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Guerra suja
(Sangue bom: graphic novel ou uma história da impunidade?)
Roberto Queiroz

Há dias, confesso, em que tenho vontade de encher uma mochila com algumas roupas, dar uma de Jack Kerouac, e meter o pé na estrada, sem pensar em voltar. Não, é sério mesmo. O Brasil encaretou num nível obsceno e vivemos uma guerra suja onde opiniões as mais diversas são desmentidas para atender a vontade sórdida dos covardes e prepotentes que se acham donos da verdade (e, por isso, pretendem recontá-la a seu bel prazer). Muitos irão dizer logo na abertura deste texto: "isto é papo de derrotista, de quem desistiu da luta". Pode até ser. Mas, sinto muito, que dá vontade de ir embora, de vez, ah dá!

Entretanto, sempre que me encontro nessa versão melancólica da minha vida me deparo com um artista capaz de enxergar a realidade nua e crua, sem medo de apanhar dos eternos moralistas. E ele (ou eles) sempre me fazem repensar minha vida. Desta vez, os responsáveis por isso foram um trio: o roteirista Carlos Eugênio Baptista (mais conhecido no meio quadrinista como Patati), o desenhista argentino Francisco Solano Lopez e o arte-finalista Allan Alex Machado Alves. E a obra em questão é a magnífica graphic novel Sangue bom.

A HQ talvez seja o melhor exemplo que eu li nos últimos anos do que se transformou a cidade do Rio de Janeiro dominada pelo tráfico. E como toda narrativa que expõe o tráfico a nu, é praticamente impossível dimensioná-la a partir de um único protagonista, tendo em vista que em toda guerra que se preze há múltiplas vozes e agentes interferindo no resultado final.

A maioria das vozes em jogo aqui são de moradores dessas regiões afetadas pela violência urbana e o discurso de ódio desmedido (que ganhou força no país nos últimos anos).

Portanto, é natural o discurso agressivo e por vezes niilista (no sentido de "sem perspectiva de futuro") de personagens como Severino, dono de mercearia que vê sua vida ser destruída após um grupo de traficantes matar sua esposa e filha numa ação equivocada, levando-o a se tornar, ele próprio, um criminoso; Genilson, praticamente uma versão mais espertalhona de Buscapé, personagem do filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, o garoto faz-tudo da favela, aquele que sabe tudo o que se passa, desde a batida policial até os planos da facções rivais que disputam território no morro; Maricéia, a menina humilde que acreditava ter feito a escolha certa ao entrar para a igreja evangélica, que acaba por descobrir que até mesmo a fé pode ser tendenciosa e sujeita à parcerias sórdidas e coniventes com o mundo do crime; e Caveira e Maguila, os dois expoentes máximos da batalha pelo lucros do crime organizado, levando a cidade à um estado de caos irrefreável.

E isso apenas arranhando a estrutura dessa realidade vil e sem sentido.

A obra de Patati, Solano Lopez e Allan Alex esmiuça o retrato monocromático (como as páginas da própria revista, toda em preto-e-branco) de um país que vive se apresentando para a sua sociedade como o país do futuro, mas nunca conseguiu resolver problemas básicos do seu presente, como emprego, moradia, saneamento básico, etc. E a consequência desse desleixo é o estado de sítio em que vivemos, dominado por forças maquiavélicas e a cada dia mais poderosas do que nunca.

Sangue bom entra fácil para a lista das histórias em quadrinhos que o governo e os deformadores de opinião (tão em voga atualmente nas redes sociais) não querem que você tenha contato. E justamente por isso deve ser lida minuciosamente, como quem lê um bom livro de sociologia urbana.

Há mais denúncia e verdade aqui do que em muitos tabloides sensacionalistas e discursos políticos que vocês andam ouvindo ou lendo atualmente. E acreditem: isso não é pouca coisa.

E, no final das contas, se não podemos vencer a guerra suja estampada nas páginas secas e geniais do trio por ela parecer uma grande história da impunidade mal resolvida nesse país, que pelo menos possamos conhecer os fatos, por mais dolorosos que sejam.

Pois de hipocrisia e lamentações, eu pelo menos ando cheio...


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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