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Acho que todo mundo é diferente mesmo!
Acho que todo mundo é diferenre!
lathea

Resumo:
desventuras de um motorista de taxi, e seus problemas existenciais.

Acho que todo mundo é diferente mesmo!



     Gregório era taxista na praça XI, vivia a se questionar porque virara taxista, pois a vida de viajante o agradava muito. Gregório era um sujeito bonito; olho claro, tinha a altura de um metro e oitenta, rosto geométrico, nariz afinalado, cabelos louros encacheados; O idealismo nórdico em pessoa. A cada corrida da praça XI a rua da carioca ou qualquer lugar no centro da cidade, deslizava uma conversa sábia e agradável. As pessoas ficavam admiradas com tanta cultura e entendimento do mundo. E andavam em seu táxi; doutores, empresários, emergentes, secretárias e também gente simples. Além de sua beleza, Gregório entendia muito da vida e suas reviravoltas. Intuía como poucos as questões personalistas, lia imediatamente no semblante de cada sujeito, de acordo com seu estilo de vida respectivo.
     Gregório também se indagava qual o sentido da vida, essas coisas que de vez en quanto agente pensa. Mulheres exuberantes se encantavan com ele, queriam levá-lo para casa e cuidar dele.
Perguntavam sempre.
- porque você escolheu ser motorista de táxi.
- eu nunca pensei muito no futuro, quando me ocorreu ser motorista de táxi, descobri que fiz uma opção antropológica, dizia ele.
Era muito assediado, lhe o fereciam mundos e fundos. Mulheres completamente apaixonadas queriam porque queriam levar aquele prêmio para casa. Além de bonito Gregório era muito educado e tinha uma cultura vasta, as pessoas ficavam impressionadas com ele.
Eu não acredito que você é motorista de táxi. Pensei que fosse pegadinha.
- sou motorista de táxi e adoro o que faço. Ele sempre dizia.
- você poderia ser modelo, surfista, artista pornô, sei lá.
- rsrsrsrs, sou o que sou, e é só senhora. Dizia ele para as passageiras mais assanhadinhas.
Economicamente falando, não lhe faltava nada. Não tinha esposa, nem filhos. Morava com seus pais e ajudava no que podia em casa. Isso de certa forma era um alívio em relação a sua despesa. O que ele ganhava, dava para sair com sua namorada norminha; ir ao cinema, a praia ou algum bar legal.
Alguns amigos questionavam esse estilo de vida, e perguntavam; como é morar com os pais.
- é ótimo, adoro minha casa e meus pais. Dizia ele.
Mais você não pensa em ter esposa e filhos.
- não penso muito nisso, sou meio desligado em relação à vida conjugal. Gosto é de namorar, sair, curtir.
Como Gregório era um cara muito maneiro, os amigos nem ligavam muito, só ficava curioso para saber como é levar uma vida assim, sem maiores responsabilidades. Sentiam até um pouco de inveja às vezes, sabiam que Gregório era o cara mais cobiçado do bairro. E isso era confirmado até por algumas esposas...
Gregório gostava de um bom samba, uma cerveja com a galera. Mais sempre bebeu socialmente. Olhava discretamente as mulheres mais bonitinhas, que diga de passagem, o comiam com olhos. Nunca foi muito afoito nesse quesito paquerador, sempre esperava sua hora. Vira e mexe, aparecia sempre uma gatinha para seduzir o rapaz.
Gregório levava sua vida com uma leveza, embora tivesse muitos questionamentos existenciais, que às vezes o deixava triste; mais tem sempre o outro dia e as coisas do cotidiano, que não deixam tempo para mais nada, a não ser, trabalhar...
Foi num sábado à tarde, Gregório recebe um telefonema.
- alô, pode falar. Ele ao rádio
- você tem uma corrida para Madureira, está com algum passageiro. A cliente o espera no Paço Imperial. cambio.
- ok, estou indo para lá, vou demorar cerca de vinte cinco minutos. Obrigado Solange.
- ok, vou comunicar o cliente. Obrigada Gregório.
Gregório se dirige para o Paço, segue a presidente Vargas, entra na primeira que dá mão à esquerda, entra na Rua Primeiro de Março e pronto, atingindo assim seu objetivo.
- boa tarde foi à senhora que pediu o táxi.
- sim, obrigada.
- Dona Silvia
- Correto, Sou Gregório.
