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Ceifador de momentos
Perdido no Nada
José Rony de Andrade Alves

Resumo:
Aos aficionados a leitura: exponho-vos um conto-crônica que traz uma reflexão de vida aliado a uma quebra de expectativa. Um homem solitário e uma vida pacata é transformada em um momento surreal. Inúmeras dúvidas, incertezas exsurge na narrativa. O final é deveras inacreditável. A narrativa é concisa e cada detalhe é posto a reflexão. O humor, o drama e acima de tudo, a expectativa às avessas imbuem a obra. Apreciem esta obra e divirtam-se com os desdobramentos desta enigmática narrativa.


Exato sete horas e trinta minutos de uma sexta feira, levantei da cama, troquei o pijama e fui escovar meus dentes, e conseguinte fui tomar café. A cada mordiscada que dava na torrada caramelada pousava a refletir sobre o que iria fazer no sábado. Nada. Essa foi a palavra que definiu aquele momento; simplesmente nada vinha na minha mente como subterfúgio a monotonia rotineira que vinha passando ultimamente. Após o rápido café, peguei o carro e me dirigi ao trabalho às pressas. Foi um sonho talvez, nem sequer cheguei ao trabalho, só me lembro de ter entrado no carro e de está dirigindo pela avenida. Acordei em uma estrada de terra, sem carro, sem dinheiro, sem roupa. Foi um momento de muita dúvida e incômodo; não sabia sequer para que lado ir. Já era em torno das dezoito horas e o sol estava ligeiramente se afogando na escuridão. Lembro que estava com frio e, pela primeira vez desde a minha infância, com medo. Na estrada, um vazio: sem carros nem casas. Mato e terra. O crocitar das corujas acrescido a uma aragem levemente fria me causava um arrepio incômodo. Por sorte não chovia, mas clima não era ameno, era aterrorizante. Estava profundamente átono. Pensei que tudo aquilo não se passava de um sonho, e então, fui ao encontro de um pedra levemente grande próximo a onde eu estava, e, impiedosamente, pontapeei-a. O sangue brotou acrescido de uma dor tônica, e assim, gritei bem alto. Nada abalava a atonicidade da minha confusão. Nem o eco respondia. Sentei na injuriada, cruzei meus dedos e tentei refletir forçosamente para obter alguma ideia do que acontecera. Novamente o “nada” exsurgia, e o momento de temor me consternava. Comecei involuntariamente a pensar no passado. No motivo das minhas perdas, decepções e desafetos.
Vi que tinha criado uma clausura emocional em minha vida, cujo motivo datava a morte da minha querida Jully. De lá para cá, a morte me acariciava com frequência. Pensei em me desfazer desta vida, talvez assim conseguiria reencontrá-la. No entanto, de tanto pensar, cheguei a conclusão de que se eu me matasse correria um grande risco de ir a um mundo diferente de Jully. Ou ainda, talvez os homens são os únicos que devam ir a algum lugar pós-vida. Foi assim que apreendi. Nessa lógica, passei a evitar qualquer menção do passado e tentei buscar formas de preencher o vazio que me envolvia. Não obtive melhoras; cada vez meu quadro depressivo estava se tornando um grande impasse nas minhas relações pessoais.
O silêncio local foi possuído por um som agudo que estava me incomodando, foi então que acordei. Era um sonho. Estava no mesmo lugar, só que já era dia e não vi barulho agudo, apenas o cantarolar dos pássaros. Que merda! Foi assim que acordei: irritado, sem roupas, com frio e agora para variar, com fome. Peguei alguns matos e me revesti e rumei ao desconhecido. A cada passo que dava, sentia um frio na barriga, escutava o batuque do coração— era o silêncio gritando. O sol matinal agora não me dava boas vindas; estava me fritando aos poucos. Lá ao monte avistei uma casa velha, depreciada e possivelmente abandonada. Acresce que uma ventania de poeira me fez apertar os passos e assim cheguei a casa. Gritei, procurei alguém e não obtive respostas. Então, decidi invadir a casa —não diria invadir, diria reabitar—, vi que estava realmente abandonada e que provavelmente não morava ninguém a décadas. Nesse momento, senti um conforto tênue e que me fez relaxar um pouco. A casa só apresentava dois cômodo: uma espécie de cozinha-sala e um quarto sem cama, mas com um colchão extremamente imundo. Talvez aí seja um bom lugar para recomeçar em detrimento do relento. Encontrei uma calça infantil, alguns utensílios domésticos e nada mais que uma coberta empoeirada. Na parede tinha um quadro bastante curioso, a foto de uma vaca com asas. Peguei o quadro e comecei a refletir como seria uma vaca de asas, foi então que um papel caiu detrás do quadro. Achei a situação deveras inusitada, peguei o quadro e repus, apanhei o papel, desdobrei-o, e então intentei a ler. Ler o que? Nada! Exclamei com tremendo espanto, e novamente o “nada” veio me troçar. Apenas tinha uma figura bem pequena de uma vaca com asas no centro. Comecei a rir. Entretanto, o momento engraçado foi transmutado ao ar melancólico do abandono e do medo. Estava muito confuso, antes eu tinha uma vida consideravelmente medíocre, um trabalho, não passava fome e não tinha medo algum da vida. Agora, senti os fantasmas do passado me atemorizando, as lembranças me fustigando, e a solidão companheira me azucrinando. Foi um delírio cruel, não saber onde estar, como foi parar neste lugar e, acima de tudo, não saber o que fazer. Pensei: se eu for morrer agora ou depois não me fará mais diferença, entretanto, quero viver para entender o porque disto tudo. Depois desses ínterins, fui vasculhar em derredor a casa. Uma forte luz brandou no horizonte, pensei naquele momento que talvez estava morto e aquilo seria o arrebatamento celestial. Estava enganado era o sol que antes se escondia atrás das nuvens e agora dardejou seus raios intensamente que me ofuscou.
