguma coisa, não sei nem se existem, mas no caso da prefeitura do Tomazzetti o sub-secretário da cultura não fará nada que não seja receber uma boa grana. Sentiu? Não precisa se preocupar, cara! A política é assim, quem tem o poder manda. Você não está cansado de ver economista sendo ministro da saúde e médico sendo ministro da economia? O que um médico sabe sobre economia e o que um economista sabe sobre saude? Nada, cara. Precisam apenas ter o poder para mandar os profissionais competentes fazerem o serviço.
–– E quanto eu vou ganhar?
–– Eu presumo que no mínimo três vezes mais do que você ganha dando aulas. Tem o salário fixo que a prefeitura paga, esse é uma miséria, o bom mesmo é o que vem por fora. E então, é pegar ou largar.
–– Quando começo?
Quem não gostou nadinha desta história de ver o marido largar as salas de aula para ingressar na carreira política foi Mirtes, ela não se sentia segura sabendo que em meio a uma crise financeira que durava anos o marido se veria longe dos vencimentos minguados, porém garantidos mês a mês, que recebia:
–– Alberto, você ficou maluco?
–– Mirtes, eu estou sendo sincero com você, eu não quero mais dar aulas e estou a ponto de explodir dentro da sala de aula, não suporto mais aquele monte de alunos me enchendo o saco o dia inteiro: ‘Professor... professor’, tenho vontade de mandá-los às favas, eu juro. Agora que tenho uma única chance na vida de partir para uma coisa melhor eu gostaria que você me entendesse, até porque essa decisão é irreversível, não voltarei a dar aulas, tenho certeza disso, mas para a sua segurança eu pedi uma licença por algum tempo da escola, muito embora eu ratifique o que disse, Mirtes: minha decisão é irreversível. Não pretendo mais dar aulas na minha vida, não tenho mais interesse, acabou, chega!
–– E quanto é que vão pagar pra você?
–– Parece que algo em torno de cinco mil reais.
–– Quanto?
–– Cinco mil reais.
Mirtes não acreditou no que estava ouvindo, aquele valor que o marido estava lhe informando, cinco mil reais, dando aulas ele levava mais de três meses de trabalho para conseguir. A mulher ficou mais calma, mas, ainda assim, um calafrio rondou-lhe o estômago, tudo em Alberto havia mudado, há pouco tempo parecia que nem um milhão de reais conseguiria tirá-lo das salas de aula. Mirtes achou estranho tudo aquilo, mas a necessidade do dinheiro fez com que ela consentisse com a vontade do marido, além de que o professor não havia pedido exoneração do emprego, pediu simplesmente uma licença e muito embora ele dissesse a ela que era uma decisão irreversível, Mirtes ainda achava que Alberto era um homem flexível e sensato que sabia voltar atrás quando estivesse errado.
–– Será que eles vão pagar tudo isso mesmo pra você, Alberto?
–– Pode acreditar, Mirtes. Eles vão. Só pra você ter certeza o Mário, seu cunhado, já me deu dez mil reais hoje, disse que era uma pequena contribuiçãozinha do PSE para que eu comprasse roupas sociais novas, eles querem que eu use sempre terno e gravata, e enquanto eles não me arrumam um carro, algo que será providenciado na semana que vem, insistem que eu vá trabalhar de táxi. Vou à secretaria apenas duas vezes por semana, o resto do tempo disponível estarei preparando as reuniões do partido. Está aqui o dinheiro, Mirtes, olha só.
Alberto arrancou dos bolsos da calça dois volumosos maços de notas de cem e de cinquenta reais e colocou-os sobre a mesa. Mirtes ao ver todas aquelas notas reunidas ficou estática, sem mesmo ter o que falar, os seus olhos brilhavam, certamente que aquele dinheiro não pagaria nem um quarto das contas e empréstimos que tinham, mas, desde que ela havia se casado com o professor, nunca tinha visto tanto dinheiro de uma só vez na sua vida entrar em sua casa, só no banco onde ela trabalhou havia visto tantas notas. Alberto olhou para a esposa como se aquele dinheiro quase não fosse nada e disse:
–– Mirtes, pode ficar com estes oito mil reais –– separou o dinheiro e deu-lho à mulher –– porque para mim apenas dois mil reais dá e sobra para começar, conheço algumas lojas no centro que vendem conjuntos completos de ternos e camisas por até cento e cinquenta reais. Gaste o resto com as crianças, compre o que quiser, divirta-se Mirtes, o nosso tempo de miséria acabou, vem muito mais dinheiro por aí, esteja certa disso, comecei a chegar onde queria e tenho certeza de que daqui a algum tempo alcançarei o topo da montanha.


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Este texto é administrado por: Vôgaluz Miranda
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