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A Festa
Brilhos da noite
Jô Mendonça

Resumo:
A noite é perfeita para se ir a uma festa, beber, dançar e beijar muito na boca.

Era sábado, dia da tão esperada festa na casa de Álvaro. Paulo era calouro na faculdade e já havia sido uma das vítimas do famoso trote, tinha levado um banho de tinta vermelha. Na hora ficou indignado, mas depois relaxou e se conformou. Como ele, haviam vários alunos recém chegados e cobertos de tinta.
A festa seria no bairro Tucuruvi, onde Álvaro morava com os pais, que estavam viajando, e a ausência deles tornou a festa viável para o rapaz e seus amigos da faculdade.
Paulo havia deixado sua cidade natal, Ribeirão Pires, para cursar jornalismo em São Paulo, morava em um alojamento com mais cinco rapazes que estudavam na mesma universidade. Álvaro e Paulo estudavam na mesma turma e o organizador da festa havia convidado alguns colegas de sala.
Eram onze horas da noite, Paulo já estava pronto para sair, olhou para Jaílson, um de seus amigos de quarto e com quem tinha mais afinidade.
_Cara, levanta desse sofá e vamos comigo pra festa!
Jaílson ficou inibido, assustado e receoso. O rapaz não tinha o hábito de ir a festas, danceterias e aquele convite tinha sido uma surpresa.
_Festa? _Indagou surpreso.
_É, festa! Por que o espanto?
_Eu não sou muito de sair e...
_Então, aproveita a oportunidade! _Interrompeu Paulo incentivando o amigo.
_Mas é que eu não conheço ninguém.
_Conhece a mim. Anda logo!Troca de roupa que eu te espero.
Jaílson levantou do sofá, trocou de roupa, vestiu-se social.
_Que isso cara? A gente vai pra uma festa não pra uma reunião de uma multinacional. Tira essa roupa de executivo e veste uma coisa mais esporte!
Jaílson tinha vinte anos, era um pouco mais baixo do que Paulo e tinha cabelos crespos, olhos castanhos, era tímido e falava pouco.Cursava ciências da computação. Tanto ele quanto Paulo usavam óculos, gostavam de ler e se interessavam por assuntos relacionados a astronomia.
_Cara, vamos tirar os óculos, para não sermos os nerds da festa! _Sugeriu Jaíson.
Os dois riram.
_Bem lembrado, tinha me esquecido desse detalhe. _Disse Paulo.
Os dois tiraram os óculos. Jaíson trocou novamente de roupa, desta vez optou por um visual mais despojado, descontraído. Saíram e tomaram um táxi, Paulo explicou para o taxista onde era a casa e o motorista deu a partida. No caminho, Paulo e Jaíson observavam as ruas de São Paulo, para os rapazes a cidade ainda era uma novidade. Jaíson era de Olinda e havido deixado sua terra para estudar naquela cidade gigantesca e cosmopolita.
_Como essa cidade é linda! _Elogiou Jaíson.
_É uma imensidão de cidade! _Comentou Paulo.
_Tudo aqui é em grandes proporções. _Disse Jaílson.
_Enormes proporções, tem hora que me sinto perdido aqui. _Completou Paulo.
_Eu também. _Identificou-se Jaílson.
_Vocês são de onde? _Indagou o taxista, um homem com cerca de quarenta anos.
_Eu sou de Olinda.
_Eu sou de Ribeirão Pires. _Disse Paulo.
_Eu já fui pra Olinda. _Contou o taxista. _É uma bela cidade.
_É verdade. _Concordou Jaílson.
_Então, vocês estão gostando de Sampa?
_Eu tô adorando.
_Eu também, aqui tem de tudo e mais um pouco. _Disse Paulo.
O táxi ia rumo ao bairro Tucuruvi, percorria ruas e mais ruas, avenidas e mais avenidas, Paulo e Jaíson observam as pessoas, os bares, as bancas de jornal, tudo que saltava aos olhos. Cada movimento, cada rosto, cada gesto, cada coisa, cada pessoa, cada cachorro e gato de rua, estrangeiros, paulistanos e brasileiros de todos os cantos do país. Muros e viadutos, carros e motos que circulavam no asfalto. Adultos e crianças, jovens e velhos, todos ali, na imensidão da grande São Paulo. Paulo lembrou-se da sua infância, de sua família, de sua vida provinciana deixada para trás, nada era parecido com o que via naquele momento, sentiu um misto de espanto e admiração, um medo do desconhecido. Jaílson parecia sentir o mesmo.
