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Uma divina comédia visual
(O jardim das delícias, de Hieronymus Boschs, é uma aula sobre a sociedade contemporânea)
Roberto Queiroz

Eu tive uma fase que começou na minha adolescência de leitor doentio de romances policiais. E isso durou um longo tempo. Lia autores de países que eu nem fazia ideia que possuíssem uma literatura voltada para o crime e investigações. Dentre os artistas desse segmento que mais gostei um deles nunca me saiu da cabeça por um motivo inusitado: seu nome é Michael Connelly e seu policial costumeiro costumava se chamar Hieronymus "Harry" Bosch. E a curiosidade é que Hieronymus Bosch é o nome de um pintor e gravador dos séculos XV e XVI, conhecido popularmente como El Bosco.

Bastou eu dar-me conta desta descoberta e fui atrás de livros sobre o pintor em diversas bibliotecas, livrarias e principalmente sebos no centro da cidade. E eis que me deparo com sua obra O jardim das delícias, feita entre os anos de 1503 e 1515 (período conhecido como renascimento nórdico) que me deixou - e me deixa até hoje - embasbacado.

O jardim das delícias é um trabalho de conotação bíblica (e isso é, por si só, razão para que os religiosos mais extremistas fiquem com uma pulga atrás da orelha antes mesmo de verem a tela). Contudo, é - a meu ver - uma das maiores pinturas já realizadas na história da arte. Toda feita em carvalho e tinta a óleo exibe o retrato de uma humanidade corrompida por escolhas fúteis e desesperadas.

El Bosco, por sinal, viveu uma vida difícil, numa época cruel marcada pela fome, a peste e a guerra. Eram tempos de civilização olhando para os céus e perguntando: "por que Deus simplesmente se esqueceu de nós?".

O tríptico mostra já na suas portas exteriores um globo terrestre ou o universo como criação máxima de Deus. Enquanto isso, na parte interior do quadro ele divide a pintura em três painéis dedicados ao pecado da luxúria.

O da direita representa o paraíso e remete ao sexto dia da criação quando Deus já havia criado todas as espécies animais e também o homem. Adão e Eva estão aqui mostrados desde sua concepção (Adão, por sinal, é o único personagem em toda a pintura que se encontra vestido). A serpente e o fruto proibido, que fizeram com que o casal fosse expulso do paraíso também estão aqui descriminados. É quando Eva vira a mãe do pecado, bem como todas as mulheres posteriormente.

No painel do meio vemos a caverna para onde Adão e Eva são mandados após a expulsão do paraíso (e é praticamente impossível para mim não fazer uma correlação com a Alegoria da caverna, de Platão, um mundo de pessoas cegas e covardes, que adoram rotular os corajosos de traidores e/ou malignos). Vemos o banho de Vênus, repleto de mulheres nuas, motor dessa luxúria descabida. É visível aqui o típico comportamento da sociedade patriarcal onde a mulher é culpada de todas as más decisões já tomadas no mundo. A água tem uma forte carga sexual, bem como os homens que cavalgam seus cavalos por toda a tela (aliás, as expressões cavalgar e copular têm simbologia idêntica). E aquilo que Deus pregara como "crescei-vos e multiplicai-vos" é mal interpretado, pois não há interesse da sociedade em qualquer tipo de reprodução, mas apenas de relações carnais e prazerosas. Por isso, Bosco pinta todas as perversões e fantasias propostas pelo sexo. Eu sei... Vai ter gente cristã chamando a tela de pagã.

Já o painel da esquerda representa o inferno musical (chamado assim, pois a luxúria era conhecida naquela época como a "música da carne"). Os instrumentos - o alaúde, a harpa, o órgão, etc - aqui são representados como instrumento de tortura, enquanto Satanás com sua cabeça de pássaro encontra-se sentado numa privada e devora condenados e infiéis, que são transformados em excrementos (ali, naquele ponto negro da pintura - vide a mudança na paleta de cores - o comilão vomita e o avarento defeca). As cidades, incendiadas, reflexo da penúria, convertem água em sangue. A humanidade encontra-se perdida definitivamente (por isso, as orgias diabólicas presentes neste segmento). Contudo, alguns especialistas em história da arte dizem que na expressão triste do homem-árvore (um paralelo com a natureza arruinada? quem sabe...) vemos um autorretrato do pintor.

Após tanto detalhismo e múltiplas cores (se existe uma pintura que sempre me chamou a atenção pelo contraste de cores, indo do glamour à escuridão, é esta aqui) o que percebo em O jardim das delícias é que se trata, isso sim, de uma tela profética que antevê o mundo em que vivemos neste século XXI claustrofóbico e mais preconceituoso do que nunca.

Talvez a humanidade nunca venha a estar preparada para entender uma mentalidade tão genial quanto à de Hieronymus Bosch, com suas opiniões polêmicas, por vezes controversas. Mas, posso dizer isso de carteirinha, se eu consegui descobrir um talento desses, pouco conhecido por aqueles que nada entendem de história da arte através unicamente do nome de um personagem numa novela policial, podem ter certeza: Shakespeare estava certo. ´"Há mais mistérios entre o céu e a terra do que a vã filosofia dos homens é capaz de imaginar".

A tela de Bosco é quase uma Divina Comédia visual, tamanho o seu vislumbre. E toda vez que me deparo com algo tão deslumbrante, me pergunto: o que acontece com nossa sociedade, incapaz de identificar a genialidade e a beleza, e perder tempo com tanta futilidade?

Que um dia, meu Deus, que permitiu o nascimento deste homem, dotado de tamanha sabedoria para entender o mundo, consigamos reverter este processo indigno de alienação e ostentacionismo pelo qual passamos atualmente!!!


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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