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O Homem que Chegava Antes
Quando o tempo deixa de seguir você, qualquer segundo pode se tornar
Anderson Del Duque Jorge

Resumo:
Rafael, um técnico em relógios, leva uma vida comum até entrar em contato com um misterioso objeto que altera sua percepção do tempo. A partir desse momento, ele passa a experimentar a realidade com um leve “adiantamento”, vendo acontecimentos segundos — e depois minutos ou horas — antes de realmente acontecerem. Inicialmente, ele encara isso como uma habilidade, chegando a salvar pessoas de acidentes antes que eles ocorram. Porém, logo percebe que interferir no curso natural dos eventos gera consequências imprevisíveis e cada vez mais graves, como se o próprio tempo tentasse corrigir suas alterações. À medida que sua condição se intensifica, Rafael entende que não está viajando no tempo — é o tempo que está se desorganizando ao redor dele. Preso em múltiplas possibilidades e realidades fragmentadas, ele se torna uma anomalia. Diante disso, ele toma uma decisão crucial: parar de interferir. Ao permitir que os eventos aconteçam como deveriam, mesmo diante da dor, o equilíbrio começa a ser restaurado. No fim, Rafael aprende que o tempo não é algo a ser controlado, mas respeitado — e que tentar antecipar o futuro pode significar perder completamente o presente.

O HOMEM QUE CHEGAVA ANTES
Por Anderson Del Duque
Ninguém percebeu quando ele começou a errar.
No início, eram detalhes pequenos demais para incomodar alguém. O tipo de coisa que passa despercebida em meio à pressa cotidiana.
Ele atravessava a rua antes do sinal abrir.
Desviava de pessoas que ainda não tinham mudado de direção.
Respondia perguntas antes que fossem feitas.
Chamava aquilo de “pressentimento”.
Os outros chamavam de sorte.
Até deixar de ser.
O nome dele era Rafael, mas isso também deixou de importar com o tempo.
Porque, quando o tempo deixa de obedecer, nomes perdem função.
Ele trabalhava como técnico em manutenção de relógios — uma ironia que só faria sentido depois. Passava os dias consertando engrenagens que insistiam em parar, como se o mundo dependesse da precisão daqueles pequenos mecanismos.
E talvez dependesse mesmo.
Foi durante um conserto comum que tudo começou.
Um relógio antigo.
Sem marca conhecida.
Sem origem.
Sem lógica.
Os ponteiros giravam de forma irregular, às vezes acelerando, às vezes retrocedendo, como se estivessem tentando acompanhar algo que não conseguiam entender.
Rafael abriu a peça.
Dentro, não havia o que deveria haver.
Nenhuma engrenagem convencional.
Nenhum sistema reconhecível.
Apenas uma estrutura estranha, quase orgânica, pulsando com um ritmo que não correspondia a segundos.
Ele deveria ter parado ali.
Mas a curiosidade é uma forma silenciosa de destino.
Quando tocou aquilo…
o mundo atrasou.
Não parou.
Atrasou.
Como se a realidade tivesse perdido um passo.
Nos primeiros dias, ele achou que estava doente.
Os acontecimentos chegavam até ele antes de acontecerem.
Não como visões claras.
Mas como atrasos.
Como ecos.
Ele via alguém derrubar um copo — e, um segundo depois, o copo caía.
Ouvia uma buzina — e, logo depois, o som acontecia de fato.
Era como viver em uma antecipação constante.
Como se o presente estivesse sempre atrasado em relação a ele.
Rafael tentou ignorar.
Falhou.
Porque o fenômeno evoluiu.
Evoluções nem sempre são progresso.
Ele começou a chegar antes.
Não metaforicamente.
Literalmente.
Entrava em um lugar e já sabia o que as pessoas diriam.
Não por adivinhação.
Mas porque, para ele, aquilo já tinha acontecido.
Um minuto antes.
Cinco minutos antes.
Às vezes, horas.
O tempo não estava passando da mesma forma para ele.
Estava… desalinhado.
E, quanto mais ele tentava corrigir isso, mais distante ficava.
O primeiro erro real aconteceu em uma estação de metrô.
Rafael viu o homem cair nos trilhos.
Antes de cair.
O corpo projetando-se.
O grito ainda não dado.
O impacto ainda inexistente.
Mas ele viu.
E agiu.
Correu.
Segurou o homem antes que o acidente acontecesse.
As pessoas ao redor ficaram confusas.
— O que você está fazendo?
Porque, naquele momento…
nada tinha acontecido ainda.
Rafael olhou em volta, perdido.
E então…
o homem tropeçou.
Exatamente como ele tinha visto.
Mas não caiu.
Porque já tinha sido salvo.
E foi ali que Rafael entendeu algo que deveria tê-lo feito parar.
Ele não estava apenas vendo o futuro.
Ele estava interferindo.
Salvar alguém deveria trazer alívio.
Mas trouxe medo.
Porque, se o futuro podia ser alterado…
o que mais poderia ser quebrado?
Rafael tentou voltar à normalidade.
Parou de agir.
Parou de interferir.
Mas saber e não fazer nada é uma forma diferente de dor.
Ele viu acidentes que não impediu.
Discussões que poderia evitar.
Despedidas que sabia que seriam as últimas.
E não fez nada.
Porque começou a perceber um padrão.
Toda vez que mudava algo…
algo pior surgia depois.
Não imediatamente.
Mas inevitavelmente.
Como uma correção.
Como se o tempo não aceitasse ser reescrito sem cobrar.
O relógio.
Ele voltou ao relógio.
Aquela coisa estranha que não deveria existir.
Ao tocá-lo novamente, sentiu o mesmo atraso.
Mas, dessa vez, mais profundo.
Mais intenso.
O mundo não apenas desacelerou.
Ele se fragmentou.
Rafael viu múltiplas possibilidades acontecendo ao mesmo tempo.
Caminhos diferentes.
Decisões divergentes.
Consequências se multiplicando.
E, no centro de tudo…
ele.
Como um erro.
Como uma falha no sistema.
Foi então que ele percebeu.
Ele não estava viajando no tempo.
O tempo estava tentando se reorganizar ao redor dele.
Na última tentativa de consertar tudo, Rafael fez o que sempre evitou.
Ele decidiu não agir antes.
Esperou.
Pela primeira vez, esperou o presente alcançá-lo.
Era estranho.
Doloroso.
Limitador.
Mas necessário.
Quando o momento chegou — um acidente, mais uma vez — ele viu o futuro.
Como sempre.
Mas não se moveu.
O homem caiu.
O impacto aconteceu.
O mundo seguiu.
E, pela primeira vez em muito tempo…
nada pior veio depois.
Rafael voltou à oficina.
Fechou o relógio.
Não o consertou.
Algumas coisas não devem ser consertadas.
Devem ser deixadas como aviso.
Hoje, dizem que ele ainda trabalha lá.
Em silêncio.
Pontual demais.
Preciso demais.
Mas nunca mais antecipado.
Nunca mais adiantado.
Porque ele aprendeu algo que ninguém ensina:
O tempo não é uma estrada que você percorre.
É um equilíbrio que você respeita.
E qualquer tentativa de chegar antes…
é, na verdade,
uma forma de nunca mais chegar.


Biografia:
Anderson Del Duque Jorge, é um produtor de conteúdo audiovisual ativista e jornalista , nasceu em Sumaré no dia 28 de julho de 1978 na cidade de Sumaré SP, filho de Abadia Salete Piedade Del Duque Jorge (cozinheira) e de Felismino custódio Jorge (servente de obras) tem em seus trabalhos filmes como O TAXIDERMISTA
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