O táxi chegou em Tucuruvi, a saga do taxista era achar o endereço, já que conhecia pouco o bairro.
_A primeira casa barulhenta que você encontrar, é ela. _Avisou Paulo.
O taxista riu.
_Festas de jovens são sempre barulhentas. Mas isso é bom. _Disse o motorista.
Os três ainda circulavam pelo bairro a procura da casa de Álvaro, a expectativa de Paulo e Jaílson era grande. De repente a casa barulhenta apareceu e era mesmo o endereço da festa. Os dois rapazes racharam a corrida e o taxista partiu satisfeito. Alguns convidados tomavam cerveja do lado de fora e tinham até casais de namorados e ficantes trocando beijos. Tímidos e receosos, Paulo e Jaílson entraram na sala, repleta de futuros jornalistas e alguns outros convidados que não eram alunos da faculdade. Paulo cumprimentou os colegas e apresentou Jaílson a todos, o rapaz deu um sorriso acanhado, ele e Paulo logo aceitaram uma latinha de cerveja para começar bem a noite. No rádio, um CD de música eletrônica, estilo musical que mais agradava os convidados, alguns freqüentadores de raves. Poucos dançavam, alguns se contentavam em ficar sentados conversando, bebendo e fumando. De repente chega Álvaro, um rapaz de vinte e um anos, fanfarrão e barulhento. Era sexualmente promíscuo e costumava usar muitas palavras de baixo calão. Era de boa aparência, tinha olhos claros, cabelos lisos, cumpridos e castanhos, usava cavanhaque. Era baterista de uma banda de rock alternativo que se apresentava nas noites paulistanas.
_Paulão! Que bom que você veio! _Alegrou-se Álvaro.
Os dois se abraçaram.
_Esse é o Jaílson._Paulo apresentou o amigo.
_Prazer Álvaro! _Apresentou-se o dono da casa.
_Igualmente! _Respondeu o estudante de ciências da computação, bastante acanhado.
Os dois deram um aperto de mão.
_Fica à vontade! _Disse Álvaro.
Álvaro deixou os dois e foi ao encontro da namorada. Mais pessoas, agora bem desinibidas, dançavam na sala, que era bem espaçosa. O passe era livre para a cozinha, qualquer um que quisesse poderia entrar e pegar uma bebida ou algum petisco. Paulo já estava na segunda latinha de cerveja. Jaílson ,por enquanto, recusava a bebida.
_Vamos lá pro quintal, tem uma galerinha lá fora. _Paulo convidou Jaílson.
Os dois foram para o quintal da casa, haviam algumas mesinha com cadeiras e pessoas sentadas bebendo cerveja e comendo petiscos. Havia uma piscina e uma churrasqueira, um cão da raça pitt bull, que corria livremente entre os convidados e até brincava com eles. Álvaro chegou trazendo maconha, ofereceu aos colegas, alguns aceitaram, outros recusaram.
_Toma aí! _Ofereceu a Paulo.
Paulo olhou para a maconha e quis aceitar, nunca havia fumado baseado antes, mas não teve coragem.
_Não cara! Eu não mexo com isso.
_E você Jaílson? _Ofereceu o dono da casa.
_Não, obrigado! _Recusou o estudante de ciências da computação.
Álvaro se foi e dividiu a maconha com outros colegas que gostavam de fumar. Muitos já usavam pedaços de folhas de seda para fazer os baseados, alguns bem grandes. Paulo via os convidados fumando e sentia um enorme arrependimento em ter recusado, queria se desinibir mas não conseguia, sentia um enorme desconforto em abrir mão do que realmente queria por medo do que os outros iriam pensar, acabava dizendo não ou sim, contra sua vontade, para manter a imagem de rapaz correto.