Partiram rumo a Madureira. E dona Silvia o perguntou quanto minutos ele a levaria até seu paradeiro.
- senhora vai levar uns cinqüenta minutos.
- esta bem; disse ela.
Delongaram-se em silêncio, pelo menos, até o meio do caminho. Foi quando...
- me chame de Silvia.
- tudo bem, Silvia onde você trabalha.
- trabalho como Curadora de arte no CCBB, na Rua Primeiro de Março.
- que maravilha, diz Gregório.
E continuou o papo daí em diante.
- você é motorista de táxi há muito tempo; diz ela.
- não muito, uns cinco anos; diz ele.
Silvia era uma mulher batalhadora, sempre gostou de desafios. Trabalhou sempre desde a adolescência. Era muito bonita; rosto suave, morena, cabelos longos, meia altura. Um corpo muito bem feito.
- você conversa muito bem e é bem antenado com as coisas eim; diz ela.
- mais ou menos, tem muita coisa aí que eu não tenho a menor idéia; diz ele.
- você é sim, muito bem instruído. Parece um dos meus colegas de trabalho; diz ela.
A cada idéia foram se identificando. E assim se soltando das convenções sociais, essas coisas que sempre acontecem entre chofer e passageiro.
Chegaram a conversar sobre sentimentos.
- tem namorado; diz ele.
- não no momento, eu tinha uma pessoa, mais não deu certo; diz ela.
- que pena, às vezes acontece isso, de não dar certo. Mais você é bonita inteligente, logo vai aparecer alguém.
O brilho nos olhos dos viajantes mudou de uma hora para outra, revelando assim, uma alegria estranha.
- você não vai me levar a mal; diz ele.
- claro que não, nessa altura da viajem, já considero você um amigo...
- que bom, então vou falar; posso te convidar para tomar um chope, quer dizer, vamos tomar um chope agora; diz ele.
- sim vamos; diz ela.
- eu não vou te atrapalhar; diz ele.
- claro que não, já terminei tudo que tinha para fazer hoje, inclusive trabalhei sábado né; diz ela.
O único lugar que tinha disponível era no shopping Tem Tudo, um pequeno estabelecimento que hoje, não é muito bem freqüentado, mas que teve seu auge há algum tempo, quando o subúrbio estava em ascensão, lá pelos anos oitenta.
- me desculpe o lugar, não faz muito as nossas preferências, mas é o único que fica no trajeto; diz ele.
- sentaram e pediram dois chopes – e ela disse; tudo bem, o que faz o lugar é a companhia.
Gregório nunca ou por qualquer motivo, tinha feito isso em toda sua carreira de taxista, parar no meio do trabalho para beber, ele nem era de beber. Foi mesmo o clima e a intuição dizendo-lhe, que aquela podia ser a mulher de sua vida. Conversaram sobre artes plásticas, quadros famosos e alguns pintores importantes; Michelangelo, Picasso, Rambrandt, Dali.
- nunca em toda minha e em todos os táxis que andei, nunca ouvi alguém falar sobre arte; diz ela.
- às vezes as pessoas se surpreendem com o que não está no seu lugar. Mais acho que o campo de trabalho hoje em dia, seja pela falta de oportunidade ou por necessidade; taxista, secretaria ou balconista. Existe uma diversidade de gente que tem um conhecimento e certa cultura geral das coisas.
- seu jeito de falar e tão diferente dos outros; diz ela.
- que bom, acho que todo mundo é diferente mesmo; diz ele.
Totalmente soltos pela conversa agradável, o chope gelado. Beijaran-se cuidadosamente, pois era o primeiro e repentino encontro.
- eu nunca beijei ninguém no primeiro encontro, sequer um taxista em um sábado à tarde; diz ela.
- eu também nunca beijei uma Curadora de arte em um sábado à tarde; diz ele.
Daquele momento em diante começaram um romance consistente; desses que as pessoas fazem torcida e tudo. Comemoraram com a família toda reunida o inicio do namoro, com direito a samba e festa a noite toda.
