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Quem vive de passado é museu e eu não quero ser um
Daniel Machado da Conceição

Disponível em: https://ensenanzaestudossociais.blogspot.com

     Os museus são locais em que documentos históricos estão disponíveis para visitação. Os registros como papéis, esculturas, artefatos, pinturas, vestimentas, utensílios etc., estão preservados para garantir a lembrança de um momento, de uma época ou de um período. São fragmentos de uma história que se mantêm registrada em fatos ou acontecimentos de um dado tempo. Geralmente, frequentamos esses espaços para admirar, refletir, observar e, claro, lembrar o passado.

         Todos, conhecemos um ditado popular que fala sobre esse espaço em particular, com a seguinte frase: “quem vive de passado é museu”! Uma sentença bastante simples que quando associada a um princípio base das relações interpessoais, ganha a dimensão que pretendo analisar. Viver do passado é dedicar boa parte da vida em rememorar situações, fatos ou acontecimentos, até esse momento, uma nobre atividade realizada por historiadores e outras profissões correlatas. Nós como indivíduos também temos a tendência a organizar e construir locais para depositar coisas "especiais", museus pessoais. Neles, elaboramos exposições para visitação frequente, armazenamos com o maior cuidado registros sobre aqueles que não queremos perdoar.

     Pretendo fazer um questionamento sobre os museus pessoais que construímos ao longo da vida. Não devemos viver do passado, no sentido de ficar remoendo circunstâncias e vivências que não foram do nosso agrado. Entretanto, temos a tendência em guardar rancores, mágoas e remorsos de outras pessoas. Dessa maneira, não satisfeitos com a situação, passamos a elaborar verdadeiras exposições para manter um olhar fixo nos assuntos mal resolvidos. Ao refletir sobre os museus pessoais, faço uma argumentação que envolve o perdão.

     O perdão é um princípio que nos parece muito difícil e que muitas vezes está carregado de valorização religiosa. Pessoalmente, passei pela experiência de ter um aprendizado sobre esse princípio, inclusive, posso recordar enquanto preparo esse escrito. Algo devo admitir, não é fácil esse processo de perdoar. Nosso entendimento limitado idealiza que é mais fácil guardar as mágoas em uma sala especial em vez de resolvê-las. Meu museu pessoal possui acesso restrito, ninguém terá contato com as obras que identifico como valiosos.

     Ao escrever, comecei a ponderar sobre o quanto vivo do e no passado? Não perdoar é manter o outro em débito. Por essa razão, construímos museus pessoais, pois, desejamos continuar a alimentar rancores para com aqueles que, ao nosso olhar, nos ofenderam. Devemos começar a pensar sobre qual o tamanho do nosso museu pessoal?

     Será que possuímos muitos bustos, esculturas, fotos, pinturas, objetos, palavras, expressões faciais, utensílios e documentos? O que parece impressionar é nossa dedicação em manter tudo muito limpo e bem polido. Outro fato interessante é pensar que o museu pessoal está crescendo continuamente. Ninguém está autorizado a entrar nele, mas o acervo sempre aumenta, necessitando sempre de um espaço mais amplo. É um depósito no qual passamos a acumular peças para lembrar o débito e justificar as mágoas. Enfeitamos os salões, os corredores e damos destaque de tempos em tempos às determinadas coleções.

     Para reduzir o acervo precisamos entender que o verdadeiro devedor é quem gasta tempo construindo museus pessoais. Primeiro passo é reconhecer as próprias falhas, preciso perdoar, não algo seletivo, mas perdoar a todos com objetivo de também receber minha remissão. Dessa maneira demonstramos nosso interesse e desejo de receber o dom de perdoar. Precisamos lembrar que não podemos apenas pedir a capacidade, é preciso começar a exercer o perdão, praticá-lo constantemente. Nesse caso, destruir as paredes do nosso museu pessoal é melhor do que continuar sua ampliação.

     Seu contínuo exercício irá nos ensinar como resolver as situações que surgem. Teremos, assim, a capacidade de conseguir antecipar a construção de uma nova ala em nosso museu, identificando as situações. Dessa maneira, passaremos a priorizar a resolução imediata das questões, evitando que se transformem em uma nova coleção. Não teremos tempo para idealizar uma nova exposição.

