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OS TRÊS TÊS
H. W. MEIER

Resumo:
Três amigos pré-adolescentes em uma brincadeira muito perigosa.

Tuta não viu, só ouviu e saiu correndo. Tato saíra correndo antes, mas como era mais lento logo Tuta o alcançou. Ao dobrarem a primeira esquina deram de cara com Tite, que nem perguntou nada, só pelas carinhas de aflição e medo já adivinhou que tudo estava feito.
Tuta era o apelido de João Batistuta Silva, nome que seu pai arranjara não sei aonde, provavelmente seria uma homenagem ao Batistuta jogador da seleção argentina. Mas seu pai nem gostava de futebol! Chamavam de Tato o Gabriel Donato dos Reis, dos três grandes amigos o mais quieto e franzino. Já Tite era Bruno Henrique dos Anjos, grandalhão, o mais velho e encrenqueiro deles.
Os chamavam de “Os Três Tês” (Tato achava que deveria ser Os Seis Tês, já que cada apelido tinha dois tês, mas acabou deixando por isso mesmo), eta turminha unida, não se desgrudavam nunca. Estudavam na mesma escola, Tuta e Tato na 7ª série A matutina, e Tite na 7ª série B também pela manhã. Tite havia repetido de ano duas vezes até aquela data, por isso era mais velho e maior. Ele também era o protetor da turma, especialmente do Tuta que, além de ser meio medroso, sempre ouvia dos demais meninos da escola o chamamento infame: “Tuta, Tuta, vem logo aqui seu filho da p...!”. E lá saía Tite distribuindo porradas.
Assim levavam juntos a vida normal de moleques em uma pequena cidade do interior: pela manhã, escola; às tardes, futebol ou bolinha de gude; de noite, aprontar. Na escola podia-se dizer que eram alunos regulares, Tato um tantinho mais estudioso mas sem nunca ter sido o melhor aluno da classe, e Tite o pior dos três, não havia o que fizesse a matemática entrar em sua cabeça. No futebol também não eram dos melhores, jogavam todos no mesmo time, é claro, mas juntos e devido ao profundo entrosamento até que conseguiam formar um meio de campo razoável. Já quanto às atividades noturnas...
À noite é que o bicho pegava, e até as personalidades se transformavam. Tato, normalmente o mais tranqüilo e introspectivo, transmutava-se no mentor das mais arriscadas e malucas traquinagens: acender bombinhas no rabo do gato da Dona Cibele, encher de chicletes já mascados as fechaduras da porta da igreja, pular o muro do cemitério e assustar o Tião Coveiro jogando pedras no telhado de sua casinha, etc. Tuta sempre aceitava de pronto as sugestões do Tato e era o primeiro a executá-las, o que já lhe rendera muita dor de cabeça e alguns castigos. Já Tite de valentão quedava-se cuidadoso, muitas vezes medroso até, proferindo sempre após a explanação do Tato sobre as atividades do dia (ou noite) sua frase preferida para estas horas: acho que isto não vai dar certo! Ninguém ligava.
Dito e feito. Acho que isto não vai dar certo, declarou Tite aos amigos após ouvir a explicação de mais um plano mirabolante feita por Tato. Mas o gênio das brincadeiras garantiu que ia sair tudo bem, tinha visto a ideia em um filme fazia alguns meses, e seria muuuuito divertido. Talvez fosse até um pouco perigoso, concedeu ele, porém o medo fazia parte da coisa toda.
Como o plano era relativamente complexo, em especial para crianças na idade deles, levou um tempo para ser concretizado, e além disto, para manter o segredo, resolveram dividi-lo literalmente em partes. Cada um dos amigos ficou de providenciar uma parte do objeto, sendo claro que para obterem sucesso deveria ser mantida a maior fidelidade possível com o original.
Tite medroso ficou responsável pelos membros inferiores, por achar mais fácil, e conseguiu que sua mãe após alguns protestos transformasse um saco de 50 kg de farinha em dois sacos compridos com a largura de um punho. Os encheu com serragem e palha, dizendo tratar-se de um trabalho escolar. Finalizou-os com um par de tênis vermelhos velhos que achou num armário.
Tuta o voluntarioso usou a mesma técnica de Tite para os membros superiores, com bons resultados, arrematando-os com luvas femininas “emprestadas” pela sua avó.
Já Tato o gênio respondeu pelas partes mais difíceis, o corpo e especialmente a cabeça. O primeiro foi resolvido com um grande travesseiro de feno que ninguém sabe aonde foi obtido. Mas a cabeça, e a cabeça? Parte fundamental do plano, olhos, boca, cabelos, tudo tinha que parecer real. Após algumas elucubrações, não restou outra alternativa que não o seqüestro, no caso o seqüestro de uma boneca de sua irmã mais nova. Por sorte ela possuía uma no tamanho ideal, acho que Susi ou Princesa, destas de porte maior quase da altura de uma criança de seis anos.
E lá se foi a cabeça da Susi/Princesa, juntando-se aos outros pedaços de corpos, tudo acabado com um vestido vermelho e alguns acessórios que Tato encontrou no sótão de sua casa. E não é que o conjunto final ficou bem agradável? Cabelos loiros na altura dos ombros, óculos escuros, uma pele bem branquinha arrematada por um vestidinho curto e tênis coloridos. Com peso e caimento bem distribuídos, a meia distância podia se jurar que tratava-se de uma criança ou adolescente. Batizaram-na de Marilda. Mais algum tempo de convívio e talvez algum dos amigos até viesse a se apaixonar por ela.
Partiram então para a parte final da brincadeira. Para maior efeito, o plano deveria ser executado em um final de tarde quase-noite, momento em que as luzes ficam difusas e os olhos reconhecem com mais dificuldade o que vêem. No dia combinado, marcaram de encontraram-se os três lá pelas sete horas da noite no viaduto de entrada da cidade, por sobre a rodovia interestadual. Tuta e Tato se encarregaram de levar Marilda, envolta num plástico preto. Sete horas, sete e quinze, sete e trinta, e nada do Tite aparecer. Deve ter ficado com medo, pensaram no mesmo instante os outros dois. Não havia mais tempo, já começava a escurecer. Num rompante de ação e sem dizer mais nada, Tuta despe Marilda de suas vestes negras e de olhos fechados a arremessa por cima da mureta na via expressa, no exato momento em que vinha pela estrada o ônibus das sete.
Iiiiirrh! Crash! Bam! Barulho de freadas, batidas, vidros quebrados, foi tudo o que se ouviu...

FIM

Nota do autor: Crianças, adolescentes ou adultos, NUNCA tentem reproduzir esta “brincadeira” na vida real!




Biografia:
Engenheiro e empresário, escritor iniciante.
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Contos OS TRÊS TÊS H. W. MEIER
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