_Nossa, como tem maconheiro nesse lugar! _Espantou-se Jaílson.
_É. Tem também dois nerds, ainda sóbrios e com cara de tacho, parados enquanto os outros se divertem. _Lamentou Paulo.
Os dois riram da situação.
_Melhor a gente tomar uma atitude, ou então vamos sair daqui frustrados. _Disse Jaílson.
_Vamos dançar pelo menos!
Os dois voltaram para a sala, a música eletrônica foi substituída pela dance music. Paulo e Jaílson se juntaram a massa de convidados que dançavam na sala. A medida que o tempo ia passando as pessoas iam se soltando, os rapazes davam em cima das garotas e muitos eram correspondidos. Paulo e Jaílson pegaram mais uma latinha de cerveja e dançavam também, dessa vez, um pouco mais desinibidos. No meio dos convidados na sala, um rapaz chamou a atenção de Paulo, não era aluno da faculdade, decerto algum colega de Álvaro de algum outro lugar. Era um rapaz de cabelos cacheados,pardo, barba por fazer e físico esculpido com musculação. Interessado, Paulo buscou com seus colegas de classe informações sobre ele e ficou sabendo que o moço era professor de educação física e personal trainer. Paulo já estava cheio de fingir para todos que gostava de mulher e queria saber como era a sensação de beijar outro homem. O professor de educação física percebeu que estava sendo observado e Paulo sentiu um frio na barriga, e se o professor ficasse com raiva? Jaíson percebeu que o amigo flertava com outro homem.
_Por que você não para de olhar pra aquele camarada ali?
_Porque eu gostei dele. _Sussurrou Paulo ao ouvido de Jaílson.
_Cara, cuidado! Não esquece que essa é uma festa hétero. _Lembrou o amigo falando também ao ouvido. _Se ele perceber pode até se enfezar com você.
_ Cara, não me desanima!
_Só tô te alertando.
Paulo ignorou o conselho do amigo e continuou a flertar com o professor que correspondia a seu olhar. Pouco a pouco os dois iam se aproximando, quanto a Jaílson, ele via muitas garotas interessantes, mas lhe faltava coragem para tomar iniciativa na paquera e sentia muito medo de levar um fora, se consolava com a latinha de cerveja. O professor sorriu para Paulo e ele correspondeu também com um sorriso. O estudante de jornalismo não queria, de maneira nenhuma, perder aquela oportunidade. Mais próximos, já era possível iniciar uma conversa. Paulo queria fugir, seu coração batia fortemente, respirou fundo, passou a mão pelos cabelos, olhou para os lados, muitos casais e muito cheiro de maconha no ar.
_Você também faz jornalismo? _Iniciou o professor.
_Sim. _Respondeu Paulo acanhado.
_É, metade da galera da festa cursa jornalismo.
_Estudamos juntos.
_Legal!
_E você?Faz o que? _Apesar de já saber algo sobre o rapaz, precisava ter assunto, mesmo que isso implicasse em perguntar algo que já sabia.
_Sou personal trainer e dou aula em colégios de ensino médio.
_É instrutor de academia também?
_Não. Já fui, mas agora me dedico mais as aulas e aos meus clientes, bem na maioria mulheres acima dos trinta anos, que querem ficar saradas. _Respondeu sorridente.
_Como é seu nome?
_Eduardo. E o seu?
_Paulo.
_Prazer!
Um aperto de mão selou um vinculo entre os dois, mesmo que fosse só por aquela noite.
_Tem quantos anos Paulo?
_Vinte e dois. E você?
_Vinte e oito.
_Vamos pra outro lugar? _Convidou Eduardo.
_Vamos.
Os dois saíram da sala, Paulo acompanhava Eduardo, ambos subiam as escadas que levavam aos quartos, a medida que subiam Paulo sentia ainda mais medo e ao mesmo tempo alívio por finalmente estar sozinho com Eduardo. No segundo lance de escadas, já não havia ninguém por perto, Eduardo olhou para o rosto de Paulo.
_Você é bem parecido com um irlandês, seu biotipo, seu jeito formal de ser. _Comentou.
_Meu avô materno é irlandês, de Dublin.