Silvia e Gregório agora freqüentavam os mesmos lugares. Gregório sempre inteligente acompanhava as conversas com aquela precisão de análise impecável em relação à arte moderna. Então Gregório faz uma grande observação da famosa discussão a respeito do urinol de Marcel Duchamp, que provocou grande reboliço nos intelectuais e artistas da época. Onde André Breton se reuniu com famosos intelectuais para discutir o que é arte. E houve uma defesa esmagadora da classe artística a favor de Breton. E quando o próprio Breton defendeu e argumentou em relação à obra de Duchamp; que o objeto deslocado de seu meio natural, causa um estranhamento no sujeito, sendo isso, denominado arte ou efeito causado pela obra de arte.
Quando Silvia no meio daquela gente catedrática ouviu Gregório dizer esse ocorrido importantíssimo para o meio artístico; se encheu de orgulho, porque tinha escolhido a pessoa certa para ter um relacionamento e sabia que era recíproca a questão.
Mas o que ninguém sabia; nem seus amigos, nem suas antigas namoradas. Muito antes dele se mudar para o bairro, há dezoito anos atrás. Quando veio morar em um pacato bairro do subúrbio. E talvez por causa disso, pediu a seus pais para se mudarem de Campos do Jordão, para um lugar que não tivesse nada haver com passado de Gregório, onde as pessoas nem desconfiariam dele, nem de seu passado. Um segredo que só seus pais sabiam e foram proibidos de pronunciá-lo para qualquer pessoa; seja da família, namorada, colega. Era um segredo guardado a sete chaves que remoia Gregório e que às vezes, ele o até esquecia, o que era bom para ele.
O fato era que com dezoito anos, Gregório foi estudar na França. Já formado em Filosofia pela Universidade UNIVAP. Conseguira uma bolsa para cursar o Mestrado e Doutorado em Antropologia Social, ministrado pelo Douto; Pierre Jean Ingegneri Marzari, do Instituto de Antropologia Avançada. Passou cerca de oito anos na Sorbonne, passava dias escrevendo sua tese, entre pesquisas que lhe tiravam o sono. Com pouco dinheiro ele teve que trabalhar como entregador de pizzas; faxineiro, atendente de lanchonete e lavador de carros. Foi uma vida movimentava, trabalhava e estudava. passava horas na biblioteca pesquisando, anotando tudo.
A vida em paris foi um amontoado de coisas, entre elas, o charme das mulheres francesas, que foi um grande experimento para aquele universitário. Cada noite dormia com uma mulher diferente; as festas regadas a bom vinho. noites intermináveis e discursos inflamados sobre as novas tendências do Estruturalismo Antropológico. Foi quando no auge da duvida, ele refez toda sua tese, atrasando assim o prazo para entrega, o que o fez; demorar mais que o normal para concluir seu Mestrado. No outro estremo, tinha se apaixonado perdidamente por Brigitte, primeiro porque lembrava o bom cinema francês e depois porque ela era doce, inteligente e surpreendentemente linda.
Gregório em decorrência com as brigas amorosas, relaxou nos estudos e não conseguiu entregar sua tese a tempo. A paixão arrebatadora o tirou do prumo. Chorava com saudades dela e ia atrás dela onde fosse; implorava para reatar o namoro. Até que desistiu e tentou se recompor nos seus afazeres. Um dia acordou no meio da noite e sentindo um vazio dentro do seu peito. Não sabia mais distinguir vida e pesquisa. Por sorte aquele amor o fez ver, que os sentimentos tinham algum significado para ele e não podia negá-los, por mais que lutasse contra isso. Não por questão de romantismo, mas por humanidade. Amava muito as pessoas e no fundo, se dava bem com elas.
Então naquele dia fatídico, arrumou suas malas, comprou uma passagem para o Brasil. E esqueceu de tudo, menos de Brigitte que lhe trazia as melhores lembranças dessa época. Tinha seu retrato na cabeceira, quando estava muito triste, sempre dava uma olhadinha na foto para lembrar daquele passado maravilhoso.
Gregório agora está feliz com Silvia e estão morando juntos num simples apartamento que fica localizado no cetro da cidade. Fica melhor para irem a exposições, vernissagens e concertos; de preferência com Orquestras quartetos de cordas, que são as preferidas de Gregório. Silvia continua trabalhando como Curadora e Gregório como taxista. Gregório às vezes sente falta do passado, mas é só por um estante. Silvia nem desconfia da Universidade na França; por medo ou por vergonha, Gregório nunca contou para ela. Silvia acha que tudo que ele aprendeu foi lendo enciclopédias, talvez seja melhor assim.
Ass, lathea













Biografia:
escritor amador
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