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O celeiro de José
A nevasca no sertão
José Rony de Andrade Alves

Resumo:
"Nem Antônio Conselheiro estava certo quando disse que o sertão ia virar mar e agora vem um tal de José dizendo que vai nevar."
A narrativa traz uma perspectiva de um nordestino que teve um sonho de que o sertão ia mudar. Ele começa a fazer um grande projeto, empenha-se ao máximo no projeto derivado de um sonho (talvez divino); ele mudou drasticamente sua rotina e tratou de seguir piamente o sonho.
O humor e a quebra de expectativa não deixam de estar na obra.Apreciem esta obra, divirtam-se. A narrativa no começo traz uma linguagem fora no cotidiano das personagens, entretanto o distanciamento entre narrador e personagem gera uma nova perspectiva narrativa: Leia e descubra.

O dardejar dos raios de sol pressagiava mais uma aurora naquela fazendola no interior agrestino. As sabiás e os bem-te-vis desatavam a cantar e as cigarras já indicavam o castigo solar que vinha. Seu José acordou tremendamente diferente, tinha tido um pesadelo que talvez prenunciasse a algo. Acordou abatido, mesmo assim, não se deixou levar pelas intempéries oníricas, foi metodicamente realizar seus quefazeres cotidianos: ordenhar a vaca, cuidar da ração dos bois e carneiros, alimentar as aves; enquanto isso Maria, sua mulher, estava preparando o café. Quando foram tomar café, maria notou josé muito abatido e questionou-o:
—o que aconteceu com você?
—nada não mulher.
—deixe de enrolação, sei muito bem quando está incomodado com alguma coisa.
—deixe de bobagem e vá tomar seu café.
—Mas num vou de jeito nenhum. cuide e desembuche logo.
—eu já disse
— você num disse nada. pois tá bem.
e assim maria saiu arretada da cozinha. Durante a tarde, após José chegar da roça, maria notou muito estranho; ele estava escrevendo algo em um papel. Maria ao vê-lo, gritou:
—Que danado tu tá fazendo agora?
—nada não
—endoidou agora. Este matuto tá escrevendo agora. Meu Deus, é o fim do mundo.
—não tô escrevendo. Cuide procurar o que fazer.
—Vish maria, tá perdendo o juízo. Nem cinquenta anos tem ainda e já tá pirando.
Após esse ínterim, Maria foi preparar uma sopa para o jantar. Seu José ainda não saiu do quarto e isso causou novamente um grande incômodo a maria. Ao terminar a sopa, maria pegou uma colher de pau e foi até ele descobrir o que estava fazendo.
—O que danado tu tai fazendo zé.
—já disse, nada.
—cuide, me dê esse papel aí.
E maria ferozmente tomou o papel da mão de josé e ficou muito surpresa, ele não estava escrevendo e sim desenhando; desenhou uma espécie de casa.
—que diabos é isso agora? você virou desenhista foi?
—não! disse ele friamente
— e o que é isto então?
—já falei que não é nada.
—Mas num to cega. Você vai me dizer dum jeito ou doutro. cuide desembuche de uma vez hôme.
—Eita mulher para aperrear meu juízo. Isto aí é apenas um desenho que veio na minha cabeça.
—pra que tu quer isso?
—pra nada.
foi quando maria pegou uma vassoura que estava no quarto e ameaçou ele impiedosamente. Ele, temendo levar umas porradas, acabou contando o que estava por trás daquele desenho.
Maria ao ouvir, disse que ele estava bem doido mesmo. José calmamente retrucou: talvez!
No dia seguinte josé foi coletar madeira para tal projeto e isso deixou maria perplexa.
Passaram 4 meses, José estava prestes a terminar o seu projeto. Maria cada dia ficava mais preocupada com a loucura dele. José de tempos para cá, começou a trabalhar incansavelmente, plantando, colhendo, estocando, construindo...
Quando por fim terminou seu projeto, não aparentava uma casa e sim um grande celeiro. Ele estocou comida não só para ele como também para seus animais. Os vizinhos acharam josé muito estranho, eles se perguntavam o por quê de tanto trabalhado, e além do mais, para quê um celeiro no sertão. Certa vez, veio uns primos distante até a casa de José, com uma pretensão implícita, eles vieram trazer alguns produtos orgânicos como forma de omitir sua verdadeira intensão: descobrir o porquê dessa construção. Ao passar o dia, eles em uma conversa trivial, acabaram induzindo ao questionamento do celeiro. José disse que era para se proteger contra o frio, e assim, eles discretamente riram, e retrucaram:
—Seu zé, de onde é que esse frio virá? Aqui é sertão e o único frio que tem é o da geladeira.
José por um momento se omitiu mentalmente, refletindo sobre o seu sonho assustador. Após alguns segundos, ele retornou e disse:
— Certa vez tive um sonho curioso. E que me fez fazer isto.
— Que sonho, conte-nos?
— A terra quente e amarronzada do sertão ficava fria e branca.
—Mas zé, ter pesadelos é normal, pesadelos e sonhos são distorções da realidade.
—tempos atrás, sonhei durante 2 semanas o sertão morrendo, não pelo calor e sim pelo frio, nos dois últimos dias da sucessão de sonhos, vi uma casa no meio do gelo, era grande e abrigava animais, era o celeiro que fiz.
—Zé, aqui é agreste, é até difícil chover, imagine gear . Sertão é seco, nem Antônio estava certo, quando disse que o sertão ia virar mar. E agora vem você, dizendo que vai nevar.
—Se não acreditas, não cabe a eu julgar. O que eu tive foi uma visão, que por mais que seja bobagem, a convicção que tenho é que esta estiagem vai dar lugar a uma passagem, em que ninguém ia imaginar.
E assim, seus primos saíram rindo, e josé calado ficou, Maria cada vez mais preocupada com José, pensou que ele deva está doente e que o sol quente tenha fritado seu juízo.
Em uma noite calma, uma chuvinha fina dançava sobre as telhas. Acresce que, aos poucos essa chuvinha começava a engrossar, e José na cama dizendo que a hora já ia chegar. De manhã cedo, José acordou, a chuva ainda estava forte, pegou um guarda-chuva, e foi até seus bichos guardar no celeiro. Quando voltou molhado, a mulher se arrepiou, pensava ela: será que ele está certo, será que com o dilúvio a neve vai chegar?. Mas tarde a chuva parou e o sol novamente raiou, sem piedades evaporou tudo que na terra foi abençoado. O calor reinou e com isso maria viu que josé estava errado. José não ficou preocupado, disse a maria que no seu sonho, aquilo era um aviso, e mas tarde a neve ia chegar. Passaram semanas, meses, e o sol cada vez mais forte, o sol castigava tudo e todos, a água estava escassa e josé ainda não desanimou. Maria estava com medo de José perder o resto do juízo que tinha com aquela ideia fixa. Após 3 meses do projeto de josé ter sido finalizado, a chuva começava a lavar a terra estéril, o pasto vagarosamente crescia, os animais se deliciavam, as seriemas gritavam anunciando a vida que nascia do solo rachado — era o paraíso. José sempre com a convicção iminente, tinha fé na sua profecia. Os meses foram se passando e a seca foi reinando, tudo que em um momento vivia o apogeu, viu seu declínio sendo devastado com sol...
Até hoje os bisnetos de José levam a profecia do tataravô como uma emblema. Quem sabe um dia do sertão o sol se canse, da chuva a neve surja e José fique lembrado como um profeta do passado, que tanto foi criticado, com seu sonho enigmático.


Biografia:
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