     Na maioria das vezes, a solução de conflitos envolve um primeiro passo que deve ser dado por nós mesmos. O motivo dessa instrução é para que consigamos perceber que nem sempre a pessoa que nos ofendeu faz ideia que ficamos ressentidos com uma palavra, um sorriso mal interpretado ou uma indiferença.

     Uma dúvida que surge sempre quando perdoamos alguém é: o que fazer quando a pessoa se torna reincidente? Nossa consciência parece dizer que já estamos justificados, pois, o perdão já foi exercido uma vez. O processo foi muito difícil na primeira vez, significou uma vitória pessoal, assim racionalizamos que nossa parte foi feita.

     Se não pensarmos na quantidade de vezes que devemos praticar o ato de perdoar, poderemos entender ou projetar a contínua redução do nosso acervo pessoal. Vamos parar de ter novas aquisições e passaremos a demolir paredes e a destruir as muitas peças que estavam expostas. Entretanto, um alerta nos foi dado caso tenhamos o interesse em continuar a ampliar o museu pessoal e seu acervo. Isto é, não aceitar o conselho de perdoar a todos. Acontecerá o que o Spencer W. Kimball expressou: “o rancor faz mal aos que o guardam, ele endurece, reduz e corrói”. Nessa mesma linha o escritor Augusto Cury, no livro “Pais brilhantes, professores fascinantes”, escreveu: “A rejeição de uma ideia negativa poderá nos fazer escravos dela. Rejeite uma pessoa, e ela dormirá com você, estragando seu sono. Perdoá-la fica emocionalmente mais barato”. Repetindo: "perdoar fica emocionalmente mais barato!"

     Em razão de pararmos de fazer investimentos em novos salões, em realizar reformas para dar destaque e importância aos diversos níveis de mágoas, passaremos a viver melhor. Teremos condições de voltar a frequentar lugares com liberdade, a falar com liberalidade, a servir o próximo com o coração aberto e receptivo. Devemos lembrar, todo novo projeto de construção requer investimentos, os quais trazem novas dívidas que passam a ser representadas em fundações e paredes que são erguidas como muros separando as pessoas.

     Então, quando pensarmos sobre perdoar os outros, devemos reconhecer que estamos evitando desperdício de energias físicas e emocionais. Embora seja um grande desafio, sem dúvida nenhuma, é muito mais barato perdoar e ter uma vida livre.

     Devemos evitar viver do passado, especificamente, aquele que aprisionamos em museus pessoais. Precisamos aprender a demolir as salas e alas que estão carregadas de rancor, mágoa e ressentimento. Essa deve ser nossa meta em busca da excelência. As ruínas do passado devem contar uma história e não nos aferrar a elas. Nosso objetivo não deve ser construir museus pessoais cheios de aborrecimento, a preocupação, prioritária, deve estar voltada em deixar boas recordações. Estes sim, feitos que ficarão eternizados na mente e no coração dos outros.


Biografia:
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação/UFSC, na linha de pesquisa Sociologia e História da Educação, com o tema de tese sobre o "estudante-trabalhador". Mestre em Educação pelo PPGE/UFSC (2015), com dissertação sobre o "estudante-atleta", isto é, jovens atletas das categorias de base do futebol que desenvolvem atividade de formação profissional concomitante a sua escolarização. Graduado na licenciatura (2013) e no bacharelado (2014) em Ciências Sociais pela UFSC. Integro o Núcleo de Estudos e Pesquisa Educação e Sociedade Contemporânea (NEPESC/CED/UFSC), participo como membro do Grupo Esporte e Sociedade. Atuação como Professor de Sociologia no Ensino Médio Regular e EJA, Educador Social, Tutor à Distância e Conteudista para programa de capacitação profissional. Bolsista no Programa de Bolsas Universitárias de Santa Catarina UNIEDU/Pós-Graduação. http://lattes.cnpq.br/2349066033166809
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