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Cálice
LUIZ CARLOS SOUZA SANTOS

Cálice, patena, pala, manustégio, sanguíneo, âmbula, túnica, estola, turíbulo, galheta de água, galheta de vinho, missal, lecionário e toalhas para o altar de acordo com o tempo: tempo comum, quaresmal, pascal, advento, natal e santo do dia. Nada poderia sair errado, afinal, apesar de pouca idade, a missão que me passara era primordial para o acontecimento da santa missa. Missa só aos domingos eram quatro ou cinco. Acostumado e doutrinado para o bom andamento da missa, até então nada de errado acontecera. Até que um dia, em mais uma arrumação dos materiais litúrgicos, percebi que o vasilhame onde se guardava o vinho canônico estava vazio. O sacerdote era rígido, não tolerava nenhuma falta de atenção ou desleixo por parte daquele que era responsável pela arrumação dos materiais litúrgicos. Era sábado à tarde, não havia tempo hábil para a compra do vinho; e o sacerdote com certeza, não ia tolerar tamanha falta de atenção. Sem pestanejar, desloquei-me até a casa paroquial, mais precisamente onde o sacerdote guardava seus licores que ganhara nos festejos juninos e abasteci a galheta com o licor; pensava que o sacerdote nunca notaria que havia colocado licor ao invés do vinho canônico. Enfim, o material litúrgico estava arrumado. O domingo chegou, igreja lotada como de costume; coroinhas, ministros da eucaristia e o sacerdote se deslocam ao prebistério. A primeira parte da missa transcorreu muito bem; até quando se inicia a segunda parte com a celebração eucarística e a minha apreensão aumenta. Será que o sacerdote vai descobrir que ao invés do vinho, havia licor na galheta. A hóstia foi transformada no corpo de cristo e o vinho, ou melhor, o licor foi transformado em sangue de cristo. O momento eucarístico se inicia, e ao se alimentar do corpo e do sangue de cristo, o sacerdote desloca seu olhar nada amigável para meu lado, como quem diz: você me paga. A missa, enfim, termina e a minha apreensão aumenta. Serei punido? expulso? E de fato fui. Afastado do grupo de coroinhas, já não fazia mais parte daquele cotidiano. Mas penso, que fiz a coisa certa, pois sem o vinho, ou melhor, sem o licor não haveria missa, e como diz o ditado: domingo sem missa, semana sem graça. E eu não seria responsável por uma semana sem graça.
                             Luiz Carlos Souza Santos


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