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O Alpendre
Augusto Nesi

- Carolina, busque a tesoura lá dentro pra Vó !
               Calmamente avó Rita fala com a neta.
               No alpendre, sentada em uma cadeira de balanço ela passara as tardes bordando minuciosamente enxovais, panos de prato, lençóis, cortinas, toalhas, guardanapos ou saias.
               Seus bordados venciam o tempo, eram famosos.
Com uma agilidade assustadora produzia em média 5 peças por dia, uma tarefa um pouco metódica quando analisada do ponto de vista de Carolina, que atentamente com os cotovelos apoiados sobre os joelhos e ambas as mãos segurando o queixo, divertia-se contemplando o delicado trabalho da avó.
     Uma mulher com histórias pra contar, e apesar da face enrugada e do aspecto sisudo, a viúva Rita era dócil, não se tinha notícia de qualquer manifestação hostil de sua parte, sempre fora educada com todos, diplomática nos tratos e – apesar da idade – astuta nas negociações.
     Comentavam que havia adquirido a bela casa por causa do alpendre, este sustentado por duas colunas de cedro e ladeado por azulejos decorativos que eram segundo ela uma obra divina, não realizavam apenas mera função utilitária ou de revestimento , eram na verdade uma arte ornamental que devido sua belíssima disposição atingira o estatuto transcendente da arte decorativa.
               O teto, originalmente coberto com telhas de cerâmica criteriosamente colocadas completavam o ambiente saudosista que a casa como um todo provocava nos olhares dos passantes.
- Um cartão postal.
Sussurravam os turistas com as pontas dos dedos cobrindo o a boca semi aberta.
- Que maravilha !
Diziam as mulheres mais empolgadas e um pouco invejosas.
- Uma obra de arte!
Exclamavam os arquitetos e apreciadores de antiguidades que por ali passavam.
     Não tenham dúvidas disso, o alpendre onde vó Rita passara as tardes era um lugar místico e confortável. Envolvido na mais pura harmonia que se pode ter em uma moradia, tornava-se um lugar memorável e inesquecível.
     Vó Rita sabia disso, e era neste local que ela atendia a tudo e a todos, como uma cigana em sua tenda, um médium em sua mesa, um gerente em seu escritório, um prefeito em seu gabinete.
     Se alguma dúvida ou problema surgisse na rua, no bairro ou adjacências era ela, Vó Rita, quem dava a última palavra, o aval, o veredicto.
Carolina além de obviamente se sentir orgulhosa em poder freqüentar o alpendre da avó, possuía um futuro interesse nos seus dotes - sonhava em se casar e logicamente ter seu enxoval inteiro bordado pelas mãos dela - também se espelhava em suas atitudes, gestos, máximas e aforismos que a velha prescrevia seguidamente enquanto bordava.
- Um homem e uma mulher só se conhecem quando se separam!
- Um mártir, não vive de martírios.
- Só não tolero a intolerância!
- Um Rei pode errar!
Muito silenciosa e discreta era avessa a longos diálogos, preferia as respostas curtas, a síntese, o resumo e negava-se em ouvir explicações.
- Quem fala demais dá bom dia pra cavalo.
Dizia ela sem tirar os olhos do bordado.
     Suas frases eram de um impacto luxuoso, provocavam um desconcerto geral nos ouvintes, uma mistura de ira e inveja.
Em uma ocasião quando indagada sobre o possível casamento de um humilde agricultor da região com uma linda moça de uma família próspera da cidade ela respondeu:
- Pato não usa aliança porque tem os dedos grudados.
     Ninguém entendera a frase, os que ouviram ficaram semanas tentando decifrá-la, alguns recorreram aos livros, compêndios, enciclopédias, e nem mesmo os mais instruídos encontraram um significado apropriado para a tão enigmática sentença.
     Não importa, era uma frase dita por Vó Rita, logo era indiscutível conseqüentemente deveria fazer algum sentido.
     Carolina cresceu, sorriu, casou, sofreu, teve filhos, chorou e os panos de prato que ganhara de Vó Rita ainda estavam lá – apesar de puídos – sendo utilizados na cozinha.
     
     Em uma festa de final de ano Carolina esperou o entusiasmo dos festejos encerrarem, se dirigiu à Vó Rita que sentada em sua cadeira de balanço no alpendre da casa bordava um lindo echarpe.
     Um olhar profundo nos olhos da avó e um sorriso tímido escondendo os dentes na neta bastaram como comprimento.
     - Vó Rita, a senhora não vai acreditar, ainda hoje tenho os panos de prato bordados que a senhora me deu. Que linha a senhora usa? Como a senhora faz?
     A pergunta provocou um enorme sorriso na velha, que sem olhar para a neta, concentrada na agulha, na linha, no movimento e no motivo a ser bordado com a cabeça baixa responde:
- É como cada telha deste alpendre minha filha, eu nunca dou um ponto sem nó!




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Poesias Gravata de Bolinhas Augusto Nesi
Contos O Alpendre Augusto Nesi


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