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Na majestade que tudo abarca,
doravante tu estarás.
Na natureza que eclode acima da pequena gleba,
onde dormes o sono final,tu estarás.
Nas folhas de gramas, adubadas pelo teu sangue
e a células de teu corpo, tu estarás,
evoluindo as metas, que só os que se encontram na
tua condição logram alcançar.
Nas chuvas a cair nesses poucos palmos de terra,
tu estarás.
E quando venha o sol que a toda chuva precede,
haverá um hálito de vapor a erguer-se da gleba,
prenhe de partículas de ti,
de teu ser material imorredouro,
a espalhar-se a os quatro ventos.
E haverá de ti...
Sempre de ti...
Eternamente de ti,
uma fração...
Se mais não for,
ínfima fração de ti a cair em mim.
Sobre mim. Até que tu e eu,
ambos sejamos,
partículas a chover no grande páramo aberto,
naqueles que deixamos,
NESSE PARTIR ASSIM... PARA O JAMAIS.
II
Qual a fórmula, a alquimía,
desse desvendar de segredos?
Quais os labirintos que levam,
até os caudais internos?
Esses medos sem medos,
dentro de invólucros de silêncios,
que teimosos, arquivamos em nossos cérebros,
apesar de acreditarmos,
só em fatos concretos?
III
Voltaste ao pó...
Não acredito porém que seja,
o mesmo pó de onde vieste:
Pó de infinito silêncio.
Na gleba que agora tu renasce,
move-se um concerto,
de músicas tangídas de naturais instrumentos,
pelas mãos implacáveis
da evolução dos tempos.
IV
Pudera eu saber mil idiomas,
para descrever este meu drama.
Escrever sobre um recordo,
antes que esse se faça fugaz lembrança.
LEMBRO:
Tu, ainda muito pequenino,
na pequena praça.
O sol a bater na verde grama,
as sombras das árvores,
nos mosaicos da calçada em louca dança.
E tu gritavas...
Rias e gritava:
- Pai! Veja pai: não tenho medo.
E numa perna só pulavas.
En una pierna sola.
One leg...
una gamba.
Plasma de uma metáfora,
solidificada num rincão da alma.
Não a transformação da palavra,
a transformação em si da ação e o instante,
numa imagem plasmada.
Guilherme Percello
26 de fevereiro de 1982
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