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O CRUEL SEGREDO DE EVA
TITO CANCIAN

Resumo:
Eva, por parte de sua vida, cria seu próprio filho imaginando ser ele filho de outro rapaz, ao descobrir a verdade se vê diante do dilema, manter seu segredo, ou contar toda a verdade.

O CRUEL SEGREDO DE EVA
Porecatu, em indígena “Bonito Salto D’água” ainda era um distrito de Sertanópolis, cidade situada no norte do Paraná, e foi lá que em uma segunda feira do mês de janeiro de 1941 teve inicio o que vamos contar.
Por muitos anos Dolores criou Adalgisa, filha de sua antiga patroa. Esta cresceu, e agora a baba permanecia na casa cuidando de Celso, filho recém-nascido dela. Naquela manhã, ela chegou apressada, pedalando sua velha bicicleta, entrou na casa em prantos com a noticia:
_Minha filha faleceu ao dar à luz de seu primeiro bebe. Terei que deixar o emprego para cuidar desse meu neto.
Adalgisa, criada por Dolores e sua atual patroa, não aceita o pedido de demissão e propõe que ela e seu neto passem a morar em sua casa que além de enorme, ficava próxima de um posto de saúde, onde o seu neto teria um bom acompanhamento pediátrico e próxima de boas escolas, e que no futuro ele poderia seguir ali seus estudos.
Dolores aliviada agradece e aceita a oferta dizendo:
_Temos agora dois meninos com menos de um mês de diferença em idades, mas sei que darei conta de cuidar de ambos.
E foi assim que Celso, filho de Adalgisa e Mario, neto de Dolores, foram criados.
Havia contubérnio entre eles, frequentavam a mesma escola, jogavam futebol juntos e não havia nenhuma discriminação por parte de ninguém, eram os meninos da casa.
Apenas a genética os diferenciava, Celso, filho de uma mãe bem cuidada herdou dela a sua aparência saudável e bonita, Mario, cuja mãe deu a luz ainda muito jovem, e criada com poucos recursos, era menor na altura e com muitos problemas de saúde.
Na escola ambos e mais dois amigos, “Anselmo”, e “Juliano” se destacavam formando o ataque do clube de futebol da escola e da cidade.
1960 - Três deles concluíam o curso cientifico, e Anselmo era do tipo de menino que não gostava de estudar, preferiu trabalhar ordenhando vacas.
Foi nessa época que Celso conquistou sua primeira namorada. “Eva” ela tinha 18 anos era filha de imigrantes Italianos e se ocupavam da criação de gado leiteiro em sua fazenda, como muitos faziam no Norte do Paraná.
O namoro durou muito pouco, menos de um mês, mas os jovens movidos pela paixão se entregaram um ao outro, ambos pela primeira vez.
O ciúme determinou o fim do relacionamento, pois, Celso, rapaz alto, bonito de família rica e tradicional, chamava a atenção das outras moças do pequeno município e enciumada, Eva causou vários atritos vindo à separação.
Mas ela além da caturra tinha um gênio forte e não aceitou passivamente o fim do namoro.
Tratou de conquistar Mario, queria assim provocar ciúmes em Celso, e também namorou e se entregou a esse por cerca de um mês.
Mario sempre teve pouca saúde, e queixava-se sempre com Celso por sentir que tinha muita sede, e fome. Urinava pouco e o ato lhe causava sangramento e dor.
Celso pede a ele que vá buscar orientação médica, porem, alegando que teria que usar recursos da sua avó já que ele sequer trabalhava, recusou a sugestão.
Sendo seu grande amigo, criados como irmãos, Celso não se dá por vencido e resolve ajudar Mario.
Marca uma consulta com Dr. Alfredo, único médico na cidade. Como ele também não trabalhava, pagou a consulta com a mesada que recebia de sua mãe.
No consultório, Celso relata ao médico todos os sintomas do amigo como se fossem seus.
Ao final da consulta Dr. Alfredo informa que ele deveria efetuar diversos exames, mas em uma cidade maior, com mais recursos e mais confiáveis.
Recomendou a Santa Casa de Londrina, onde não teria nenhum custo, além de os resultados muito precisos.
Como era sem custo, Celso induz o amigo fazer os exames. Mario resistiu muito à ideia dizendo: _Amigo o que estamos fazendo é ilegal!
Mas Celso retruca: _Não estaremos prejudicando ninguém, não usaremos os resultados para burlar ou tirar proveito deles! Insiste reforçando o que Dr. Alfredo havia dito e Mario, pior de saúde, se convence dessa necessidade.
Com o encaminhamento para exames em mãos, vão até Londrina e dirigem-se ao laboratório do Hospital da Santa Casa indicada pelo médico.
