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Final Fantasy VII Remake e o Ultracapitalismo
Caliel Alves dos Santos

Resumo:
Conheça as noções e críticas possíveis ao ultracapitalismo possíveis em Final Fantasy VII.

     Se você for à Midgard, vai atravessar uma planície árida e poeirenta. Montanhas se erguem por todos os lados, como muralhas malformadas. O céu, cinzento, projeta uma aura de melancolia por toda a extensão. Ao longe, uma massa negra de metal e néon vai se solidificando através da sua aproximação.
     O que antes era um amontoado amorfo, tem sua forma definida. Mas a grande megalópole não é una e indivisível. A urbe está dividida em uma Cidade Alta e uma Cidade Baixa, assim como Salvador. Essa divisão está além da geografia e urbanização, é um símbolo do próprio progresso que os seus engenheiros desejavam.
     A Cidade Baixa é o refugo da “civilização”. O lugar onde o governo só alcança para lhe extrair tributos e impostos. As Forças de Segurança Pública, manifestada nos Soldier, são omissos quando é necessário proteger as comunidades pobres, e opressores quando é preciso atuar em suas ruas e vielas. Só resta a própria população se armar e formar milícias, é isso ou ficar à mercê de grupos criminosos.
     O desemprego e o subemprego geram um exército industrial de reserva, uma massa de trabalhadores desorganizados, sem poder de negociação com os empregadores. Presas fáceis de um capitalismo selvagem. Pessoas com baixo nível de escolaridade, com pouca ou nenhuma chance de se tornar um assalariado, acabam marginalizados ou se marginalizando. A prestação de serviços básicos ou promoção de qualquer assistência social é inexistente. O Direito é algo que se conquista pela força, à moda do darwinismo social.
     A Cidade Alta é o seu inverso. Uma cidade planejada, hierarquizada e funcional. Tecnologia e higienismo conduzem o destino da urbe. Condomínios e complexos habitacionais agigantam ainda mais o cenário metropolitano. Uma miríade de arranha-céus verticaliza Midgard.
     Educação, saúde e segurança funcionam, mediado pelo valor de troca, mas a sua população assalariada pode pagar por eles. O hiperconsumismo é a norma. Os salários psicológicos se somam ao consumo compensatório em uma vida coorporativa e de contínua exploração da foça de trabalho, ou seja, dos assalariados. O tédio se torna a rotina social, e o narcisismo vira uma essência coletiva.
     Em Midgard não existe direitos sociais e políticos, ao contrário, tudo é bem de consumo. Quem tiver mais gils à mão, vence. O acesso aos espaços depende de senhas e autorizações espaciais, e aos seus serviços pelo poder de compra dos usuários.
     Final Fantasy VII é um dos RPGs mais conhecidos do grande público. Mesmo aqueles que não são jogadores ou apreciam o gênero conhecem em parte sobre o game. O jogo se expandiu ao longo dos anos para diversos consoles e mídias. E tem até uma continuação para cinema chamado Final Fantasy VII: Advent Children. O jogo foi desenvolvido originalmente pela Squaresoft e lançado no Japão em 31 de janeiro de 1997, exclusivo para o Playstation, ou Play 1, se preferir. Desenvolvido ao longo de três anos e contando com mais de 300 pessoas na sua produção, o game inovou por trazer uma trama rica em mitologia, enredo complexo e gráficos 3D (IZIDORO, 2021).
     O produtor foi o Hironobu Sakaguchi, velho conhecido dos gamers e criador da série Final Fantasy. O diretor foi Yoshinori Kitase. Tetsuya Nomura foi o responsável pelo designer dos personagens, atraindo uma legião de fás de mangás e animes devido ao visual mais moderno da franquia. O compositor foi Nobuo Uematsu, responsável pelas trilhas sonoras de games mais lindas da história, e responsável por introduzir a primeira música com vocal na série (Ibid., 2021).
     O fato marcante desse jogo, além de todos os seus predicados, está na sua temática. Mesmo que muitos fãs da franquia consumam esse conteúdo sem se dar conta das discussões profundas que esse jogo traz nas entrelinhas da batalha Avalanche x Shinra, Cloud Strife x Sephiroth. De todos os jogos da franquia até agora, esse é o que mais se aproxima das questões e desafios contemporâneos que enfrentamos.