_Você já esteve na Irlanda alguma vez?
_Sim, uma vez só, aos dez anos. Ficamos um mês em Dublin.
   O segundo lance de escadas terminou e finalmente chegaram a um dos quartos, Eduardo abriu a porta e acendeu a luz. Paulo percebeu o quanto Álvaro era desorganizado, cama desarrumada e roupas espalhadas por todo o canto. Eduardo fechou a porta e deu um beijo na boca de Paulo. Os dois deram um longo e demorado beijo. Para Eduardo ficar com outro homem não era novidade, mas para Paulo era algo novo, seu coração batia acelerado. Abraçou Eduardo, e era estranha a sensação de abraçar um homem com tanta intimidade e para quem só tinha ficado com mulheres, aquela experiência o deixava confuso, mal sabia o que pensar, só queria beijar Eduardo. As mãos de Paulo percorreram as costas do professor por debaixo da blusa. De repente alguém entra e flagra os dois, era Jaílson.
_O que você quer? _Indagou Paulo ficou irritado.
_Desculpa interromper, é que eu só vim avisar que já tô indo embora.
Eduardo pegou um pedacinho de papel e uma caneta no meio da bagunça, anotou seu telefone e entregou a Paulo, ele fez o mesmo.
_Eu te ligo e a gente marca alguma coisa. _Disse Eduardo.
_Tudo bem. _Disse Paulo.
_Podem ficar a vontade! Só vim avisar mesmo. _Disse Jaílson.
_Não, eu já tô indo também. _Disse Eduardo constrangido. _Até mais Paulo, a gente se fala depois! _Despediu-se.
_Falou! _Despediu-se Paulo.
Eduardo se retirou. Paulo queria trucidar Jaílson, irritado, deu um murro na porta do guarda-roupas.
_Calma cara! _Pediu Jaílson.
_Por que você tinha que entrar? _Esbravejou o rapaz.
_Eu não sabia que você tava beijando esse cara! Nunca imaginei que esse camarada fosse gay!
_Mas você não viu a gente subindo?
_Vi, mas não imaginei que...
_Você é muito burro! _Interrompeu Paulo nervoso. _Eu subindo com um cara, o que você imaginou que a gente ia fazer?
Jaílson sentiu-se diminuído e Paulo reconheceu que havia pegado pesado. Passou as mãos pelos cabelos deixando-os ainda mais desalinhados.
_Desculpa! _Redimiu-se o estudante de jornalismo.
_Não, eu é que peço desculpas, sou muito ingênuo, muito desatento, acabo não percebendo as coisas que acontecem ao meu redor.
_Vamos embora! Já são quase três horas da manhã.
Os dois desceram as escadas e procuravam por Álvaro, queriam se despedir. De repente Álvaro e a namorada aparecem fumando um baseado.
_Cara, a gente já ta indo. _Avisou Paulo.
_Que isso cara! É cedo ainda. _Estranhou Álvaro.
_Já são quase três horas, não tô acostumado e ficar acordado até tão tarde, já tô cansado. _Disse Jaílson.
_Pô cara! Tá parecendo criança! _Brincou Álvaro. _A gente vai tirar um racha agora, lá na Faria Lima.
_Racha? _Interessou-se Paulo.
Paulo adorava velocidade e automobilismo, era fissurado por corrida de Fórmula Um e Fórmula Indy. Aos dez anos, participava de corridas de kart. Aquele era o momento do estudante de jornalismo experimentar a sensação de liberdade e desregramento que sempre almejou ter. Olhou para Jaílson, que já estava farto da festa e injuriado por não ter ficado com nenhuma garota. Havia recusado o baseado, mas não queria de forma alguma recusar aquele racha. Sentia muito medo, mas ao mesmo sentia-se preparado para encarar aquele desafio, ali, longe do jugo dos pais, podendo decidir fazer uma loucura sem ser repreendido, censurado ou criticado. Ali ele teria chance de ser “o cara” e mostrar do que era capaz. Ir embora? Nem pensar, aquele racha era irrecusável.
_Você vai participar? _Indagou Álvaro.
_Só se for agora. _Aceitou Paulo sem pestanejar. _Mas eu não tenho carro tunado.