Lá chegando, Mario se encaminhou para a sala de espera que está lotada e Celso se dirige a recepção com a guia de encaminhamento e seus documentos em mãos.
A atendente anota todos os dados, solicita a assinatura de Celso na requisição, e pede para ele aguardar a chamada pelo nome, na sala ao lado.
Mario já lá estava e assim que o alto falante mencionou o nome de Celso, ele se dirigiu à sala de coleta de sangue.
Ninguém lhe pede mais nenhum comprovante de identificação. Dessa forma o material colhido é de Mario, em nome de Celso e o resultado é encaminhado diretamente para o médico que o solicitou.
Decorridos alguns dias, Celso é avisado que os resultados dos exames haviam chegado e retorna para a consulta médica.
Dr. Alfredo estava na cidade há poucos anos, não havia acompanhado Celso em sua infância, e não sabia que o moço era um atleta que nunca havia ficado enfermo, vendo os exames lhe diz:                            
_ Meu rapaz, você sente toda essa sede e fome porque é diabético e ainda teve varicocele, e caxumba mal curada.
Sinto informar que essas enfermidades o tornaram um homem infértil, não poderá engravidar mulher alguma.
Atualmente não há muito que fazer, quem sabe no futuro, com o avanço da medicina. E suas dores e sangramento ao urinar são provenientes de pedras nos rins. Vou prescrever medicamento para aliviar as dores, mas para tratamento da infertilidade, aconselho buscar centros maiores.
A revelação chegou a abalar o ânimo de Celso que ficou arrasado pelo que o destino reservara para seu grande amigo. Mas se refez para dar forças a ele.
Levou a medicação indicada e passou todas as orientações médicas para Mario. Este seguiu o tratamento à risca e num curto prazo de tempo alcançou melhoras.
Logo resolve mudar-se para Curitiba imaginando que em uma cidade maior poderia tratar-se e um dia reverter seu problema de infertilidade.
Tempos depois passou no vestibular para Direito. Sempre mandava noticias por carta e seguia fazendo seus tratamentos médicos.
Os rapazes seguiam suas vidas sem imaginar as implicações daquela troca de identidade nos exames.
Marilda, a assistente do Dr. Alfredo, ouvira toda a conversa que seu patrão tivera com o paciente e quando este deixou o consultório, ela tratou certificar-se do que contaria para todas as amigas interessadas em namorar Celso. Conferiu os exames e concluiu:_ Não são bulícios eis as provas, ele é infértil.
Celso, não soube na época, pois as “fofocas” não foram divulgadas por toda a cidade, apenas as moças interessadas no “bom partido”. Eva também tomou conhecimento.
Naquela ocasião Eva havia namorado Celso e Mario e sua menstruação estava atrasada. Desnorteada, sem saber o que fazer, conta para sua mãe sobre sua situação que por sua vez conta para seu marido.
Giovane, o italiano, pai de Eva, ficou furioso. Naquele tempo ser mãe solteira era uma grande desonra para a família.
No dia seguinte ele leva Eva a um médico de uma cidade longe dali e vem à confirmação, sua filha estava grávida.
Religioso não teve dúvidas, essa criança iria nascer, mas ele tinha outros planos.
Em seu retorno espalhou pela cidade que Eva ficaria meses fora para acompanhar Beatriz, a filha mais velha e que esta sim estava grávida. Ia ajudar a irmã com o enxoval do seu neto.
Eva vai morar na fazenda com sua irmã casada, e que não tinha filhos.
Quando a barriga começou a aparecer, Giovane leva Eva, Beatriz e Ada, sua esposa, para morar em Cambe, cidade próxima dali.
Lá as irmãs passaram a usar vestes bem largas, tornando impossível de se notar a gestação.
Mensalmente Eva é levada para fazer o pré-natal.
Quando ela dá a luz, seu pai leva a criança para sua fazenda, e o bebe registrado como filho de Beatriz e Clóvis, seu marido.
Giovane avisa aos amigos que seu neto, filho de Beatriz nascera na fazenda.
Sabendo por meio de Marilda que Celso era infértil, o pai de seu bebê só poderia ser Mario, um rapaz pobre e ela sabia como pensava Giovane, seu pai que dizia: _ De pobre, basta só nós! Então, Eva jamais contou o que ocorrera.
Um ano depois Celso e Eva conseguem vaga na mesma faculdade, em Maringá, cidade onde ela havia dado à luz a seu filho Jorge. Por serem da mesma cidade, e sem conhecerem os demais colegas, voltam a conversar.
Eva está mais amadurecida e meses depois estão namorando novamente.
