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A política não apenas acorda antes de todo mundo — ela invade a vida de quem tenta fingir que não existe. Está no preço abusivo do pão, na espera interminável por atendimento no posto de saúde, no ônibus lotado que sempre atrasa. Negá-la não é neutralidade; é privilégio ou alienação. Enquanto alguns dizem “não gosto de política”, outros pagam caro pelas decisões tomadas longe de suas vozes.
O discurso de que política “estraga o almoço de domingo” serve bem a quem prefere o conforto do silêncio à responsabilidade do debate. Afinal, questionar incomoda. A política não vive só nos palácios ou nos palanques: ela se manifesta em quem decide e em quem é deliberadamente deixado de fora, em quem tem vez e em quem aprende desde cedo a esperar — ou a desistir.
A apatia, tão romantizada como cansaço ou desencanto, também é uma escolha. E quase sempre beneficia os mesmos de sempre. Enquanto uns gritam certezas rasas, outros se afastam, acreditando que nada muda, como se a omissão não sustentasse exatamente o sistema que criticam em silêncio.
No fundo, a política é um espelho cruel. Escancara nossas incoerências, nosso individualismo e a facilidade com que terceirizamos responsabilidades. Ignorá-la não a enfraquece — apenas fortalece quem decide sem ser questionado. O verdadeiro desafio não é apenas discordar sem se odiar, mas participar sem se acomodar. Porque, se política não for cuidado com o outro, ela vira apenas gestão de interesses — e quase nunca dos mais vulneráveis.
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