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VII - Aquarius
Europa Sanzio

Resumo:
[ESSE TEXTO FAZ PARTE DE UMA NOVELA, COM ESSA SENDO A SÉTIMA PARTE]

Quinta-feira, 24 de Agosto

Inventei de prestar as condolências à falecida infeliz. Eu até suspeitava que a irmã dela sabia do acontecido do passado, mas tive minha confirmação após ver a cara que ela fez para minha chegada em sua casa. Mas eu ainda era Gregório Albuquerque, tinha ela que fingir todo o respeito.

O corpo mal foi velado, apenas enterrado quase que despercebido. Na casa só havia o casal e a menina, esparramada em uma poltrona com uma leitura na mão. Antes de entrar, bati as botas no chão para tirar a terra e logo a criatura se deu conta da minha presença. Ajeitou a posição e fechou o livro no colo. Pude jurar que me deu um meio sorriso.

— Boa tarde, Sr. e Sra. Dorneles. Estou aqui para dar meus profundos pêsames pela ida da sua queridíssima irmã. Conheci ela, há um bom tempo. Fazia bicos lá na fazenda.

— Mas é muita gentileza do senhor vir até aqui para se lembrar daquela pobrezinha! — Sr. Dorneles disse, todo satisfeito por me ter na sala da sua casa. — Sara, por que não vai aprontar um café para nós? Aceita, não é?

Sara? Era assim que a criatura chamava? Não, não! Referia-se a sua esposa, que foi atender ao pedido com a cara toda amuada.

— Menina, por que não vai procurar o que fazer longe daqui?

Daquela vez ele estava se referindo à criaturinha, que já se levantava, com a mesma obediência da mãe, porém sem esconder a insatisfação no que fazia.

— Espere. Ela é ela a filha da pobre mulher? Deus a tenha.

— Isso mesmo, meu senhor. Foi-se e ainda deixou uma pessoa no mundo para ser cuidada. Vai ser muito difícil dar de comer, vestir e todo o resto para mais alguém. Mas o que eu e minha mulher podemos fazer? Nunca tivemos filho, de todo jeito! Sempre quisemos economizar e agora a poupança irá se ir!

— Se o senhor me permite, por que fala nesse tom com uma moça que acaba de perder a sua única família?

O homem abriu os olhos de espanto pela minha alfinetada, mas não disse mais nada.

— Está bem, querida? Imagino que não. — perguntei em direção oposta ao homem.

A criatura nem assentiu, apenas foi se esconder em algum canto.

A odiosa tia chegou exalando cheiro de café e a cara amuada. Era tão taciturna quanto a sua infeliz irmã que morrera. Fingi conversa por bem meia hora com o homem e bastou uma brecha a sós com a sua esposa para que eu pudesse pôr o que eu queria fazer em prática. Não tinha ido até aquela casa somente para espiar a menina ou tomar café. Havia um propósito enorme naquilo tudo.

— E então? Sei que acaba de perder a irmã, mas a senhora me parece mais com raiva do que triste.

Mordiscou o próprio lábio e retrucou:

— Ora, minha irmã pode muito bem ter guardado segredo de todos, mas a mim ela contou tudo que se passara com ela. O senhor sabe que não precisa se preocupar quanto a mim, não tenho nada a ganhar contando ou exigindo algo. Mas não me peça para tratar o senhor com algo a mais do que mera educação. Isso ainda o faço pela sua posição. Caso contrário, o senhor não estaria nem sentado em meu sofá.

— Não consigo compreender completamente o motivo de tanto rancor, já que foi meu próprio pai que deu dinheiro para a sua irmã se arranjar. Eu estava presente. Deveria me ter gratidão. A mim e a minha família.

— Impressiona-me o modo como o senhor fala sobre esse assunto de modo tão sínico.

— A criança nem sequer era minha.

— Quem lhe garante?

Sra. Dorneles procurou baixar o tom de voz, enquanto conferia se havia alguém nos espiando.

— Não sei pelo que veio aqui, já que sei bem que não tem ou tinha considerações alguma para com a minha irmã. Então, se já estiver satisfeito...

