Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
ESPERA-ME COM O CAFEZINHO PRONTO
Sérgio Clos

Dia 15 de novembro meu irmão faria cinquenta e poucos anos, um guri. Partiu muito cedo, há dois anos e pouco. Cheio de empolgação, pois havia começado as tratativas para entrar na fila de transplante de fígado. Era evangélico. Na verdade nem sempre foi religioso. Já nasceu gaúcho acariocado e boa parte da sua existência viveu no Rio. Tinha inteligência acima da média, mas, muito malandro, dispensava os livros. Aprendia fácil. Bem diferente do nosso pai que tem uma fabulosa biblioteca e é viciado em leitura. Bira Clos, meu irmão, sempre disse que livro era para escorar a porta. Era “safo”, como diziam seus amigos cariocas. Convivi pouco com ele, e o pouco foi intenso. Bira Clos era assim de riso fácil e piada pronta. Quando as minhas piadas eram mais pesadas ele me olhava de revesgueio. Quando solteiro, era um “boa vida”. Tinha muitos amigos aonde ia.
Quando eu estava em algum perrengue ele tirava o maior sarro. Quando ele estava bem de grana e eu sem, ele dizia: “A vida é assim, uns sobem outros descem!” Ríamos das nossas desgraças.
No seu último mês de vida convivi com ele intensamente e descobri que o Bira Clos era um marido respeitoso, um pai amoroso e uma cara legal mesmo. Era meu irmão.
Havia feito todos os exames na Santa Casa, acertado tudo com a equipe médica. Alugou um bom apartamento aqui em Porto Alegre, pois deveria morar perto do hospital. Sua esposa e filha vieram para acertar as coisas e até a escola de segundo grau havia garantida. Depois de tudo acertado as duas voltaram ao Rio para fazer outros acertos e o Bira Clos ficou. Alguns dias mais tarde eu o levei até a rodoviária, pois ele queria viajar de ônibus para apreciar tudo com mais calma. Algum tempo depois de chegar à sua casa, bem e tranquilo, teve uma dor intensa.
Um dia depois eu fui ao setor de carga da Gol aqui em Porto Alegre apanhar o meu irmão Bira Clos num caixão lacrado.
Eu não disse pra ele que ele era um cara legal. Não deu tempo.
Às vezes eu me pergunto:
- QUAL É MESMO A HORA DE DIZER PRA ALGUÉM QUE ESSE ALGUÉM É UMA PESSOA LEGAL? NÃO SERIA AGORA, JÁ?
Minha homenagem ao meu irmão Ubiratan Batista Clos.
Algum dia nós iremos colocar a prosa em dia e aí então me espera com o cafezinho pronto.
Sérgio Clos 15/11/2016



   


Biografia:
Cronista e articulista. 64 anos
Número de vezes que este texto foi lido: 65788


Outros títulos do mesmo autor

Crônicas LONGO VERÃO Sérgio Clos
Crônicas UMA CARTA PARA O SENHOR TEMPO Sérgio Clos
Crônicas ABENÇOADAS Sérgio Clos
Crônicas DO OUTRO LADO DA VIDRAÇA Sérgio Clos
Poesias MINHA MUSA Sérgio Clos
Poesias O ENIGMA DA PEDRA Sérgio Clos
Poesias NA ORLA Sérgio Clos
Poesias POEMA DO ADEUS Sérgio Clos
Poesias ACORDO Sérgio Clos
Crônicas FIOS DE PRATA Sérgio Clos

Páginas: Primeira Anterior

Publicações de número 71 até 80 de um total de 80.


escrita@komedi.com.br © 2026
 
  Textos mais lidos
Decadência - Marcos Loures 66542 Visitas
camaro amarelo - 66540 Visitas
O confidente Solidão - Condorcet Aranha 66532 Visitas
Fazendo bolo - Ana Mello 66520 Visitas
Coração - Marcos Loures 66507 Visitas
Chico deu continuidade às obras de Kardec - Henrique Pompilio de Araujo 66506 Visitas
As incertezas na administração empresarial - Isnar Amaral 66504 Visitas
Poema à consciência - Condorcet Aranha 66493 Visitas
A Beatitude como ato de rebeldia - Flora Fernweh 66490 Visitas
Vida, um epelho de costas - Condorcet Aranha 66489 Visitas

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última