     A que mais salta aos olhos é a ambientalista e/ou ecológica. A década de 90 foi marcada por diversas manifestações a favor do meio ambiente, inclusive com atos tratados como ecoterroristas pelas autoridades. O ano de lançamento do jogo coincidiu com a assinatura do Protocolo de Kyoto (DELCINIO, 2021), importante documento que criou diretrizes para a diminuição da poluição através de menor emissão de dióxido de carbono na atmosfera e outras práticas. Era um momento em que se falava muito em Efeito Estufa.
     A trama central do jogo se baseia no Sistema Gaya, à época, Hipótese Gaya. O criador dessa teoria foi o cientista britânico James Lovelock. O planeta seria um organismo vivo, e nossas ações impactam na expectativa de vida do planeta. Ou seja, nossa vida seria moldada pelas relações que nós e outros seres vivos estabelecem com o planeta (METEORO BRASIL, 2021).
     Para aprofundar essa discussão, me utilizo dos gameplays de Final Fantasy VII Remake do canal Lucky Salamander. O jogo foi lançado em 2020 para o Playstation 4, e é só a primeira parte do jogo foi contemplada, as outras não tem previsão de quando serão lançadas. Tem tudo para se tornar uma trilogia. O game traz a saga inicial que se passa na cidade de Midgard, e possui ao todo 18 episódios. Essa parte me interessa sobremaneira por tratar da Shinra e a atuação do grupo Avalanche.
     A Shinra, a grosso modo, pode ser traduzida como “Domínio”. Ela era uma empresa que produzia armas de fogo, ou seja, era uma gigante da indústria bélica. Aos poucos, ela foi se ramificando e se tornando uma megacorporação de multi-investimento, tomando o monopólio de variados setores como biotecnologia, a farmacêutica, a engenharia etc. A empresa tomou de assalto o Estado de Midgard, se tornando o próprio Estado.
     A empresa cuida de tudo relacionado a cidade. Sua estrutura é semelhante aos zaibatsus, uma organização patriarcal e patrimonialista, oligárquica em sua gênese. O poder é hereditário. A família Shinra detêm os destinos de seus cidadãos com punhos de ferro. O Presidente Shinra é o herói nacional, o agente fundador da civilização. A narrativa histórica estatal legitima seu domínio sobre a cidade, algo perceptível no Museu da Torre da Shinra, no centro de Midgard.
     A grande imprensa foi aparelhada ao governo megacorporativo. Deixou sua função social de informar e analisar os fatos sociais e passou a fazer uma propaganda oficial da companhia, reproduzindo exaustivamente narrativas que legitimassem o poder da Shinra em Midgard. O populismo midiático taxa de terrorista todo e qualquer grupo contrário a empresa. Serve como mobilizador contínuo da opinião pública.
     Não é possível identificar instituições públicas autônomas, a empresa parece ter engolido tudo em sua sanha de poder. O prefeito da cidade, não passa de um bibliotecário de luxo. O regime de governo, assemelha-se ao pensamento dito “anarcocapitalista”, ou como prefere os estudos acadêmicos mais avançados, um regime “neofeudalista”. Prefiro não usar o primeiro conceito por ser contraditório e anacrônico, antiepistemológico; e o segundo por demarcar uma ruptura inexistente com o capitalismo vigente, acho até desnecessário criar um novo conceito para um fenômeno que estamos vivendo de maneira tão concreta. Por isso, prefiro usar o ultracapitalismo, uma nova forma do capital que busca anular o Estado por completo e substituir as instituições públicas pelas megacorporações. Os direitos se tornam bens de consumo, tudo é consumível e nada é garantido institucionalmente. O mais próximo de um regime de governo a nível estrutural, seria uma plutocracia ou oligarquia patriarcal e hereditária. A presença massiva de militares e armas autônomas confere a megalópole um ar militarista e autoritário. É como se Midgard vivesse eternamente em Estado de Sítio.
     A Shinra se divide em vários departamentos. Cada um deles possui um diretor que respondem diretamente ao Presidente Shinra, e ao seu primogênito, o Vice-Presidente Rufus Shinra. Os departamentos são:

1.     Departamento de Exploração Espacial; Palmer.
2.     Departamento de Desenvolvimento de Armas; Scarlet.
3.     Departamento de Manutenção e Segurança Pública, Heidegger.
4.     Departamento de Ciências, Hojo.
5.     Departamento de Desenvolvimento Urbano, Reeve Tuesti.

