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Fanini, Juanribe Pagliarin, Guilhermino Cunha e Cia.
LASANA LUKATA


O normal é ver a cena de um pastor desenganchando ovelhas com o seu cajado do precipício, mas há dias em que pastores também caem no precipício e precisam de alguém que os tire de lá.
Quarta-feira passada ouvi uma pregação sobre a mulher adúltera e mais uma vez um pastor tropeçar na explicação sobre o porquê de todos os acusadores daquela mulher terem ido embora, do maior para o menor, mas não é para entristecer porque o falecido Nilson do Amaral Fanini ia para o seu programa Reencontro na TV Brasil, pregar que era porque Jesus escrevia os pecados de cada um na areia, então foram saindo de um a um, do maior para o menor.
Lembro que numa segunda-feira à noite, dia 13 de dezembro, Dia do Marinheiro, a rádio Melodia transmitia a pregação do reverendo Guilhermino Cunha sobre a Mulher Adúltera que está na bíblia, no evangelho de João capítulo 8; versículos 1-11 e naquela mesma noite o pastor Juanribe Pagliarin, em sua pregação, também tocou no caso da Mulher Adúltera em sua pregação sobre o dom de discernir.
O reverendo Guilhermino disse que ao perguntarem a Jesus sobre o que fazer com ela, disse que Jesus olhou para aqueles acusadores e usou a “Lei da Consciência”, “aquele que não tiver pecado...” “Então as pedras foram caindo no chão. Bum!Bum!” Já o Pagliarin disse que Jesus usou o dom de discernir, olhando nos olhos dos seus acusadores, nada ficou em oculto, por isso não tiveram coragem de atirar a pedra”.
Vejam que o reverendo Guilhermino enxerga de um ponto de vista e o pastor Juanribe Pagliarin de outro. E os dois estão equivocados. Um vê a Lei da Consciência e o outro o dom de discernir. Guilhermino chega a dizer que os escribas e os fariseus puseram Jesus num dilema, isto é, sem saída no caso da mulher adúltera.
Bem, vamos acordar esses pastores com uma cajadada só, cajadada de pelica: eliminaremos de plano o suposto caso de filosofia que seria o dilema, no entendimento do reverendo Guilhermino Cunha. Na passagem da mulher adúltera não há dilema. Os escribas e os fariseus não puseram Jesus num dilema. Dilema é a necessidade de escolher entre duas saídas contraditórias e igualmente insatisfatórias. Você fica sem saída diante de uma pergunta. Qualquer resposta que você der, você se complica. Isto pode ser visto na própria bíblia, no livro de Mateus cap.21:25, Jesus fazendo uma pergunta aos príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo: o batismo de João donde era? Do céu ou dos homens? Nessa pergunta Jesus pôs príncipes e anciãos num dilema. Tanto que eles responderam a Jesus: não sabemos. Eles não tiveram saída.
Mas, no caso da Mulher Adúltera, vejam que Jesus respondeu aos escribas e fariseus e não se complicou. Jesus teve saída. A resposta foi satisfatória à pergunta. Por quê? Porque a questão ali era bem outra. A questão da mulher adúltera era jurídica. Os escribas e fariseus queriam saber era se Jesus realmente conhecia a Lei e os Profetas. E Jesus, sem usar dom nenhum, respondeu como homem que conhecia a Lei, respondendo: aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra. E aí a pergunta que deve ser feita ao texto é: qual era o pecado daqueles que trouxeram a mulher adúltera? Eram vários pecados? Jesus escreveu os pecados deles na areia como já pregou o falecido Fanini? Jesus usou a Lei da Consciência conforme afirmou Guilhermino Cunha? Jesus usou o dom de discernir, Pagliarin? Não, não! Há pastores que chegam a dizer de púlpito que todos foram saindo do maior para o menor “porque é claro, os mais velhos têm mais pecados!”; outros dizem que quando jesus falou essa frase, “a luz penetrou nas trevas e eles não resistiram e foram saindo um a um” . Nada disso.
