Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Amor em xeque
(Eu sei que vou te amar: um livro, uma love story)
Roberto Queiroz

É difícil falar do amor. Quem tentou, saiu cheio de cicatrizes (e em alguns casos, renovado). Porém, é uma catarse necessária, acho até imprescindível, principalmente em tempos caóticos e confusos como estes atuais, cheios de fake news e sociedade polarizada guerreando por uma classe que nunca se importou com o povo.

Levando isso em consideração me deparo com um exemplar de Eu sei que vou te amar, livro de Arnaldo Jabor criado a partir do longametragem homônimo de 1986 que deu a Palma de Cannes à atriz Fernanda Torres, abandonado numa barraca dessas de livros usados em plena feira de subúrbio. Já havia lido o romance uns oito anos atrás e adorado (tanto que, quando lançada sua versão para o teatro, fui correndo assistir). Retomá-lo após tanto tempo e ciente do que o tema proposto nele fez na minha própria vida, decidi encarar a empreitada novamente.

Eu sei que vou te amar - que tem tintas de Vinicius de Moraes não só no título - traz um casal que viveu junto por seis anos e após uma breve separação se reencontra para discutir a relação que passou e tentar entender o que fez de errado no processo. Na própria contra-capa do livro o autor define sua obra como "o livro definitivo a traduzir as D.Rs". E está absolutamente certo.

O romance de Jabor é um tapa na cara com luvas de pelica na vida de casais que passaram a vida errando em seus relacionamentos e não conseguem admitir a culpa (isso quando não empurram toda a parte catastrófica para a conta da outra metade da relação).

A narrativa é cheia de silêncios, reticências, discursos entrecortados. Há momentos em que se percebe nitidamente a tentativa (seja dele ou dela) de construir sua defesa no calor do momento, tentando deixar no passado escolhas infelizes que fizeram, mas que são indispensáveis para entender o que os levou ao término.

Há um clima entre o rock n' roll e a bossa nova conflitando no cenário que, na versão cinematográfica, acaba por remeter ao Steven Soderbergh de Sexo, mentiras e videotape (tenho até vontade de rever o filme para saber se ainda tenho essa mesma impressão de quando o assisti pela primeira vez). E essa antítese de sentimentos, gostos, caminhos, é muito bem-vinda na hora de entendermos os sentimentos dessa geração (que não é a minha), ofuscada pelo período militar e suas castrações ideológicas.

Talvez muitos que conheceram a obra quando acabara de ser lançada a considerem hoje datada e defendam a ideia de que nada disso acontecesse com a atual geração, simplesmente porque ela "não ama mais com esse mesmo vigor". Em certo sentido, concordo. Tornamo-nos evasivos, efêmeros e mentirosos de carteirinha como sociedade, mas ainda vejo a possibilidade de podermos discutir a vida a dois (pelo menos, entre "alguns" seres humanos).

Em outras palavras: a literatura pretendida por Arnaldo Jabor - ele próprio, um provocador por natureza - é debochada, irônica, e toca numa questão muito contemporânea. Perdemos a capacidade de ouvir. Queremos ordenar e fazer dos outros empregados de nossa vontade. E não é à toa nem começou do dia para a noite esta cultura tendenciosa.

É uma pena que nossos literatos não tenham migrado mais para esse debate nos últimos anos. Andamos carentes de uma boa discussão. Não essa guerra de interesses dos dias de hoje, esse mundo videogame onde seus vizinhos, parentes, amigos são adversários a serem aniquilados e nada mais.

Por mais amores de carne-e-osso como este aqui e menos vidas de plástico, botoxizadas, construídas à bisturí e esteróides...


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
Número de vezes que este texto foi lido: 52861


Outros títulos do mesmo autor

Artigos Cicatrizes não têm prazo de validade Roberto Queiroz
Artigos A revolução impressa Roberto Queiroz
Artigos O passado nunca foi tão presente Roberto Queiroz
Artigos Sinônimo de cinema Roberto Queiroz
Artigos A rainha do pop declara guerra à tudo e todos Roberto Queiroz
Artigos Obsessivo Roberto Queiroz
Artigos O corredor polonês Roberto Queiroz
Artigos A semente da dúvida Roberto Queiroz
Artigos O hércules do rock Roberto Queiroz
Artigos Nem tudo é o que parece Roberto Queiroz

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última

Publicações de número 21 até 30 de um total de 188.


escrita@komedi.com.br © 2024
 
  Textos mais lidos
Depressivo - PauloRockCesar 54011 Visitas
O Senhor dos Sonhos - Sérgio Vale 53992 Visitas
Cansei de modinha - Roberto Queiroz 53974 Visitas
Desabafo - 53960 Visitas
Saudações Evangélicas (Romanos 16) - Silvio Dutra 53946 Visitas
Jornada pela falha - José Raphael Daher 53937 Visitas
Novidade no Céu - Teresa Vignoli 53926 Visitas
A menina e o desenho - 53865 Visitas
sei quem sou? - 53840 Visitas
MENINA - 53831 Visitas

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última