     A maior parte deles tem uma personalidade muito problemática. Palmer é um homem ardiloso e pomposo. Scarlet é uma dominadora, que usa de sua sensualidade para ganhos pessoais. Heidegger é um homem autoritário que se utiliza de sua função para proveito próprio e exercer sua violência inata. Sob seu comando estão os Turks, um grupo de elite, uma espécie de serviço secreto da Shinra. São integrantes dos Turks, o líder Tseng; Elena, e a dupla Rude e Reno. Hojo, nessa lista, é o sujeito mais desprezível de todos. O cientista trata a vida alheia como se fosse brinquedo. Ele utiliza qualquer meio para obter os resultados de sua pesquisa, não importando qual sejam. Uma figura escatológica, cruel e sádica. Não respeita nenhum princípio profissional ou ético. É tão antiético que promoveu pesquisas em que Mako era injetado em soldados para aperfeiçoamento militar, e realizou pesquisas envolvendo Jenova em pessoas. É como se a bioética não existisse. Podemos culpá-lo por muitos dos incidentes trágicos de Final Fantasy VII. O único que parece manter algum resquício de humanidade é o Diretor Reeve (IZIDORO, 2021).
     O progresso custa caro, e quem paga é o próprio planeta Gaia. Através da absorção do fluxo espiritual do planeta, ou lifestream no original, a Shinra conseguiu produzir energia elétrica través de Mako. Para gerar Mako, é necessário construir reatores. Mas esses empreendimentos geram contaminações e variados acidentes graves. A megacorporação fez vista grosa aos perigos e continuou a processar Mako do mesmo modo, e assim nasceu Midgard. O grandioso monumento babélico é sustentado por nove pilares e oito Reatores Mako (FINAL FANTASY BRASIL, 2021).
     O Mako é uma ótima metáfora para os ricos do capitalismo predatório, do uso de energias não renováveis como o petróleo, e do perigo das energias nucleares, o próprio Japão muito dependente delas. O fluxo de energia espiritual de Gaia é um recurso não renovável, ou seja, após seu esgotamento, é impossível reproduzi-lo. Essa substância etérea se manifesta tanto em forma líquida como em forma de gases, em outras, como energia. A condensação de Mako produz Materia, nada mais nada menos que Mako solidificado. As matérias têm potenciais imanentes, esse potencial gera efeitos tanto no usuário quanto no ambiente. No jogo, é usado para realizar magias e conferir habilidades aos jogadores. De largo uso no meio militar (FINAL FANTASY WIKI(a), 2021). Como o fluxo espiritual depende do ciclo de mortes e renascimento, ao desviar essa energia e queimá-la em reatores, a Shinra cria um grande desequilíbrio, pois, essa energia é como o sangue de Gaia. O planeta adoece, não muito diferente do nosso.
     Num regime de opressão e desigualdade tão grande como esse, uma reação extrema acontecer é algo natural. Dentre os grupos que resistem à companhia, está o grupo Rebelde de Wutai e a Avalanche. Wutai era uma nação de ninjas, lideradas por Godo Kisaragi. Possuía uma sociedade e cultura milenar. O conflito entre Wutai e a megacorporação se inicia após a instalação de um reator Mako na região de Wutai. Os ninjas lutam contra as tropas geneticamente modificadas, os Soldier, para impedir a sua instalação forçada. Nessa época, Sephiroth e futuro vilão do jogo se torna um herói de guerra. Após o fracasso na resistência, Godo capitula e assina um acordo de cessar-fogo com a Shinra. O reator Mako é instalado e Wutai se torna mais um domínio da companhia. Os ninjas passam por um processo de desmilitarização, e não podem usar matérias. Os habitantes de Wutai passam a viver do turismo (FINAL FANTASY WIKI(b), 2021). No remake, unidades remanescentes do exército de Wutai desejam a sua independência e lutam contra a Shinra usando da estratégia de guerrilha e infiltração. Algo que será mais explorado nos capítulos futuros da saga.
     Entre os aliados dos rebeldes de Wutai, está a Avalanche. O líder do grupo é o rabugento Barret Walace, o homenzarrão com um braço de metralhadora. Os seus comandados são a Tifa Lockhart, uma lutadora que cuida do bar Sétimo Paraíso, no Setor 7; o cômico Wedges; a Jessie e o Biggs. O objetivo do grupo — contando, às vezes, com financiamento de Wutai — é destruir os reatores Mako. Barret é um estudioso de Planetologia, uma ciência que busca entender o fluxo de Mako em Gaia, e por isso, vê a Shinra como uma companhia que destrói o planeta e gera sérios danos a sociedade de modo geral. O grupo usa a tática da sabotagem. Não sei se seria correto tratá-los como revolucionários, pois, para mim, não existe uma tentativa de inverter uma ordem social ou criar estruturas pós-ultracapitalistas. Mas não retiro o mérito dos seus atos revolucionários. É importante notar que a imagem de ecoterroristas que a Shinra lhes impõe parece ter surtido efeito na opinião pública. Raras são as pessoas que compactuam com as ações do grupo Avalanche. O grupo tem a meta de desativar os reatores Mako, um por um, e até conseguem algum sucesso na empreitada inicial com a ajuda do Cloud Strife, um ex-Soldier. Mas o revide da Shinra é maior e desproporcional: eles destroem um setor inteiro ao implodir o pilar do Setor 7, e culpam a Avalanche. O único que parece questionar as ações da companhia é o Diretor Reeve, mas sozinho ele não pode fazer muito. Milhares morrem, outros tantos ficam gravemente feridos. A Avalanche se dissolve e recua, ao menos por enquanto.
     A trama ainda tem muito a crescer, mas só pelos questionamentos e críticas sociais levantados em sua saga, Final Fantasy VII Remake já marcou a nossa história.     