Quando ambos se formam, ela em Letras e ele em Ciências Contábeis, retornam a sua cidade.
Eva passa a lecionar Português no curso ginasial e Celso abre um escritório de Contabilidade.
Giovane, pai de Eva, é informado por Marilda da infertilidade de Celso, esta fazia empenho em acabar com o namoro de ambos, pois sempre fora apaixonada por ele, e alimentava esperanças de que um dia se casaria com Celso.
Giovane tenta de todas as maneiras terminar com o namoro, ele quer ter mais netos e Beatriz sua outra filha não consegue engravidar, sua esperança é que Eva se case e seus sonhos se realizem.
Mas, não tem nenhum argumento para impedir que namore o rapaz, ele é de boa família, e com boa cultura, assim tempos depois eles se casam.   
Eva sempre que podia ia rever o seu filho que lhe fora tirado dos braços e entregue para ser criado por sua irmã.
Procurava ir quando sabia que seu pai não estaria ela seguia muito magoada com a atitude dele.
Quando Eva e Celso comemoravam o primeiro aniversario das bodas, fazem uma grande festa, e reencontram Mario e sua esposa. Agora um advogado que cuidava de causas internacionais, e que não pode ficar muito tempo, assistiu apenas o inicio da festa, viajou para a França, onde ele tinha uma causa para defender.
Os moradores de toda a cidade foram à festa, a carraspana foi geral.
Chovia muito, a estrada de terra toda enlameada e na volta para fazenda Clovis, cunhado de Eva, derrapou seu carro na lama, perde a direção e cai num barranco. Giovane o italiano, sua esposa, sua filha e genro falecem.
A criança havia ficado em sua casa, pois estava febril e isso a salvou da morte certa.
Assim, Eva e Celso, passam a cuidar do menino, seus únicos parentes vivos. Ela sabendo ser ele seu filho verdadeiro e Celso sem saber de nada.
Anos depois, Mario retorna a cidade, casado, e com uma filha adolescente, havia ele revertido com a medicina mais evoluída seu problema de infertilidade.
A moça se interessa por Jorge, filho de Eva e estes iniciam um namoro.
Eva se desespera, pois quer evitar que os irmãos namorem para ela seu filho seria de Mario, logo, os jovens seriam irmãos, e luta ferrenhamente para acabar o namoro.
Meses depois, Celso já apaixonado pelo rapaz, que ele imaginava ser apenas seu sobrinho, diz à Eva:_ Se quando nos conhecemos você tivesse engravidado, nosso filho teria a mesma idade de Jorge.
E ela inocentemente arremata:             
_Mas você não é infértil?! Celso responde às gargalhadas: _Não meu amor, foi uma trica, uma marosca que fizemos, eu e Mario! E conta toda a história dos exames trocados.
Eva não resiste, chora copiosamente, seu marido não entende nada e quando ela para o choro ele pergunta:                                
¬_ Por que essas lágrimas? Eva sem nada demonstrar diz_ Casei-me com você imaginando que nunca poderia ser mãe, pois Marilda contou para todas nós que você era infértil.
Agora Eva sabia que seu marido era o pai de Jorge, seu filho. Mas teria que guardar seu segredo, mas aceita para espanto de todos o namoro do casal adolescentes.
Ironicamente Celso e Eva nunca tiveram outros filhos, realizaram vários exames, mesmo assim, Eva nunca mais engravidou.   
Jorge e Celso eram muito próximos. Eva tentava reunir coragem para revelar seu segredo ao marido, mas vendo essa grande amizade entre eles e temendo estragar a harmonia de seu lar, sempre adiava.
No entanto, bastava estar sozinha para que Eva se perdesse em suas profundas reflexões e quem a visse imaginaria que ela estava numa espécie de transe. Ela sentia-se dividida entre a alegria da família unida e a amargura de não ter o desprendimento de contar tudo para Celso.
Sofria muito, pois seu maior desejo seria ouvir Jorge chamá-la de mãe e não por Tia.
O tempo vai passando e Jorge é diplomado em Veterinária. Escolhera a profissão para cuidar da fazenda de seu falecido avô.
Casa-se com a filha de Mario e quando nasce o primeiro filho do casal, escolhe o nome de Celso para o garoto. Jorge queria prestar homenagem ao homem que amava como pai, ao carinho e amizade que havia entre eles.
Muitos anos depois Eva adoece com problemas cardíacos, talvez reflexos do segredo que abafara no peito por toda sua vida.

Por algum tempo é tratada em casa, mas sua saúde piora e é internada. O médico pede para os amigos e familiares esperarem o pior e reuniu a todos.
