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“Temos medo de confiar demais nessas pessoas à nossa volta e acabar nos decepcionando”. É o que eu mais leio e escuto por aí. É um clichê, mas não deixa de ser verdade. Eu também temo, também ando pisando em ovos e guardando meu coração trancado e a chave bem escondida num canto falso de uma gaveta. Não deveria ser assim. Não era assim...
Já andei livremente e me expus às pessoas. Já voei sem ter medo de cair, mas me disseram que eu não tinha asas e, de tanto ouvir isso, eu acreditei e dei de cara no chão. Agora eu estou aqui embaixo, como o resto da população, obrigando-me a seguir as regras chatas deles apenas para tentar ser feliz... Mas eu não sou feliz assim.
Entre uma encenação e outra me pego abrindo um buraco entre a multidão de rostos anônimos e me distanciando silenciosamente para o canto mais distante da minha mente e da minha cidade. Lá, eu sento em um banco velho qualquer e olho as nuvens no céu, flutuando zombateiramente e ignorando o mar de pessoas estressadas logo a baixo delas. Queria saber como voltar para perto delas, contudo minha mente desaprendeu as regras de aviação. Espero que não seja eterno, eu penso; neste momento, levanto-me e volto ao mundo de ternos e gravatas, cheques e contas, manipulação e estresse.
Às vezes, durante aqueles longos trânsitos da Avenida Brasil, eu me permito viajar um pouco mais. Queria que os carros voassem, queria que meu ônibus pudesse transpor todos os outros carros, e querer é o suficiente para que aconteça dentro de mim. Chamar-me-iam louca se pudessem ver essas imagens de perto, mas eu não ligaria. Os loucos são os únicos seres realmente livres neste mundo.
Não gosto deste mundo de matéria, de medos e de pessoas frustradas. Eu gosto de pensar que ele é mais do que isso e quero vivê-lo assim, mesmo que solitariamente.
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