Primeiro, o que Jesus escreveu na areia é o que menos interessa no texto. Segundo, é preciso submeter o texto a pergunta correta! E a pergunta correta é: qual era o pecado daqueles homens? Porque Jesus está dizendo a eles aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra? Aí fazendo a pergunta, o texto responde: o pecado de todos eles era um só. Jesus ali, como homem, mostrou a todos os acusadores da mulher adúltera que ele conhecia a Lei e que eles, acusadores, estavam praticando um só pecado. Qual? O da omissão. Trouxeram a mulher, mas para quem foi pega em flagrante adultério, teriam que ter trazido o homem também, porque essa era lei escrita “1490 a. C”. Em Levítico capítulo 20, versículo 10: “se um homem cometer adultério com a mulher de seu próximo, ambos, o adúltero e a adúltera, certamente serão mortos”. Então, qual era o pecado daqueles homens? Era um só, pecado por omissão e a bíblia fala desse tipo de pecado assim como o pecado por ignorância e outros pecados. A Lei mandava trazer os dois, mas os escribas e fariseus trouxeram só a pobre da mulher para ser apedrejada, testando os conhecimentos de Jesus. Os escribas e fariseus não disseram isso, mas dá para imaginar: “Vamos ver se esse Jesus Nazarenozinho, esse pobre coitado, filho de carpinteiro, lá de Nazaré, sabe mesmo a Lei! É! Vamos armar uma pra ele”. E trouxeram algo que parecia um abacaxi, mas não era. Abacaxi digo, o caso da mulher adúltera, e não a mulher adúltera. Amo as mulheres assim como Jesus as ama. Não é em vão que quando os acusadores foram saindo de um a um, diz o texto, saíram a começar pelos mais velhos. Por quê? Porque esses mais velhos eram os fariseusões, escribões, sabichões, sabiam muito e viram que Jesus não era nenhum arborícola das idades primevas como eles, soberbamente, imaginavam. É difícil aceitar que haja conhecimento num filho de carpinteiro, de uma cidade desprezada como Nazaré e isso até hoje não mudou, Machado de Assis, homem humilde, também foi atacado, pelas costas, inclusive. Basta ler as suas crônicas para perceber.
Há uma passagem na bíblia que vai iluminar muito bem o caso da mulher adúltera, provando que não se tratava de uso da Lei da Consciência, nem uso do dom de discernir, nem que Jesus escrevia os pecados daqueles acusadores na areia. E qual é passagem bíblica que vai iluminar essa outra passagem da mulher adúltera? É passagem da tentação de Jesus em Mateus capítulo 4: 1-11. É preciso estar atento ao versículo 6 da mulher adúltera que diz: “Isto diziam eles, tentando-o...”. Ora, semelhante tentação passou Jesus com Satanás, um verdadeiro vestibular, mas Jesus foi dizendo a Satanás: está escrito, está escrito, está escrito. Jesus poderia muito bem ter dito, olha escribas e fariseus, está escrito que “se um homem cometer adultério com a mulher de seu próximo, ambos, o adúltero e a adúltera, certamente serão mortos” e vocês estão fraudando a Lei, pois só trouxeram a mulher, mas Ele, educadamente, indiretamente, sem usar dom nenhum, preferiu dizer: “aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire a pedra”. O que ocorre é que com Satanás Jesus foi direto, mas com os escribas e fariseus Ele foi sutil. Jesus era dinâmico em suas respostas. Variava. Com a mulher samaritana tirando água do poço ele foi de uma fineza extrema. Não a ofendeu, não a chamou de prostituta, vagabunda, apenas disse: disseste bem, tiveste cinco maridos e o que tem lá agora não é teu marido. Com Zaqueu, o publicano, que disse que iria devolver quadruplicadamente se ele tivesse defraudado alguém, Jesus usou outra vez de fineza, não dizendo, sim, você defraudou e agora terá que devolver, seu ladrão! Mas apenas disse educadamente: hoje veio salvação a esta casa. Como se pode ver, às vezes Jesus era direto e às vezes indireto. Agia caso a caso.
Sei que esses pastores e reverendos vão para as rádios com as melhores intenções possíveis, mas meu Deus, assim acabam é entortando em vez de aplainar... Não podem ficar trazendo teses prontas para dentro do texto, é preciso respeitar o que o texto está dizendo. É de dentro para fora e não de fora para dentro. Como já disse alguém importante por aí, a obra é aberta, mas não é escancarada.


Biografia:
Lasana Lukata é poeta, escritor por usucapião, São João do Meriti, RJ.
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