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Bispo: o nome de uma praia
Alcir de Vasconcelos Alvarez rodrigues

Resumo:
Bem, faz bastante tempo atrás (umas cinco ou seis décadas, por aí assim), pró¬ximo à praia localizada entre Areão e Praia Grande, no Mosqueiro , passaram a residir ali alguns religiosos da congregação dos maristas.

Bem, faz bastante tempo atrás (umas cinco ou seis décadas, por aí assim), pró-ximo à praia localizada entre Areão e Praia Grande, no Mosqueiro , passaram a residir ali alguns religiosos da congregação dos maristas. Até hoje ainda fazem retiros espirituais naquela propriedade, que é imensa, bela e arborizada. Alguns religiosos tinham o hábito de, esporadicamente, fazer passeios naquela tímida enseada. Inclusive, a juventude, em sua imensa maioria, desconhece o fato de que o Círio de Nossa Senhora do Ó (padroeira dos mosqueirenses), em tempos agora remotos, saía da propriedade desses religiosos e seguia pela Beira-Mar, Rua Nossa Senhora do Ó, até a Praça Cipriano santos, onde se localiza, até hoje, a Igreja de Nossa Senhora do Ó, destino lógico da imagem da Virgem.
          É, das praias da Ilha, a que mais ostenta seculares e enegrecidas rochas, que, segundo quem professa fé afro-brasileira, emitem bons fluidos para a prática de rituais do candomblé, por exemplo. É lamacenta, pedregosa e dominada por verdejantes capinzais, refúgios de hostis arraias, que aterrorizam os banhistas. Essa praia apresenta algumas peculiaridades, como um extenso muro de arrimo ─ o mais antigo do balneário ─, a impressionante verdura dos vegetais das falésias, onde, um pouco próximo, ficam as imensas pedras Rei (a maior) e Rainha (a menor). Alguns moradores mais antigos da Ilha dizem que os nomes das legendárias pedras foram dados em homenagem ao imperador e à imperatriz (Pedro II e Teresa Cristina). Outra curiosidade é que, “dizque”, se uma maré alta de março cobrir a enorme Pedra Rei, é sinal de que o mundo se acabará.
          Na outra extremidade da praia fica a Ilha de São Pedro, onde existia uma monumental imagem do Santo Pescador. No centro, as escadarias duplas (à direita e à esquerda), com três lances de degraus ladeados por pilastras, com pracinha com caramanchão (derrubado, para uma reforma jamais concretizada) e um velho e inativo canhão, além da extremamente exótica arquitetura germânica da mansão Canto do Sabiá.
          Naqueles tempos quase imemoriais, contam, um dos religiosos, um tanto introvertido, solitário e esquisito, costumeiramente fazia passeios ao crepúsculo ali naquela praia, bem na beira, mesmo que fosse na vazante, quando as águas recuam por uma linha de, mais ou menos, uns duzentos metros. Para pescadores, ou quaisquer outras pessoas que por ali passavam, aquilo parecia-lhes sombrio e sinistro. Ficavam assombrados com aquele vulto negro a passear da Ilha de São Pedro às pedras Rei e Rainha. Segundo dizem, um clima desconfortante e constrangedor tomava conta deles.
          Foi aí que em certa tardinha, em recuada época ─ quem sabe lá por uns vinte ou trinta anos após a morte do padre esquisitão ─, uma moça chamada Clarinha, que trabalhava em uma casa de família em frente à praia, como empregada doméstica, foi recolher a roupa do varal. Era de noitinha, já, o tal lusco-fusco, a chegada do claro-escuro confuso da hora da Ave-Maria. E foi aí que aconteceu: Clarinha, ao divisar no escuro uma estranha silhueta, ficou atônita, como que narcotizada, a ponto de um torpor enregelar-lhe corpo e mente. Apavorada, vislumbra uma aterradora aparição. Parecia flutuar. Era enorme, vestia como que uma batina, com chapelão típico de um clérigo. Ele foi passando, passando... e ela, estupefata, congelada, imóvel. Só minutos depois pôde recobrar o controle sobre si. Então, a história/estória se espalhou. Muita gente comentava. Talvez principalmente em vista de não ser a moça a primeira a relatar essa aparição. Só que o estado em que ela se achava no momento, ao tentar contar para a patroa o “causo”, concorria para dar veracidade ao seu relato.
          De lá para cá, muitos afirmam ter deparado nas horas mortas com o sinistro clérigo. Daí, de padre a bispo, foi um pulo. E, com o passar das décadas, em vez de bispo, o que se passou a ver foi um bispo sem cabeça, mais apavorante, portanto.
          Assim, a bela e melancólica enseada entre as praias do Areão e Praia Grande passou a ser conhecida como Praia do Bispo, ou, simplesmente, Bispo. “Vou lá na Praia do Bispo!” Ou : “Vou lá no Bispo!” ─ É o que dizem hoje os moradores do Mosqueiro.
     (Este texto foi adaptado por nós a partir de conversa informal com três pessoas, a quem somos extremamente gratos: Joana Maria de Vasconcelos Rodrigues, Wolney de Vasconcelos Dias e Clarice Cabral Bahia.)




Biografia:
Desde que nasceu, vive em seu torrão natal, a ilha de Mosqueiro, lugar banhado por 23 praias de água doce com ondas, uma singularidade no mundo inteiro. Tem graduação em Letras-Língua Portuguesa (UFPA), Especialização em Língua Portuguesa e Análise Literária (UNAMA)e Mestrado em Letras-Estudos Literários (UFPA). Gosta de escrever Contos, crônicas de temática variada, principalmente ligadas à literatura. É artista plástico amador. Já publicou de modo artesanal os livros de poesia "Setembro em brasa" e Dimensons", além de ter participado da coletânea de poesia "Mosqueiro, pura poesia", organizada por Lairson Costa.

Este texto é administrado por: Alcir de Vasconcelos Alvarez Rodrigues
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