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E POR QUE NÃO?
ivete tôrres

Sete horas e o sol se recusa a ir embora. Sentada na beira da cama ela tenta acompanhar um documentário na televisão, enquanto folheia o jornal. Eis que ele entra no quarto.

- Oi.

- Oi.

Olha demoradamente para o marido valendo-se dos óculos escuros que usa. Há dias não reparava nele. E provavelmente o inverso também acontece. Engraçado, não se lembra desta camisa. Nova não deve ser. Ele dificilmente compra algo para si. Se não fosse ela...

Nunca discutem, quase não conversam e muito raramente se tocam. Sexo? Uma vez por mês. Geralmente em torno do dia vinte. Não pode considerar um ato frio, para matar a necessidade. Não, é amor. Fazem amor. A cada trinta dias, mas fazem. Ah! E o beijo ao sair e voltar nunca fora abandonado.

Que coisa! Não consegue lembrar-se da tal camisa. Enquanto pensa como ela fora parar ali naquele corpo ainda esguio, observa o movimento do marido abrindo e fechando as portas do guarda-roupas. Vai tomar banho.

Depois de vinte anos sabe todos os seus passos, reações, atitudes e arrisca até pensamentos. Se tivesse que defini-lo em uma só palavra, seria: previsível. Agora mesmo já sabe o que vai acontecer quando ele voltar ao quarto. Com o mate pronto sentará lentamente na cama e vai dizer:

- Mas que calor! Nem adianta tomar banho.

Se estivéssemos no inverno seria:

- Que frio! Banho só com muita coragem.

Depois vai pegar o controle da TV, colocar no canal que bem quiser sem olhar para ela e perguntará:

- E o Grêmio?

Sorri com certa melancolia. O amor pelo Grêmio é o único assunto que une os dois. O Grêmio está mal. Ou bem. O Grêmio contratou algum jogador. O treinador está pendurado. É, mas apesar do interesse mútuo, rende poucos minutos de conversa.

Em menos de duas horas estará dormindo, de preferência, em pleno e absoluto silêncio. Como também, na total escuridão. Ela, bem mais notívaga, se quiser continuar lendo e assistindo TV, em consideração irá para a sala. Só depois voltará para a cama.

Nem sempre fora assim. Houve um tempo em que eram muito ligados. Cada palavra, cada gesto era relevante. Se chamavam por apelidos carinhosos, hoje se dirigem um ao outro pelo nome. Estavam sempre que podiam de mãos dadas. Viajavam com freqüência, às vezes só pelo prazer de estarem na estrada. Tomavam mate e riam juntos. Havia paixão, amor, companheirismo e cumplicidade. Mas isso foi nos primeiros dez anos. Lembra que sua mãe costumava dizer: quando um casal consegue rir juntos, é porque nem tudo está perdido. Infelizmente com eles não mais é assim. Parece que tudo já se perdeu.

Agora enquanto ela mateia pela manhã, ele o faz só quando chega do trabalho. Bem que no início do afastamento oferecia o chimarrão, mas tanto ouviu recusa que desistiu. Ela, por sua vez, tentava puxar conversa, e em troca obteve só uns hum hum, com o agravante dos olhos fixos na televisão. Também cansou.

Não nega que sente saudade, mas já está conformada com o que tem. O marido, e disso não tem dúvidas, concorda com ela. E continuarão assim: não há motivo real para mudanças ou mesmo separação.

Mas e a camisa? Vai ter que perguntar. Não, com certeza terá que lembrar. Se o fizer poderá soar como um pretexto para iniciar uma conversa. Se bem que...

Seu pensamento é interrompido pela entrada do companheiro.

- Que calor! Nem adianta tomar banho.

Senta vagarosamente na cama e ajeita a erva na cuia. Olha para ela e diz:

- E o Grêmio?

Dito isso serve um mate e estende, com a mão esquerda, a cuia. E rindo diz:

- Viu, com a mão do coração!



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