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Aquilo que poderia ter sido
Luk m

Dou um último trago no meu cigarro, e me encontro novamente sentado em frente ao meu computador. O vício em tabaco é algo que procurei evitar a minha vida toda, e essa vida toda se resume em grandes vinte e três anos. Mas é estranho, o cigarro tem seu charme, nos traz uma tranquilidade diferente, um tipo de aconchego que só se encontra nos melhores abraços. Estes abraços em particular me custaram nove reais, nove reais por vinte abraços, acredito eu ter feito um negócio e tanto, mas voltemos ao assunto.
     O nome dessa história, poderíamos chamar também de uma poesia da vida, é Aquilo que poderia ter sido. Se chama assim porque aquilo que é nós já sabemos, se resume em um jovem, na frente de seu computador, acendendo um novo cigarro, ou ganhando um novo abraço, veja como quiser, no dia onze de junho, véspera do dia dos namorados, contando sobre aquilo que poderia ter sido.     
E aquilo que poderia ter sido conta sobre o dia que acordamos resolvidos a ir visitar a cidade em que ela nasceu, eu, um menino do interior, com pouco dinheiro, ironicamente, toparia a proposta.
       A primeira discussão se concretizaria no momento da compra das passagens, pois como pode grandes e difíceis duzentos reais por algumas horas de ônibus? E claro, eu perderia. Sempre fui péssimo para controlar meu dinheiro e ótimo para deixar as pessoas controlarem, me dê um bom motivo que compraremos uma buzina para um avião. E com esse pensamento, partimos para São Paulo. Você propõe para que ouvíssemos música juntos, eu toparia, o que mais poderia fazer? Bota pra nós aquele Sertanejo e infalivelmente ouvimos o álbum completo do Coldplay, A Rush of Blood to the Head, o seu preferido, começando é claro por The Scientist. Deito a cabeça no banco e dou uma chance para a música.

     Algumas horas se passaram e finalmente chegamos na selva de pedra, apelido que aprendi ouvindo os raps do Racionais, é claro. Pedimos um Uber, que rapidamente chegou, um simpático senhor que tenta nos agradar de qualquer forma, puxando assunto sobre o que fazíamos da vida. Disse que sonhava em ser professor, e essa foi a deixa para que ele me dissesse o que já fez de errado na vida e, segundo suas palavras, “havia se cansado de comandar São Paulo”. O carro freia bruscamente, ele abaixa a janela e agride verbalmente o motorista ao lado, sim, ele xingou. Nos disse também que agora encontrou uma forma de viver honestamente, e é a deixa que preciso para fazer aquela pergunta que não me traria nenhum benefício, mas me faria uma pessoa simpática, como pessoas do interior devem ser. E a vida que o senhor levava era perigosa? Pergunto a ele. Ele me olha pelo retrovisor, com um sorriso leve no rosto e responde aquilo que traria a primeira alegria para o meu dia: “perigoso é ser uber em São Paulo”.
     Chegamos na casa da mãe dela, um lindo apartamento que quase é necessário tirar o sofá para termos um pouco de espaço. Faço os devidos cumprimentos, um carinho no cachorro, e ali vejo outro fator que faria o meu primeiro dia em São Paulo diferente. Já é tarde, vou a caminho da sacada, passo por você e pego na sua mão, indicando que você deveria me acompanhar urgentemente, deixando o papo de como foi a viagem para mais tarde. E daquela sacada, do lugar mais improvável do mundo, com a companhia mais provável do mundo, dou um beijo na sua testa e te abraço, vendo aquele pôr do sol, o pôr do sol mais lindo que tive a chance de ver. Imagino que haja diversos lugares em que o pôr do sol seja mais bonito, mas aquele momento, como explicar aquele momento? Deixo esse final de parágrafo guardado no coração.
      No jantar comemos um carpaccio de peixes. Aqui senti facilidade de digitar, devido as diversas ferramentas ao meu alcance, mas na hora não consegui reproduzir a pronúncia, fazer o que? Continuo a cumprir meu papel de menino do interior. Após o jantar, vimos um episódio de Riverdale na netflix, e como eu odiava aquela série. Você comenta pela vigésima vez que a atora principal é brasileira, aceno concordando com a cabeça. Fomos dormir.
Acordei fazendo a grande proposta de tentar reviver aquele momento da sacada, aquela sensação, e adivinhe só, não rolou.
      Infelizmente aquele é um dos momentos de uma vida que nunca se repetirá, e por isso devemos deixá-lo sempre guardado no coração.
Você me propõe que tomemos café e descansemos mais um pouco, pois me levaria para conhecer São Paulo, e assim fizemos.
Nos arrumamos e partimos para o metrô, você ri de mim por correr rumo ao trem achando que aquele que estava saindo levaria anos para voltar, me enganei novamente, eles vem e vão, curioso.
       A primeira parada é um buteco de esquina mas que de buteco não tinha nada. As pessoas da cidade grande tem uma ideia de buteco diferente de nós do interior. Perguntei a garçonete quanto custava o litrão, ela riu de mim, me dizendo que o chopp era nove reais. Vejo uma placa ao lado do balcão que dizia: “aproveite nosso Happy Hour, chopp em dobro”, decidimos beber ali mesmo. Eu tomo uns dois chopps, ou doze, não me lembro muito bem, e ela bebe no ritmo dela, devagar, mas sempre rindo e conversando, sempre, era uma das coisas que me faziam sempre perder uma discussão, aquele sorriso, tinha medo de nunca mais ver aquele sorriso.
       A garçonete que eu havia feito rir vem em nossa direção e avisa que o happy hour iria acabar, olho para você e proponho que saíssemos de lá, e você tem uma nova proposta. Você propõe que passemos no mercado para pegar um vinho, pegamos o mais barato, não havia copos, e por isso bebemos no bico. Você diz que vai me levar em um lugar que me impressionaria, e sabendo dos meus gostos prontamente duvidei.
     Pegamos novamente a minhoca gigante que queria fugir de mim da outra vez, vulgo “metrô”, tudo se torna mais difícil depois de dois chopps, ou doze, já disse que não me lembro bem. Chegamos a um lugar que parece arcaico, uma estrutura gótica, e leio na placa Praça e Catedral da Sé. Me impressiono e olho para você, você já tendo visto aquilo mil vezes acha engraçado a minha cara de espanto. Peço para que você me leve para ver por dentro, mas antes de eu ter a chance de subir as escadas da catedral você me puxa pelo braço e me pede um beijo, e ali eu congelaria o tempo se tivesse esse poder.
     Termino o texto com aquilo que é, o tempo passou rápido e hoje é dia doze de junho, dia dos namorados, percebo que fumei alguns cigarros a mais do que deveria e que a hora já está avançada, amanhã tenho que trabalhar. Dou uma olhada para o lado e penso nas diversas tarefas que terei que fazer amanhã, mas também penso naquilo que poderia ter sido, sempre penso...


Este texto é administrado por: Lukinha D
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