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A Arma
Vanderlei Antônio de Araújo

A estrada, naquele início da manhã, estava totalmente deserta. Ele viajava sozinho rumo a uma cidade do interior de Goiás. Como havia muitos buracos no asfalto, mantinha os olhos sempre presos a estrada, preocupado com o estado deplorável da pista. Não queria arrebentar o carro nos buracos.
Não fosse isso, nem teria notado duas mulheres pedindo carona na beira da estrada. Sempre se orgulhou de ser um homem prudente, incapaz de agir por impulso. Lembrou-se dos perigos de dar carona a desconhecidos. Perdera a conta das pessoas conhecidas, que se deram mal dando carona. Prevenido, não pararia. Talvez não muito bem prevenido, por que ao se aproximar e ver que se tratava de duas simpáticas e inofensivas velhinhas, mudou de idéia, freou o carro e deu carona a elas.
Disseram que ficariam na próxima cidade, a mesma para onde ele se dirigia.A mais velha sentou-se na frente, ao seu lado. Carregava consigo uma sacola, destas de viagem, que não parecia tão leve. A outra, ocupou o banco de trás. Perguntaram seu nome e até o que iria fazer na cidade. Depois de ficar um bom tempo caladas, a do banco de trás, começou a falar. A outra se voltou para ouvir e a ajudou a encompridar a conversa, que logo se transformou numa animada prosa. Aí, não pararam mais.
Ele dirigia em silencio, estava muito mais atento aos buracos da estrada do que na conversa das duas. Às vezes despertava a atenção por alguns segundos para ouvir o que elas diziam. Mas, sem interesse imediato, logo desviava o pensamento. Curiosamente não pensava no que falavam, não pensava em nada, somente em desviar o carro dos buracos, que eram muitos, e livrá-lo de maiores estragos.
O assunto da conversa então, passou a ser a violência. A de trás contou que o sobrinho fora assaltado três vezes nas estradas. Na última, perdeu o carro e tudo que tinha, foi um horror. Foi aí, que a da frente mostrou-se triunfal:
- Eu ando com uma arma. Por isso, não tenho medo de nada nem de nin-guém. Minha força está nessa arma.
- O quê?!, Ele deixa escapar num susto
A súbita revelação fez um calafrio lhe subir pelo corpo e todos os sentidos parecem funcionar agora, e entraram em alerta. Aí então, passou a acreditar que entrara numa fria, dando carona àquelas mulheres. Uma delas portava uma arma. Pelo visto, não seriam tão pacíficas e inofensivas como pensara, e podiam até serem duas assaltantes perigosas, disfarçadas de velhinhas. A revelação de que possuía uma arma, poderia muito bem, ser um sinal para iniciarem um assalto.
Entregue a esses pensamentos, desligou-se, completamente, da estrada, imerso nas suas interrogações sobre as duas mulheres. Cautelosamente, procurou estudar as feições de cada uma. Primeiro, a que estava a seu lado. Queria encontrar nela algum vestígio de natureza criminosa. Mas não notou nada que o fizesse suspeitar dela. Olhou pelo espelho retrovisor e viu apenas os cabelos da outra, enlouquecidos pelo vento. Não conseguiu ver o seu rosto. Ela estava sentada bem atrás dele.
Do temor à curiosidade, hesitou em perguntar e, imediatamente, passou a juntar mentalmente os objetos de valor que possuía no carro. Caso pedissem, saberia onde estavam. Depois manteve os olhos fixo a frente, enquanto diminuía a velocidade diante de um grande buraco que surgiu de repente.
Passaram-se alguns segundos de absoluto silêncio. A mulher que dissera estar armada tirou uma bolsa da sacola que levava no colo. Apertou-a junto ao peito, e disse batendo nela:
- Está aqui minha arma, com ela não tenho medo de nada. Quer ver?
   Ele prendeu a respiração e contra todas as leis da prudência, decide ir até o fim e receoso disse sim.
Endireitou-se ao volante procurando ver a arma e olhou curioso para as mãos da mulher. Aí, ela tirou um livro de dentro da bolsa, sorriu e mostrou, era a Bíblia.



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