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A revolução impressa
(50 anos de O Pasquim, rebeldia e a necessidade de falar contra o sistema)
Roberto Queiroz

Muitas vezes eu me pego idolatrando fenômenos da mídia e da cultura anteriores à época em que eu nasci. Acreditem: isso na minha vida é mais comum do que parece. Por exemplo, a beat generation e sua trinca de autores genais - Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs - que começou bem antes de 1976 (ano de minha chegada ao mundo) e mesmo assim me deixou louco e refém para o resto da minha vida.

Com O Pasquim aconteceu uma relação parecida. Ele deixou de dar as caras nas bancas de jornal nacionais em 1991 (eu era um mísero estudante de segundo grau em uma escola pública) e até hoje me ressinto de não tê-lo conhecido como gostaria. Até porque as pessoas mais velhas com quem eu conversava nessa época volta e meia me diziam: "você não faz ideia do que perdeu!".

E não é que O Pasquim chegou ao seu cinquentenário no último dia 26 de junho não só mais moderno e atual do que nunca, como também prometendo o lançamento de todas as suas edições na internet, na íntegra, a partir de agosto? Sim! Sim! Sim!!!! Ainda há esperança para o mundo!

A página da Wikipédia - pai dos burros para essa geração alienada e que vem adorando recontar a história do país a seu bel prazer - sobre o Pasquim chama-o logo de cara de "semanário alternativo brasileiro, de característica paradoxal". Putz! E ainda me perguntam porque eu não leio quase nada nesse site. Eles não fazem a menor ideia do que foi tal veículo de comunicação.

O Pasquim, muito mais do que uma mera publicação impressa, foi um grande ato político, de resistência, contra um regime opressor em vigência no país na época. Seus criadores e colaboradores desafiaram a velha máxima arcaica e enfadonha da moral e dos bons costumes. Inspirado pelo jornal underground Village Voice, o veículo confrontou o cenário da contracultura dos anos 1960 com a oposição ao regime militar em pleno fervor por aqui.

Parece loucura para os padrões da época e é. Fico imaginando a vida que esses caras levariam no Brasil de hoje, polarizado, defensor do passado e completamente desinformado sobre as principais questões que regem o pais. Pois é... Coube-lhes os anos de chumbo fo governo militar que por aqui perdurou até 1985.

Com muita inteligência, deboche, perspicácia e, claro, resistência aos desmandos propostos pelo Ato Institucional número 5 (o pior de todos os atos até então impostos), o grupo, liderado por Jaguar, Ziraldo, Millôr Fernandes, entre outras feras, decidiu não recuar mesmo sabendo que naqueles tempos a barra andava pesada demais (principalmente para a classe artística. Que o digam os atores da peça Roda Viva, espancados durante o período!).

Grande parte do sucesso do jornal estava associado às capas para lá de provocativas (o travesti Rogéria caracterizado como a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci; "Maysa em matéria de uísque é zero ou 80", fazendo alusão a cantora musa da fossa e seu problema com o alcoolismo; "O pasquim um jornal que vai ou ra...", ilustrado por um punho opressor esmagando uma das ilustrações do mestre do cartum Henfil; as mulatas com as coxas mais do que generosas e provocadoras do caricaturista Lan; etc etc etc e haja etc) e as entrevistas curiosas, cheias de coloquialismos e frases polêmicas (a mais famosa delas certamente foi a da atriz Leila Diniz, símbolo sexual do período, que teve todos os seus palavrões e alusões a sexo substituídos por asteriscos; entretanto, para quem quiser conhecer um pouco mais do clima proposto pelo autores do jornal, recomendo a leitura do livro O som do pasquim. Só posso lhes adiantar que seria trágico se não fosse cômico e... muito ousado!).

Entre seus muitos colaboradores, feras da lavra de Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Paulo Francis, Chico Buarque, Caetano Veloso, Ivan Lessa, Luiz Carlos Maciel, entre tantos outros. Não tem muito tempo foi publicada uma seleção em dois tomos com o melhor do vespertino, mas não consegui comprar o meu porque a procura foi muito grande. Uma pena! Mas volta e meia dou uma fuçada nos sebos para ver se encontro alguém exemplar abandonado nas prateleiras. Até agora, óbvio, nada.

Quando assisti no Canal Brasil ao documentário O Lampião da esquina, sobre o primeiro tabloide brasileiro de inclinação homossexual, varios de seus colaboradores referiram-se aos autores do Pasquim como misóginos e cafajestes (e alguns deles, infelizmente, de fato o são até hoje). Contudo, também acredito que para o período em questão eles eram a força-motriz e a personalidade necessária para combater um regime covarde, que adora chamar os outros de incompetentes. Dificilmente pessoas extremamente polidas e centradas conseguiriam bater de frente com o modelo governamental vigente no período. Fazia-se necessária essa aura de sujeira, de brutalidade. Fiquem à vontade para me criticar, caso necessário.

E em meio a elogios e dissabores - como toda boa publicação que se preze - este libelo da comunicação rebelde completa 50 anos, provando que o Brasil ainda tem muito o que mudar e ainda precisa de pessoas com coragem e falta de vergonha na cara para enfrentar os velhos demagogos e impositores de sempre.

Chato mesmo, no final das contas, é saber que não há um grupo de pessoas dispostas a isso hoje em dia!


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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