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A UTI e o corredor da vida
Arnaldo Agria Huss

Resumo:
O passar dos anos humanizou muito o trabalho e a internação numa Unidade de Terapia Intensiva, tornando melhor, inclusive, o acesso aos visitantes.

Durante muito tempo, a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital foi considerada como um corredor da morte, expressão estigmatizada pelas declarações do então ministro Darcy Ribeiro, que assim a considerava.

Quando de sua criação, as UTI’s eram ambientes fechados, onde não se tinha a possibilidade de entrar. Era uma espécie de clausura e apenas uma vez ou outra entrava alguém (normalmente um familiar) para visitar o paciente, mas saía rapidamente.

Na década de 1980 isso começou a mudar. Foi quando os leigos passaram a tomar contato com algumas situações assustadoras e estranhas: pacientes entubados, desacordados, com aplicação de soro e muitos equipamentos de monitoração.

Por muitas vezes, a UTI recupera uma vida e estatísticas recentes indicam que 90% dos pacientes acabam saindo vivos e em boa situação. Não se pode considerá-la um mar de rosas, mas é onde vidas são salvas. Por isso, entendo ser mais acertado chamá-las de “Corredor da Vida”.

Muitos médicos afirmam que hoje em dia há leitos formidáveis, aparelhos de respiração repleto de leds que impressionam pela modernidade. Há ainda os equipamentos de monitoração miniaturizados e os próprios ambientes são mais bonitos, se é que se pode dizer que uma UTI é bonita. Conheço-as muito bem, tanto pelo fato de já ter sido internado numa delas, como também por força do meu trabalho em um hospital. A parte tecnológica, sem dúvida, impressiona a quem visita. Mas isso, para quem está lá em situação adversa, perde toda a importância.

Eu diria que dentro de uma UTI é a humanização o mais importante, o que também vem a ser um indicativo de qualidade. Você pode tratar da forma mais grosseira, sem a menor consideração com o paciente, ou pode levar em conta que é alguém com uma história por trás de tudo aquilo. Na humanização faz-se a cura do corpo e da alma. É o que se chama de healing. Deve-se preservar a espiritualidade que o momento sempre exige. E isso tem um impacto muito grande no resultado final.

Deve-se ainda levar em consideração que lá dentro perde-se por completo a noção do tempo e até do espaço. Por muitas vezes não se sabe se é dia ou noite, qual o dia da semana e muito menos as horas. Para aqueles que vencem e conseguem sair, é necessário, além da fisioterapia – inclusive respiratória –, um bom trabalho de reintegração à própria vida. Novamente aqui entra o trabalho de humanização.

O que fica disso tudo é que, com a possibilidade iminente da morte, todos acabam perdendo o controle de si. Muitos considerados violentos amansam imediatamente, pois na horizontal todos se nivelam. Já presenciei ateu despertar para uma nova espiritualidade, assim como invocar, pedir e até falar com Deus.

A UTI, na verdade, é uma espécie de microcosmo da aventura humana; é o local onde caem todas as máscaras e todos, sem exceção, se revelam.


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Biografia:
Se as pessoas conhecem os meus textos, isso é o suficiente. Eles dizem tudo o que eu tenho a dizer, mesmo que as situações descritas não tenham acontecido diretamente comigo.
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