_Não tem problema, você tira o racha no meu.Toma! _Disse Álvaro entregando a chave do carro a Paulo.
_Você vai participar de um racha?_Assustou-se Jaílson. _Não, eu não ouvi isso!
_Vamos lá então? _Chamou Álvaro.
Alguns convidados já haviam ido embora, os que ainda permaneceram lá saíram da casa e partiram em seus carros, todos rumo à Faria Lima para tirar e assistir ao racha. Ao chegar lá no local, já havia uma multidão de pessoas que iriam assistir ao evento que havia sido marcado por telefone. Mais um grupo se juntaria a multidão para assistir. Álvaro era rachador experiente, mas dificilmente participava de rachas legalizados. Naquele momento ele cedeu seu carro para Paulo poder participar, uma forma que encontrou de ser solidário com o amigo. Naquela noite ele ficaria apenas como espectador.
_Paulo, você não precisa fazer essa doideira. Vamos tomar um táxi e ir embora pra casa! _Suplicou Jaílson, apavorado com o racha.
_Não, eu vou tirar o racha sim.
_Você pode atropelar alguém ou bater com o carro!
_Você de novo querendo me desanimar?Deixa de ser chato cara!Ah, e torce por mim!
A multidão vibrava mesmo antes de começar, gritava pelos nomes dos participantes, os colegas de Paulo e Álvaro da faculdade torciam por Paulo. Os gritos de incentivos dos amigos deixava Paulo envaidecido, orgulhoso. Os participantes entraram nos carros, eram três veículos, todos tunados. Paulo respirou fundo, a partir daquele momento ia sentir toda descarga de adrenalina a que tinha direito. A largada foi dada, os três motoristas partiram. Muitos gritos e incentivos dos espectadores. Paulo sentia uma incrível sensação de liberdade e poder, naquele momento ele era “o cara”, o estudante de jornalismo sentia uma grande necessidade de auto-afirmação e almejava sempre ter a chance de estar no controle, abandonar o papel de rapaz politicamente correto e se dar o direito de ser politicamente incorreto de vez em quando. Acelerou e já estava a 100km por hora, mas era pouco queria chegar a 120km por hora. O oponente ao lado direito tentava alcançá-lo, mas Paulo era veloz, voraz quando estava com as mãos num volante, transformava-se em um animal selvagem e obstinado a correr o máximo que poderia, mesmo que isso custasse a sua vida. O outro adversário, do lado esquerdo também tentava alcançá-lo, mas já estava em último, não era veloz o bastante. Atingido os 120km por hora, ele já almejava a velocidade máxima do veículo, extrapolar todos limites possíveis, era uma fúria cega e incontrolável sobre quatro rodas. O concorrente da direita conseguiu alcançá-lo e uma curva vinha pela frente, Paulo fez o contorno, os pneus lambiam o asfalto com tanta agressividade que emitiam um ruído agudo, oriundo do impacto das rodas com o chão, os três carros cantavam pneu e aquilo deixava os espectadores ainda mais eufóricos. A disputa continuava. Jaílson temia pelo pior, assistia ao lado de Álvaro que gritava, vibrava e torcia por Paulo. A velocidade não tinha limites, já estavam a mais de 200km por hora e os três estavam no páreo, era pura adrenalina. Paulo sentia um êxtase, era como se estivesse injetado na veia a droga mais forte do mundo, estava disposto a ganhar aquela disputa. Mais um contorno cantando pneus e o carro desacelerou com a curva, Paulo viu uma mulher morena, de cabelos curtos passando em sua frente, não fazia parte da platéia que o assistia, apenas caminhava apressada, carregando uma bolsa pequena que apertava contra o peito, sentia frio, o agasalho que ela usava não era suficiente para aquecer seu corpo. Foram apenas alguns segundos, somente segundo, frações de segundos e Paulo atropelou a mulher, a jovem foi lançada com violência no ar, seu corpo parecia mais leve do que uma pena, impressão causada pelo forte impacto, foi jogada contra o asfalto e ao cair, seu corpo parecia mais pesado do que um bloco de concreto. Jaílson viu e correu até o local, muitas pessoas se aglomeraram para ver o ocorrido, algumas entraram em desespero. Paulo voltou a realidade e sentiu-se pela primeira vez, um fora da lei, percebeu o que tinha feito e não sabia o que fazer, pensou em socorrer a moça, mas soube que outra pessoa já havia chamado o resgate e a moça, apesar de estar em uma situação crítica, ainda estava viva. Ninguém poderia tirá-la dali, teriam que esperar o resgate chegar para removê-la. Sem que ninguém esperasse a polícia chegou para deter os rachadores, sem pensar duas vezes, Paulo e seus dois oponentes pisaram fundo e fugiram dali, a polícia os perseguia, Paulo já não sentia mais prazer, sentia medo de ter matado uma inocente, medo de ser preso, continuava pisando fundo, precisava fugir da polícia, ele estava ciente de que um carro tunado é mais veloz do que um carro comum, o que o ajudaria na fuga. Paulo olhava para trás, a viatura já estava distante, continuou acelerando, entrou em uma esquina, já nem sabia mais onde estava, entrou em uma avenida, acelerou até a polícia o perder de vista.