Após algumas caminhadas fastidiosas, encontrei de baixo de um juremal uma pedra sepulcral com algumas fissuras e bastante empoeirada. Ligeiramente limpei o túmulo e tive um tremendo espanto; pensei que estava sonhando, pois o que estava grafado no sepulcro foi a mesma figura da vaca com asas que vi antes. Não sabia se ria ou se chorava, simplesmente fiquei extático. Saí correndo de volta ao casebre e mais uma surpresa se verticalizou a porta estava fechada. Pensei que alguém estava lá; chamei alto e nada obtive como retorno, foi quando eu peguei um porrete e escrupulosamente caminhei até a porte e chutei-a. A porta se chocou com a parede e acabou se rompendo. Ao entrar ninguém estava lá, nem sequer um animal e assim conclui, que provavelmente foi o vento que fez essa peripécia.
Um mês após esse castigo, eu já estava até me acostumando a sobrevivência nesse lugar. Alimentava-me de roedores, alguns frutos de arbustos, de cacto, de insetos, e raramente, pássaros. Durante esse tempo de adaptação e questionamentos, não obtive nenhuma respostas. Às vezes tentei seguir a trilha de onde eu surgi, isto é a estrada de terra, e mesmo assim não cheguei a lugar algum; diante disso preferi não ir tão longe para não perder de vista o abrigo no qual me refugiava. Aos poucos, o que era um motivo de pânico e medo, virou um motivo de conformidade e liberdade. Pela primeira vez me senti livre, sem preocupações. Cheguei a pensar frequentemente que ali era o paraíso pós-vida, não era realmente o paraíso que eu imaginava, mas para quem vivia uma monotonia urbana, voltar a perspectiva paleolítica não era mal. A cada dia eu ia me esquecendo do passado e de todo fragalho de tristeza. O sol podia ser um grande castigo naquela terra estéril, mas mesmo assim não me incomodava mais; o verdadeiro castigo era viver preso a uma rotina monótona de uma cidade, por mais que esta tenha formas de se entreter, uma hora acaba esgotando a sua perspectiva de mundo e limitando a vida a uma coerção social inimaginável. Assim eu era. Vivia preso ao trabalho, a vida urbana, ao capital e ,de fato, eu não vivia, eu apenas seguia o fluxo da vida. Algumas folhas seguem o fluxo da correnteza, as únicas perspectiva dessas são seguir o fluxo incessantemente até reduzirem ao pó ou afundarem e no final terem o mesmo destino. No entanto, esse lugar de exílio brandou como uma terceira via. Mesmo as folhas sendo da mesma fonte que as sementes, elas não têm a capacidade de renascer e perpetuar a vida, elas apenas rumam a decomposição. Por mais que eu fosse uma folha, eu me vi como uma semente naquele lugar, sabia que não iria renascer, mas iria persistir e continuar vivo, adiando assim, a decomposição.
Certa vez, estava coletando alguns frutos em uma moita, quando avistei em outra moita um bicho, fiquei assustado com o suposto animal, peguei uma vara e cautelosamente fui andando até uns dois metros próximo ao animal, catuquei-o com a vara, não com a intensão de machucá-lo, mas com a intensão de vislumbrá-lo. Era um filhote de raposa, vi que estava muito magro, e provavelmente abandonado, talvez sua mãe tenha morrido procurando comida ou coisa do tipo; pelo estado que estava, não via comida a dias. Ao resgatá-lo, levei-o até a minha casa ou cabana, como preferir; Tinha alguns pedaços de roedores e algumas castanhas, alimentei-o e decidi ficar cuidando dele até quando se fortalecer. Ao analisá-lo, notei que era uma fêmea. Lembro-me, de ter chorado ao ver que era uma fêmea, acabei lembrando de Jully.
