Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Simpatia e amor
Cláudio Thomás Bornstein


Não me lembro do nome dele. Perguntei, ele disse, mas, sinceramente não me lembro. Ele tinha ido lá em casa para tomar as medidas de um boxe de chuveiro. Era um senhor de meia idade, veio de metrô e reclamou muito da caminhada que tivera que dar desde a estação e que eu dissera que eram só cinco minutos. “Cinco minutos, uma ova! Andei quase quinze.” Depois viemos a descobrir que ele fizera um caminho muito mais complicado que o normal.

Simpatizei com ele mesmo assim. E porque eu simpatizei, perguntei se depois de aprovado o orçamento, pronto o boxe, ele viria instalá-lo. Baixou a cabeça meio embaraçado, disse que não e depois deu a explicação. Ia para a faca nos próximos dias. Constatara-se um tumor na próstata, era maligno, fizera um primeiro tratamento sem sucesso, e agora era pra valer.

Em nenhum momento falou da morte. Aparentemente era algo que não o preocupava. A vida é assim, altos e baixos e a idade não perdoa.

Em compensação falou muito da vida amorosa. É o que mais o preocupava. O médico tinha dito que não era para se apavorar, mas nunca mais ia ser a mesma coisa. Tinha uns remedinhos para estimular a potência, mas mesmo assim a operação deixava suas sequelas.

Simpatizei com ele mais ainda. Pela confiança de me fazer seu confidente, depois de uns cinco minutos de conversa a toa. Pela abertura e pela descontração. Acho que quem fala das coisas, principalmente as mais íntimas, as mais dolorosas, já tem meio caminho andado.

Simpatizei também pelo amor. Ele não era um aventureiro para quem o sexo permitia a conquista de troféus. Não, era ele e a velha só, filhos já criados. Bem que a cirurgia podia dar a desculpa para o descanso do guerreiro. Mas não! Ele não queria a desculpa. Ele queria era avançar, com a quilha sulcar os mares e fincar o firme e rijo mastro não na terra nova e desconhecida, mas na velha terra mesmo, a cansada, que também merecia uma conquista. Conquista muito mais difícil porque era a do dia a dia, sem luzes, nem brilhos.



Biografia:
Para mais informações visite o blog CAUSOS em www.ctbornst.blogspot.com.br. Querendo fazer comentários, mande e-mail para ctbornst@cos.ufrj.br
Número de vezes que este texto foi lido: 65686


Outros títulos do mesmo autor

Contos Amante e cunhado (segunda versão) Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Xarope de guaco e caos Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Sobre os limites da passividade Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Brasileiro Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Faixa de ginástica Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Ame o seu próximo Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Tirem-me daqui! Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Mondo Cane Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Motorista de Uber Cláudio Thomás Bornstein
Crônicas Disparates na sapataria Cláudio Thomás Bornstein

Páginas: Próxima Última

Publicações de número 1 até 10 de um total de 92.


escrita@komedi.com.br © 2026
 
  Textos mais lidos
O Sábio - Deborah Valente Borba Douglas 67392 Visitas
ENCONTROS E DESENCONTROS - katia leandra lima pereira 66855 Visitas
Haikai AA-I - Antonio Ayrton Pereira da Silva 66813 Visitas
RESENHAS JORNAL 2 - paulo ricardo azmbuja fogaça 66808 Visitas
ARPOS - Abacre Restaurant Point of Sale 5 - Juliano 66693 Visitas
A múmia indígena - J. Athayde Paula 66635 Visitas
Poente doente - Anderson C. D. de Oliveira 66379 Visitas
O que e um poema Sinetrico? - 66368 Visitas
O alvo - Pedro Vieira Souza Santos 66367 Visitas
DIFICULDADES DE MEMORIZAÇÃO E RETENÇÃO NA TERCEIRA IDADE - Ismael Monteiro 66348 Visitas

Páginas: Próxima Última