Era meio dia e quarenta, Paulo chegou em casa e encontrou Jaíson almoçando em frente a televisão.
_Você tá bem? _Indagou Jaílson ao amigo.
_Sim. Consegui fugir da polícia! _Disse Paulo aliviado.
_Se tiver com fome, tem macarronada na panela.
_Mas esse macarrão é de ontem. _Reclamou Paulo.
_ Você não achou que eu ia fazer comida?
_Tá, eu vou comer isso mesmo. E o pessoal? _Quis saber Paulo a respeito dos outros companheiros de quarto.
_Foi todo mundo pra praia, Caraguatatuba.
_E por que você não foi pra Caraguatatuba com eles?
_Eu não quis, eles saíram cedo e eu queria dormir mais um pouco.
_O carro do Álvaro tá aí, ele me ligou e disse que hoje a noite vem buscar, vai direto pra Paulista tirar outro racha.
_Outra vez? _Espantou-se Jaílson._ O de hoje de madrugada já não foi o suficiente?
_É que ele não participou, só assistiu. _Paulo foi até a panela e serviu-se de macarrão com molho de tomate. _Agora ele quer correr.
_Cara, aquela mulher que você atropelou foi levada pelo resgate. Ela tá viva!
_Puxa, graças a Deus! _Disse Paulo aliviado
_Mas tá em estado grave, deu aí no noticiário.
_O racha saiu no jornal?
_Saiu. O nome da moça que você atropelou é Eunice Pereira da silva, ela é casada, tem trinta e dois anos e tem dois filhos pequenos.
_Puxa! Que furo de reportagem! _Brincou Paulo.
_Cara, reza pra essa mulher não morrer!
_Ela vai sair dessa! _Paulo foi otimista.
Os dois terminaram de almoçar e Paulo deu uma boa sugestão para os dois se divertirem naquela tarde de domingo.
_O que você acha da gente sair pra jogar boliche?
_Boa idéia! Vamos sim!
   Paulo tomou um banho, escovou os dentes e se arrumou, Jaílson fez o mesmo, ligaram para o taxista que os havia levado para a festa.
_Ao invés de chamar um táxi, poderíamos ir no carro do...
_Não cara! _Interrompeu Jaílson. _Por culpa desse carro você quase matou uma pessoa, melhor a gente ir de táxi mesmo. _Interrompeu Jaílson.
_Tudo bem! _Aceitou Paulo.
Cinco minutos depois o taxista chegou e os dois entraram. Paulo deu o endereço de onde iriam e o motorista deu a partida. Paulo e Jaíson observavam as ruas de São Paulo, a tarde estava ensolarada e apesar de ser domingo, muitos estabelecimentos estavam abertos, automóveis e pessoas nas ruas, bancas de jornal, adultos, crianças, jovens, idosos, todos a caminhar nas ruas da cidade que nunca para.
























Biografia:
Sou carioca, escritora e atriz de teatro.Escrevo romances, contos, crônicas e poemas.
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