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A Xicara
Vanderlei Antônio de Araújo


   O que vou fazer com este café? Foi o que o meu irmão pensou, ao sentir um cheiro de barata na xícara que o dono da casa acabara de lhe entregar. Não suportava cheiro de baratas, bicho que sempre lhe causara nojo. No meio daquela sala cheia de gente, tomou consciência de que precisava jogar o café fora. Hesitou-se por um ins-tante. Mas logo compreendeu que a sua decisão era irrevogável. Estudou a questão e concluiu que a única maneira de jogar o café fora, seria disfarçadamente, para que ninguém notasse. Primeiro, porque o dono da casa era seu amigo e não queria lhe fazer uma desfeita. Segundo, porque não queria passar pelo embaraço de ser pego jogando a bebida fora.
   Havia na sala mais de vinte pessoas, todas conhecidas. Tomavam café numa reunião política, no interior do estado. Não havia cadeiras para todo mundo. Algumas estavam sentadas à mesa, enquanto outras, em número bem maior, estavam em pé. Ele, num canto da sala, não falava com ninguém. Calado, esforçava-se para encontrar uma solução para seu problema. Precisava fazer algo urgente, mas o que? De repente, sua atenção se prendeu a uma janela basculante, no fundo da sala. Aquele achado o convenceu de que tinha encontrado a solução procurada. Por vários segundo olhou a janela, quando foi atingido, pela agradável sensação de que era ali, o local certo para se livrar do café.
   Entretanto, precisava ir até lá, pensou. Imaginou, pela posição em que estava, que se chegasse até a janela teria a chance, em poucos minutos, de resolver o pro-blema. Pôs-se a estudá-la, antes mesmo de se decidir caminhar na sua direção. Talvez desse para o quintal ou para algum um outro lugar. O importante é que seria um bom local para jogar o café fora. Como havia muita gente entre ele e a janela, planejou chegar até ela, deslocando-se no meio das pessoas, bem devagarzinho, sem levantar suspeita.
   E assim, entre sorrisos e acenos de cabeça, pediu licença às pessoas a sua frente e lentamente se moveu em direção da janela, parando às vezes para conversar ora com um ora com outro. Para que não desconfiassem de sua intenção, a cada passo, soprava o café já frio e fingia que o tomava, fazendo todos os ruídos apropriados. Só não entendia como é que aquela gente conseguia tomar café com cheiro de barata.
   Caminhava lento e pensativo até que, finalmente chegou junto à janela. Disse para si mesmo, antecipando a vitória: Até aqui, tudo correu bem. Olhou por entre as grades da janela e viu que o quintal era cercado por um muro alto. Depois, verificou em vol-ta com muito cuidado, pela última vez, se alguém o observava. Ninguém.
    Fechou os olhos e sem pensar duas vezes, jogou o café pela janela com toda a força que pôde reunir. Ficou orgulhoso de sua proeza. Sentiu até vontade de gritar, de bater palmas, de se aplaudir, comemorando sua esperteza. Mas, ficou gelado ao descobrir que a xícara tinha duas partes. Uma delas, o suporte metálico que estava em sua mão. A outra, a de porcelana, ele acabara de jogar fora junto com o café.





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