FONTES

LUCKY SALAMANDER. Final Fantasy VII Remake – Gameplay. Disponível em: < https://www.youtube.com/playlist?list=PLtQUtwjn6QYYkMGMA8pZZtQsz6AvaAWQm >.

REFERÊNCIAS

DELCINIO, Rodrigo. Protocolo de Kyoto - Países se comprometeram a reduzir emissão de gases. Disponível em: < https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/protocolo-de-kyoto-paises-se-comprometeram-a-reduzir-emissao-de-gases.htm > Acesso 20 fev. 2021, às 11:09 horas.
FINAL FANTASY BRASIL. Shinra. Disponível em: < http://www.finalfantasy.com.br/final-fantasy-vii/final-fantasy-vii-shinra/ > Acesso 20 fev. 2021, às 18:59 horas.
FINAL FANTASY WIKI(a). Lifestream. Disponível em: < https://finalfantasy.fandom.com/pt-br/wiki/Lifestream > Acesso 20 fev. 2021, às 19:08 horas.
FINAL FANTASY WIKI(b). Wutai War. Disponível: < https://finalfantasy.fandom.com/wiki/Wutai_War > Acesso 20 fev. 2021, às 20:17 horas.
IZIDORO, Bruno. O RPG que mudou o tudo. Disponível em: < https://www.uol.com.br/start/reportagens-especiais/especial-final-fantasy-vii/#page4 > Acesso 20 fev. 2021, às 10:36.
METEORO BRASIL. Final Fantasy VII e a Hipótese Gaya. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=PQO-VKudZKs > Acesso 20 fev. 2021, às 10:48.


Biografia:
Caliel Alves nasceu em Araçás/BA. Desde jovem se aventurou no mundo dos quadrinhos e mangás. Adora animes e coleciona quadrinhos nacionais de autores independentes. Começou escrevendo poemas e crônicas no Ensino Médio. Já escreveu contos, noveletas, resenhas e artigos publicados em plataformas na internet e em algumas revistas literárias. Desde 2019 vem participando de várias antologias como Leyendas mexicanas (Dark Books) e Insólito (Cavalo Café). Publicou o livro de poemas Poesias crocantes em e-book na Amazon.
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