— Não estou! Vim aqui porque quero propor uma coisa.

— Mas não há o que propor. Essa história da minha irmã com a sua família já teve fim há muito tempo.

— Deixe que eu lhe fale, só então diga alguma coisa. É sobre a menina. Recuso-me a falar-lhe com a senhora sobre os meus sentimentos, mas há muito desejo ajudar essa pobre criança a ser algo na vida. Não confunda isso com instinto paternal. É somente caridade. Teria feito isso a qualquer uma outra criança órfã que me tocasse o coração! Talvez até tenha feito. - mentia - Pois bem! Sei que ela não vai à escola, sei também que ela é interessada. Vejo isso porque já a flagrei na biblioteca e sempre a encontro com algum livro na mão. E não são bobagens do romantismo! Lê boas coisas. Pode haver nela vários outros interesses desconhecidos da minha parte, mas tão valiosos quanto! Não podemos deixar que ela os esconda. Temos que aflora-los. Deixe que eu dê a anuidade da matrícula na Academia Santa Catarina. Particular, só para moças! Pense no quanto isso fará bem a ela! O quão valiosa ela pode se tornar!

— Tem graça isso que o senhor me diz! Sua família trata minha irmã como lixo e agora o senhor vem com história de aflorar talentos e gostos da menina? Tenha dó! Não é necessário a sua caridade. Ela não vai à escola porque não é preciso. É minha sobrinha, cuidarei dela como tal, não como uma filha burguesa. Ela não tem estipe! É filha bastarda e só teve como família uma mulher fraca e sem importância. Não preciso joga-la no meio de Academia de sei lá o que para fazer a sua cabeça juvenil! Ela não precisa de escola. Precisa trabalhar. Irá começar aqui nesta casa. Cuidará das coisas e logo logo poderá até começar a fazer uns bicos de costureira.

— É isso que pretende fazer com ela? — Explodi em indignação — É inacreditável o que propõe! Venho aqui dar um futuro à menina e a senhora me vem com costura! Não tem cabimento. Quero que ela frequente a escola. Ela é minha sobrinha e a senhora, perdoe-me, é uma cabeça de vento.

— Mas que discussão calorosa é essa? — Surgiu Sr. Dorneles, soltando uma gargalhada.

Ah! Ah!

— Estava eu oferecendo um ato de bondade à Sra. Dorneles, ou melhor, à órfã, mas ela tende a recusar com veemência! — Expliquei-lhe — Senti-me um tanto ofendido mas o que posso fazer?

— Que besteira! Por que foi falar com a minha mulher sobre assuntos referentes ao nosso lá? A decisão última é minha, não dela. Não ligue para o que ela lhe falou. Dou minhas desculpas por ela. Diga-me, que tal ato de caridade seria esse? Se o senhor se ofende com a recusa, já sou de aceitar o que vier! Não permitirei que se sinta ofendido da minha parte.

Contei ao homem sobre os meus planos para a pobre criatura e ele, assim como a mulher, parecia inclinado a seguir outros trajetos para a menina. Sorria amarelo enquanto eu falava empolgado e tentava contornar o assunto com alguma conversa inútil. Mas era um babão! Não recusaria o que eu, homem que ele considerava imensamente superior, lhe propusera com tanto ardor.

— Que assim seja! Não esperava tanto do senhor, Gregório, para falar a verdade. Muitas pessoas já me falaram sobre seus excessos de caridade vez por outra, mas não esperava tanto! Muito menos para a pobre infeliz que se foi. Se quer a menina como sua pupila, quer tomar-lhe a proteção, que seja! Se deseja isso, não irei por pedras em teu caminho. Afinal, a menina não havia de ter proteção melhor que a tua, ou teria?

— Minha pupila! Que ótimo termo para o que eu quero que ela seja! Farei isto. Farei a matrícula dela na escola. Dar-lhe-ei o que necessitar. Basta vir até mim. Adotarei está pobre órfã.

