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Se me pedissem para definir a minha saída com as garotas, eu diria que ela foi um tanto inesperada.
Se vocês bem se lembram, eu estava pronta para atacar, só que quanto mais eu olhava para os lados e não via ninguém que me interessasse a ponto de querer levá-lo pro meu apartamento, mais eu fui perdendo a minha paciência. A perda da minha paciência foi a causa do aumento da minha racionalidade, porque chegou uma hora que eu pensei: "Pra que isso? Eu to me divertindo pra caramba com as meninas. Desencana!" e foi o que fiz, parando de lançar olhares furtivos de quem ta procurando alguém e fui me divertir com a minha irmã e a minha prima, que estavam bem mais animadas que eu justamente por não estarem preocupadas em encontrarem boys. Foi a melhor coisa que eu pude fazer, de verdade. No gráfico simbólico do tanto que eu me diverti nessa noite, depois que eu desencanei, ele só subiu. E pra fechar a noite com chave de ouro, elas ainda foram lá pra casa e como não saímos muito tarde da boate, preparamos um lanche e conversamos um monte antes de dormirmos.
Se pensaram que a minha noite se resumiu a essa tranquilidade, se enganaram redondamente. Pois é, acho que uma das coisas que eu mais quero comprovar com tudo isso é que é preciso muito saco pra ser piriguete.
Não se trata de eu ser a mulher mais linda do mundo e nem a mais gostosa, embora que autoestima nunca foi um problema pra mim. Eu só sei que ser como sou atrai mais homens. Se é o meu comportamento ou as minhas roupas, isso eu não sei, o fato é que não teve nenhuma noite que eu tenha saído que nenhum cara tenha chegado em mim. Não to sendo convencida, só to falando porque é assim e ponto. Isso pode parecer um sonho de consumo pra muita gente, principalmente praquelas gurias que insistem em coisas do tipo "ninguém olha pra mim, eu sou horrível e blá, blá, blá", mas acreditem em mim, isso nem sempre é tão legal quanto parece.
Primeiro, existem aqueles caras que acham que se estamos bem arrumadas, fizemos isso por eles e temos a obrigação de prestigiá-los. A parte de estarmos muito arrumadas nem sempre é uma mentira como já confessei, porém isso não quer dizer que estarei proibida de dizer "não". Se o cara não faz o meu tipo ou se eu simplesmente já não to mais na vibe, eu vou dizer "não", pronto e acabou! Mas quem disse que todos eles aceitam isso? Rejeição não é a palavra favorita de ninguém, eu entendo, só que tem uns caras que parecem ter pavor e já querem reagir ao "não" recebido com palavras que acho que eram pra me ofender. Puta, vadia, doceira, sapata... Ih! Sempre rola umas dessas. Tão ridículo quanto aqueles que já chegam beijando, partindo do pressuposto que sempre estamos querendo beijar ou se não estávamos querendo, acabamos descobrindo na hora. Bom, pra mim não é grande coisa pra ser sincera, afinal de contas, é só um beijo. Mas essa sou eu, Isa, o que não quer dizer que todas as mulheres estão de acordo comigo e não se importam. Não é algo que me deixa ofendida, mas se ofende outras mulheres, defendo a causa mesmo, então parem de chegar nas gurias como que se elas não tivessem vontade própria ou como que se a vontade própria delas não importasse!
E tudo isso que eu to dizendo são coisas que todas nós, que por simplesmente sermos mulheres, passamos. Agora já pararam pra pensar o que as piriguetes, em particular, sofrem? Não? A dica que eu dou é que é foda. Até porque esse status só é legítimo quando há todo esse reconhecimento dos outros, quando sabem como você costuma se comportar nas festas, quando sabem que você raramente sai desacompanhada das boates, quando já notaram que você nunca está com o mesmo cara e é essa fama que prejudica. O disse-que-me-disse é o que fazem os caras acharem que vão chegar em mim e beberão da minha fonte sem a menor sombra de dúvidas. Quando eu quero topar, eles acham que eu estou cedendo e, acordem, isso não é ceder! Ceder é quando você não quer, mas permite. Não! Quando eu quero, eu encaro. Agora quando eu não topo, ichi! Eu pioro três vezes a minha fama, porque eles não têm a decência de reconhecerem e dizerem que eu não queria, eles começam a dizer que eu fui escrota e contornam, contornam e contornam a situação, tudo pra não parecer que levaram um toco de uma guria que, aparentemente, "cede pra todo mundo". Como eu geralmente frequento os mesmos lugares, acabo me encontrando com as mesmas pessoas e por mais que não nos falemos ou saibamos os nomes umas das outras, sabemos mais ou menos quem é quem e eles não perdoam quando chega carne nova no pedaço, daí já começa a rolar os burburinhos.
É tudo muito complicado e é uma pena que as coisas sejam assim, mas nada disso me impede de frequentar os ambientes que eu gosto porque as pessoas falam mal de mim. Não vou deixar de me divertir, porque parte das pessoas daquele local acham que eu sou fácil e a outra parte acha que eu sou uma filha da puta que não cedeu. Aquela história de que eles não pagam as minhas contas, logo fodam-se eles, é bem verdade. No dia que eles tiverem que pagar minha conta de celular, juro que posso até pensar em me importar. Aliás, até que me importo, mas não o suficiente pra me esconder.
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