Eva já não tinha forças para falar, mas pede através de gestos, para todos saírem do quarto e deixá-la a sós com seu marido.
Com enorme esforço Eva enfia a mão dentro do avental que usava e retirou uma pulseirinha feita com esparadrapo a mesma que usou no hospital quando deu à luz a seu filho e a entrega para Celso e com uma última lágrima brotando de seus olhos falece.
Celso entende que para fazer tanto esforço, aquele último gesto devia tem um significado muito importante.
Na pulseirinha estavam escritos o nome dela e o da Maternidade onde dera à luz, e a data do parto, esta era a mesma do nascimento de Jorge.
Surgiram em seus pensamentos muitas dúvidas.
De repente ele começa a ligar os pontos das lembranças do passado. Por que Eva e sua irmã estiveram afastadas do convívio de todos no período da gravidez? Ele mesmo já dissera que se ela tivesse engravidado durante o namoro deles, eles teriam um filho da mesma idade. Será que meu sobrinho é na verdade meu filho?
O velório é concorrido, os alunos de Eva prestam a ela uma homenagem de despedida muito linda.
Celso calado, sentado ao lado do esquife. Vez por outra emite um suspiro de tristeza.
Ninguém nota, mas Celso tem em suas mãos a pulseirinha que lhe fora entregue por Eva em seu último gesto de vida. Quando chegam à hora das despedidas finais todos se afastam e não percebem quando Celso prepara um lindo buquê de rosas usando a pulseirinha para prender as flores, disfarçada por debaixo de uma fita de seda. Gentilmente ajeita o arranjo nas mãos frias de Eva. Abaixa-se para um último beijo e diz a ela em pensamento:
_ Meu amor, você teve um filho e guardou esse segredo por toda a sua vida, seu último gesto indica que queria libertar-se do fardo desse silêncio. Siga em paz! Quanto a mim, o que mudaria saber disso agora? Sempre tive amor genuinamente de pai em meu coração! E como um pai, não fui eu quem, com muita alegria e dedicação, vivi para nutrir, educar, orientar e apoiar seu filho, para que ele crescesse e se tornasse um homem de bem? Para mim nunca fez diferença, sempre o amei como meu próprio filho. Nada mudará leve seu segredo para a vida eterna, pois sempre senti e disse:_ PAI é aquele que cria.
Com esse pensamento, duas lágrimas brotam dos olhos de Celso indo derramarem-se sobre o rosto pálido de Eva.
O caixão é fechado em seguida, e dentro do cemitério quando a tampa deste é aberta para as derradeiras despedidas, Eva estava com um semblante calmo e feliz, e notaram essas lágrimas, mas até hoje muitas pessoas que lá estavam, juram ter sido ela quem chorou.    
Cinco anos depois do falecimento de Eva, Jorge é solicitado para doar sangue a um amigo que sofrera um acidente de carro na estrada, o medico que estava cuidando do acidentado fora quem atendeu por muitos anos Beatriz e Clovis, sabia que ambos tinham o tipo de sangue universal O negativo, logo Jorge também o teria.
Mas por prudência fazem um teste de sangue no rapaz e constatam que o dele não é o mesmo de seus supostos pais.
Impedido de doar Jorge quer saber o motivo e se intera da incompatibilidade de que Beatriz e Clovis sejam efetivamente seus verdadeiros pais.
Sem alarde, numa manhã, limpa cuidadosamente o pente que Celso usa e quando este ao levantar se penteia imediatamente Jorge recolhe os fios que saíram da cabeça dele.
Jorge como lembrança de EVA, tinha uma corrente de ouro onde muitos anos atrás Giovane seu avo, havia mandado incrustar o primeiro dentinho dela.
No dia seguinte vai a um laboratório, solicita que façam um exame de DNA comparando seu sangue com os cabelos de Celso e o dentinho.
Dias depois a confirmação. Celso era o seu pai, e Eva a sua mãe.
Ao retornar para casa, abraça Celso, chora feliz, contudo jamais contou para ele toda a verdade que descobrira, respeitando O SEGREDO DE EVA.
Na manhã seguinte vai até o cemitério onde Eva esta enterrada, ajoelha-se, chora muito, e murmura. Vim lhe visitar minha MÃE.
O dia estava totalmente nublado, mas exatamente no momento em que Jorge pronuncia a palavra Mãe, uma das nuvens se abre deixando passar um raio de sol iluminar o rosto do rapaz. Pessoas que também lá estavam vendo esta cena comentam.
_ A falecida esta agradecendo pela sua visita e por suas palavras.                        FIM
Por Tito Cancian - italianodeoderzo@hotmail.com    
                            




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