Não havia quem desconfiasse de mim. Era somente a boa e velha família Albuquerque fazendo as suas caridades. Não fui o homem que adotei meus sobrinhos como meus filhos, casei com a viúva e tudo mais? Este mesmo homem pode muito bem ter como pupila uma jovenzinha recém órfã! Pode dar-lhe escola e presentinhos aqui e acolá. Só quem conhecia a verdade era a odiosa tia, o que teria eu a perder com tudo isso? Minha consciência ficará aliviada!

— Mas como a menina se chama?

— O que? Que disse? Ah! Melinda! Ela se chama Melinda.

Assim foi-me dado o nome da criatura. Melinda. Mel. É um nome de escorrer pela boca. Seus próprios olhos dourados fazem lembrar o doce. De onde será que a infeliz mãe tirou uma ideia tão bonita como essa? Algo me diz que nunca terei resposta para isso. Deve ter-se ido junto com o caixão! De toda forma, alivia-me saber que a garotinha tem um nome assim tão doce, que se casa tão bem com ela própria e com seus olhos. Pois ela é sim dócil! Não há que não perceba isso. Uma verdadeira criatura dócil.

Hoje mesmo, senhores, saído da casa, a coloquei na academia lá, para se misturar no meio das outras tantas moças, todas de boa família. Há gente de várias cidades que vai para aquelas bandas, a tal Academia Santa Catarina fica entre Vila Doracy e Ouro Branco. Fui lá e contei do meu ato de caridade, a diretora deixou até cair algumas lágrimas! Garantiu que fará um bem enorme para Melinda (ainda não me acostumei com essa alcunha, soa estranho no papel).

Sei que cabo de dar-lhe algo grandioso! Como estou contente e satisfeito com essa minha ideia! Outra ideia que não me foge é esta: terei desculpa para visitar a criatura. Tomei-a como protegida e assim me liguei a ela pelo tempo que eu bem quiser. Sem desconfianças, serei somente o bom homem. No fundo, é bem isso que sou. Há tempos não me sentia tão maravilhoso por fazer algo bom para outrem!

Mais satisfeito ainda fiquei quando Sr. Dorneles foi contar a tal coisa à menina e minutos depois a arrastou pela sala para agradecer-me. Tinha um sorrisinho travesso nos lábios, quase tímidos e completamente envergonhados. Estava usando o penteado que eu considerava o seu melhor; um rabo de cavalo em cada um dos lados de sua cabeça, cada um enrolado em um só grosso e espeço cacho, amarrados por fitas azuis anil. Como ela parecia apreciar essa cor!

— Muito obrigada, Sr. Gregório. — disse as palavras ensaiadas que muito provavelmente o tio ordenou que falasse a mim.

— Há de ser muito grata mesmo! — exclamou seu tio, em um tom tão rude que brigava com a doçura da menina que tinha ao seu lado.

Foi só ele se virar para fazer alguma besteira que eu aproveitar para dar à menina uma rápida piscadela. Queria tê-la a sós comigo e ouvir as palavras que ela realmente queria dizer para mim, assim como eu desejava dizer-lhe outras tantas. — Leia isso, isso e isso aqui também. Mas passe longe disso e disso aqui. Isto é o que eu falaria, de início! Depois iríamos achar outros assuntos em comum. De todo jeito, sei que haverá ocasiões tantas! Ela, como minha pupila? Sem dúvidas a vida tratará de coloca-la outra vez sob o mesmo teto que eu!

Viu só, senhores? Até que ando escrevendo bastante nessas linhas. Essa história toda me fornece certa inspiração. É-me prazeroso discorrer sobre as impressões que a juventude pode me trazer. Ah! Ah! Hoje dormirei tranquilo no divã. Talvez até tente dormir na cama com Teresa. Um duplo descarrego de consciência em um só dia, hein? Estou tão leve que posso tentar isso!

[CONTINUA]


Biografia:
Leio desde criança, quando comecei a achar o mundo enfadonho em demasia. Escrevo desde a adolescência, quando senti a necessidade de dissertar sobre aquele mundo tão tedioso. Prazer, sou Europa!
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