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ULTRAPASSANDO O ODÔMETRO
Wilson Luques Costa

Foi quando acelerei de vez e disse para mim mesmo: “agora eu vou atrás, agora ela me paga”. E quanto mais eu acelerava, menos translúcida ficava a sua direção. Mas na minha obsessão canibalesca eu a perseguia. Eu percebia que ela tentava se esquivar de todas as maneiras. Rente à curva, ela derrapou e quase que soçobrou na frente de um obelisco. E eu acelerava como um louco. Sim, eu estava ensandecido. Eu espumava pelos cantos da boca. Tive uma taquicardia e logo após uma bradicardia que me deixaram em cera. Pus um chiclete na boca e comecei a mastigar como um demente. Eu estava transtornado. E quanto mais eu acelerava, mais eu enlouquecia. O odômetro indicava cento e sessenta e eu achava pouco, muito pouco. Eu acelerava, mas a distância aumentava. Eu corria como um pateta. Pensei em ir a pé. Resolvi gritar. Gritava o seu nome em vão. Desci e segui na estrada a pé. Pus um outro chiclete na boca e comecei a mastigar como um demente. E quanto mais eu andava, mais eu enlouquecia. Eu espumava pelos cantos da boca. Foi quando eu disse para mim mesmo: “ agora ela me paga...agora ela me paga”, mas a sua direção ficava cada vez menos translúcida. Ao longe uma placa indicava: ´Cuidado na derrapagem: loucura...!


Biografia:
Wilson Luques Costa nasceu em São Paulo, SP, Brasil. Jornalista, professor, poeta e escritor. Eleito pela Academia Internacional de Literatura Brasileira - NY um dos Top Five nos Destaques Literários Awards Focus Brasil NY na Categoria Ensino e Pesquisa com o ensaio O Paradoxo do Zero.
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