“Oh Jully, quanto tempo já faz desde que a tive em meus braços. A imagem de Jully não saia da minha cabeça ao ver aquela raposinha. Toda amargura até então esquecida, voltava como uma chuva torrencial, que inesperadamente devastou meus sentimentos. Jully era uma cachorrinha que ganhei da minha mãe, prometi a ela que iria cuidá-la, mas devido a um acidente imprudente de carro, eu a perdi. Desde então sofri muito com a única lembrança que tive da minha mãe. Ela, anos antes, falecera de câncer, e daí em diante, prometi amar e cuidar de Jully como se fosse minha mãe. Fracassei em tudo na vida. Fui um verdadeiro fracassado nesta vida e eu não sei porque ainda estou vivo, se é que estou vivo. Tudo isso é real de mais para ser um sonho.”
Essa raposinha cresceu rápido, em torno de um ano e meio, já estava caçando roedores e algumas aves. Ela virou minha verdadeira companheira, chamei-a de Susy. Nós brincávamos muito, eu até conversava com ela, e esta parecia me entender. Realmente foi um verdadeiro paraíso aquele momento, me senti livre, feliz, e além do mais, Susy lembrava minha mãe. Parecia que Susy era a minha mãe, me acordava, caçava e perscrutava comigo por aí e, sabia voltar para casa, coisa que se eu tentasse, certamente me perderia. Desde quando estive nesse lugar, nunca peneirou uma gotícula de chuva, realmente muito escasso; tinha algumas lagoas por perto que acabaram secando e, isso me forçava a ir a procura de novas fontes de água. Em uma manhã calma, decidi abandonar aquele abrigo, talvez me aventurando poderia solucionar algumas dúvidas e também os recursos estavam escassos.
Eu e Susy rumamos ao desconhecido, cruzamos matas, prados, pântanos, montanhas, vales a procura de sentido para vida. O sentido para vida, assim eu descobri: é para o lado que você desejar seguir. Dias e noites nos aventurando, caminhando, navegando pelas florestas; isso tudo me trazia uma grande felicidade.
Dois meses de retirada, em uma tarde calma, o sol se desprendia do horizonte, e eu acabei avistando um casa ao longe, no monte em que estava, e isso me causou uma grande euforia. Decidi, passar a noite onde estava mesmo. Susy me trouxe algumas guloseimas campestre e assim fomos descansar ao som dos grilos e a vista da lua. No dia seguinte, tive uma surpresa abalável, a casa que avistei ontem não estava mais lá. Pensei que o que vi ontem tenha sido algum fenômeno ótico e assim, seguimos em frente. Algumas horas mais tarde, Susy começou a rosnar para um grande moita, e eu meticulosamente atentei a jogar uma pedra na moita, e nada se mexeu, fazendo com que eu fosse fuçar os matos a procura de algo; não achei nada e simplesmente dei de ombros.
Durante o entardecer deste mesmo dia, colhi algumas amoras e repousei meu corpo sobre o gramado. Questionei-me se eu talvez estivera em coma e tudo isso não se passava de uma retração alegórica do cérebro. Passei esse momento refletindo e Susy fielmente ao meu lado tentando me entender, afaguei a cabeça dela e assim nos despedimos do dia. No dia seguinte, procurei Susy e não a encontrei, achei muito estranho o sumiço dela, ela nunca tinha sumido assim e isso me causou preocupações. Passei o resto do dia procurando ela e não achei. Fiquei muito triste. Passei uma semana procurando ela pelas redondezas e não obtive resultado. Se passaram meses e mais meses, e não vi mais Susy. A tristeza desta vez me perfurou a alma. Fiquei muito desesperado. Não consegui conter as emoções, o desânimo e isso afetou profundamente na minha visão sobre esse suposto paraíso. Acabei gritando bem alto: Que inferno é esse que vim parar. De tanto se desesperar, acabei me esgotando, não me alimentei mais, não tive a menor intensão de obter comida ou de me aventurar mais. Preferi então me ausentar das necessidades do corpo e deixar que a fraqueza, o delírio e por fim a morte me consumir. Este foi meu prognóstico: a morte.
Não lembro mais de nada, só sei que após isso acordei em uma cabana no interior do agreste, no domingo a tarde, sentado em uma cadeira de balanço, com aquela mesma carta com a foto da vaca com asas. Meu carro estava na frente da cabana, pelo visto passei dois dias nela. E até hoje, não sei como fui parar lá, talvez meu cérebro tenha me induzido a ir até lá. Hoje já faz 13 anos desde que passei por esse momento. Às vezes, fico sem acreditar, mas no fundo sei que aquilo tudo foi muito realista para ter sido apenas um sonho. De lá para cá, resolvi construir uma família; a mulher que tangenciou minha vida, por incrível que pareça, chama-se Susy. Ainda tenho a foto da vaca com asas na geladeira de casa. Passei esse tempo todo omitindo toda esta história porque ainda estava sendo vítima das minhas indecisões e dos meus transtornos emocional; só então resolvi expor. Talvez possa parecer uma história fictícia, mas para mim retraz um significado muito profundo, algo que realmente fez minha vida mudar. Eu diria, encontrei o verdadeiro sentido da minha existência. Foi o melhor final de semana que tive.


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