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O CARTEIRO E O POETA - APRECIAÇÃO
ivete tôrres

Filme de 1994, dirigido por Michael Radford, numa produção ítalo-francesa, cuja trilha sonora de Luis Enrique Bacalov foi premiada com o Oscar.

É baseado no livro homônimo de Antonio Skármeta, que fala de uma parte da vida do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), prêmio Nobel de Literatura no ano de 1971. É mais do que um filme. É poesia.    

Pablo Neruda (Philippe Noiret) poeta, mas também comunista e ativista político é exilado na bela ilha italiana de Cali di Sotto. E aí neste lugar com belezas naturais cuidadosamente esculpidas por Deus, sua vida se cruza com a de um pescador, que por não gostar de barcos e em das tristes redes de pescaria, se torna carteiro.

Carteiro de um único endereço. Carteiro particular do poeta. Mário Ruoppolo (Massino Troisi), homem simples, ingênuo e profundamente sensível, se encanta com a presença do importante poeta das mulheres e do povo. É um homem à procura de uma vida que a bela, mas precária Cali di Sotto, onde se respira pobreza, não lhe pode dar.

Aparenta ser mais velho do que é. O contato com Neruda irá rejuvenescê-lo. E com ele e por causa dele irá adquirir ânsia de ler, de se instruir, de viver.

Vou ao cinema, passo no alfaiate, mas acontece que me sinto enrugado e entorpecido como um cisne grande e confuso na superfície de um oceano de fracassos e causas. O cheiro de barbearia me desperta e grito: Assassinato! Estou cansado de ser apenas um homem.

Esta poesia, que trata da angústia de um homem diante de sua vida comum, desperta em Mário a vontade de fazer versos. E esta mesma vontade o encoraja a se aproximar de Neruda. Ao perguntar o que são metáforas, palavra que conheceu em seus versos, ele consegue um contato mais íntimo. Gradativamente se forma uma sólida amizade que transcende às barreiras sociais e culturais. Um dia na praia o poeta declama:
Aqui na ilha há tanto mar, O mar e mais o mar. Ele transborda de tempo em tempo. Diz que sim, depois que não,Diz sim e de novo não. No azul, na espuma, em galope Ele diz não e novamente sim. Não fica tranqüilo, não consegue parar. Meu nome é mar ele repete Batendo numa pedra, mas sem convencê-la. Depois com as sete línguas verdes, De sete tigres verdes, de sete cães verdes, De sete mares verdes Ele a acaricia, a beija e a umedece; E escorre em seu peito Repetindo seu próprio nome.

Ao terminar pede a opinião do companheiro. Ele confessa que está enjoado. Neruda diz que é um julgamento muito severo. Logo Mario se explica dizendo que ficou enjoado, não pela qualidade do poema, mas porque se sentiu jogado de um lado para outro, como um barco, sacudido pelas palavras. O poeta não perde a oportunidade e mostra que ele fez uma metáfora. O carteiro retruca dizendo que foi sem querer e, portanto não vale. O que logo é rebatido: “Querer não é importante. As imagens devem surgir espontaneamente”. Neruda se torna mestre de Mario.

A afetividade e a cumplicidade entre ambos crescem de maneira doce e sutil. Eis que Mario se apaixona pela bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucionatta) e pede que o mestre faça um poema, para que assim fique mais fácil se aproximar da amada. Neruda se nega alegando não ter inspiração. O carteiro então se apossa de um poema do amigo e o dedica à Beatrice como se fora seu. Ao ser questionado que não deveria tê-lo feito, sua pronta resposta foi: “A poesia não pertence àqueles que a escrevem, mas a quem precisa dela”. E Mario se torna mestre de Neruda.              

A vida separa, muitas vezes, aqueles que se querem bem. É findo o exílio de Pablo Neruda. O carteiro perde seu emprego e a vida comum e rotineira ressurge.

Casado com Beatrice e à espera do filho Pablito, não tem notícias do amigo. Ainda assim, segue fiel a ele. Numa ida à casa onde Neruda ficou exilado, sente saudade. Com ela vem a inspiração. E assim junta um poema de sua autoria à gravação dos sons da ilha, que o poeta havia pedido:

Número um: Ondas em Cali Sotto. Pequenas. Número dois: Ondas grandes. Número três: Vento nos rochedos. Número quatro... Vento nos arbustos. Número cinco... Redes tristes do meu pai. Número seis... O sino da Igreja. Com padre. (Belo. Não havia notado antes como era tudo tão belo). Numero sete... Céu estrelado na ilha. Número oito... O coração de Pablito.

Anos mais tarde, o poeta retorna à ilha e fica sabendo que o companheiro perdera a vida numa manifestação política dias antes do nascimento do filho.

Mario Ruoppolo, um pescador alérgico às coisas do mar, que se tornou carteiro, com a poesia encontra a vida e com o comunismo encontra a morte. O poeta lhe atiçara a vontade de também ser poeta e ativista político. Morre vítima de um ideal que Neruda ajudou a florescer em si. Seu fim foi mais uma homenagem ao mestre. Neruda então dedica esta poesia ao amigo:

E foi naquela época... A poesia chegou me procurando. Eu não sei, não sei de onde ela veio, Se de um inverno ou de um rio. Eu não sei como, nem quando. Não, não eram vozes, não eram palavras, nem silêncio; mas de uma rua eu fui chamado abruptamente dos ramos da noite, dos outros, no meio de um tiroteio violento, e num retorno solitário lá estava eu sem um rosto...e ela me tocou.

Este é Pablo Neruda, o poeta do amor, das coisas e do povo. Que humildemente, como são os grandes homens, foi coadjuvante num filme que trata da fidelidade, da amizade, do reconhecimento, do encontro com o amor.

Um filme daqueles que vale a pena ter em casa, para de vez em quando curar a alma.


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