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A SAGA DE IMIGRANTES ITALIANOS
TITO CANCIAN

Resumo:
Momentos vividos pelos Italianos que moravam no Brasil por ocasião da segunda guerra mundial

A SAGA DE IMIGRANTES ITALIANOS
Nova Oderzo – 31 de dezembro de 1929
Naquela manhã uma garoa fina predominou e com ela a desídia, à tarde o sol voltou a brilhar entre as nuvens e no crepúsculo, via-se uma lua cheia, contagiando a todos com sua beleza.
Era o toque para os enamorados e casadouros darem vazão ao romantismo.•.
Ainda se ouvia a chalreada, e o som de uma catadupa próxima dali.
Dentro de algumas horas teria inicio a década de 30. A colônia italiana reunia-se para confraternizar ao final de cada ano.
Os imigrantes italianos, agora cafeicultores, vieram repletos de esperanças, deixando em seu pais, suas melhores memórias, parente e pessoas queridas.
Nessa festa havia um motivo a mais para a alegria, aquele seria o primeiro ano cujas colheitas foram feita de seus próprios cafezais.
Ate então, trabalhavam nas plantações como colonos.
As “mamas” com vestes de cetineta e cor cetrino, preparavam o molho da macarronada e da polenta.
Concertinas repassavam as tarantelas que todos sabiam dançar, e o devaneio lhes permitia uma viagem, pois as musicas traziam recordações de tempos vividos na terra natal, e que não voltariam jamais.
O local em frente a uma das casas era rodeado por mangueiras onde os pássaros gorjeavam em suas copas, o piso de brocatelo do salão fora encerado para o baile.
Havia “focaccia”, ”coteghino” “melanzana” e muitos bagres para assar.
La estava também um “sommelier” rodeado por garrafões de vinho ali empilhados.
Participaram dessa comemoração, entre muitas outras, as famílias. “Facondo Murari”, “Ulisse Tosin” e “Ènea Accioli”, que vieram da Itália no mesmo navio, trabalharam para o mesmo fazendeiro, e quando seus contratos terminaram, compraram essas terras, que fora charneca, e ainda sem um nome. Daí como forma de homenagear a cidade que os viu nascer e reviver suas lembranças de infância, em ODERZO – IT a denominaram de NOVA ODERZO.
Elas ficavam às margens do Rio Tiete, e eram demarcadas apenas por cercas de arame farpado, todos transitavam livremente entre elas, a convizinhança e amizade eram imensas e sempre que necessário, se ajudavam mutuamente, inclusive nas derriças.
Ênea Accioli, e Anna, o casal mais jovem dos imigrantes, ele com 28 anos e ela 26 anos, esperavam o primeiro filho, que conforme suas contas e da parteira da região, logo nasceria.
O café no Brasil, com a quebra da Bolsa de Nova Iorque, teve uma grande queda nos seus preços, mas a safra fora magnífica, assim os lucros seriam ótimos e o importante, apenas deles.
A festa tem inicio, e a alegria invade o ambiente, e próximo da virada do ano, portanto da nova década, “Anna” a esposa de Ênea, sente as dores do parto, e é levada para sua casa.
Exatamente as 24,01 minutos ouvem-se um vagido, nasce “GUERINO” um menino forte, saudável, com olhos castanhos e muitos cabelos.
Poderia ter sido ele, o primeiro brasileirinho nascido em 1930.
Nove anos se passaram após aquela noite, estavam eles em 1939, Guerino com nove anos, sem nada entender, vê sua família e vizinhos desditosos com uma noticia.
Tem inicio a 2ª Guerra Mundial, e a Itália participaria dela aliada aos Alemães, Japoneses e inimigos do Brasil.
Rapidamente surgem bulícios, dias depois a manchete no jornal para concutir ainda mais:
Italianos, Japoneses, e Alemães, perderiam todas as suas propriedades no Brasil, essa era a lei, e como tal deveria ser cumprida.
Os Italianos de Nova Oderzo fazem converticulo para discutir o assunto.
Nesse momento surge “Antenore” homem galgaz e com uma cicatrícula em seu rosto. É filho de Italianos de uma cidade próxima, e nascido no Brasil, casado pai de um casal de filhos.
Sugere que os envolvidos nesse problema passem suas terras para o seu nome, e ao termino da guerra, o compromisso de devolvê-las aos seus donos, que nada perderiam e ainda seguiriam cuidando delas.
Estando todos de conchavo, assim foi feito.
Quando em 1945, terminam a guerra, a alegria toma conta de todos.
Seria o momento de reaverem suas propriedades. No entanto, para espanto geral, “Antenore” se nega a fazê-lo, e com a ajuda de seus capangas, expulsa todos de suas casas.
Chega ao fim o sonho acalentado, para algumas famílias, a compra das terras agora perdidas exigiu se alimentarem por anos apenas de polenta.
Não bastasse todo esse infortúnio, Guerino viu seu pai ser agredido pelo usurpador com um cabo de enxada.
“Antenore” desta forma passa a ser o único dono das terras de Nova Oderzo
Os Italianos, ainda pensavam em alguma saída que lhes permitisse continuar em suas terras, quando Facondo Murari, ciciando arremata conciso:
_Conterrâneos, sei que estamos todos revoltados com o fato de termos sido traídos por alguém em quem acreditamos, mas, nós também burlamos o chauvinismo deste país ao aceitarmos a oferta de “Antenore” para não sermos expulsos já naquela época.
Ele mostrou-se chicaneiro usando de galezia cinco anos atrás, quando o governo iria confiscar nossas terras.
Nesse período, colhemos cinco safras, aquele que soube guardar, tem dinheiro suficiente para recomeçar a vida longe daqui.
Fomos coniventes, houve consenso, ser chibante agora, será debalde.
Faltou-nos cordura, sobrou estultícia o que nos custou o descalabro, nada de caturra, não vamos consternar, a vida segue, trilharemos a partir de amanhã novos caminhos.
Terminou assim a última reunião entre aqueles amigos.
Na manhã seguinte, com os campos ainda cobertos por rocio, partiram sem contranitência, acompanhados apenas do ranger das carroças pelo carreador que levou os retirantes para longe de suas terras.
Alguns empregados citadinos seguiam levando apenas um garavato as costas, e ao lado um umbro latindo.
Murari e Tosin seguiam para a capital, Ênea Accioli, Anna e Guerino para Campinas, cidade distante dali 50 quilômetros.
Ao dilúculo do crástino, “Antenore” o caborteiro, celerado, já instalado na casa que pertencia a Ulisse Tozin, levanta-se com a escuridão da noite para visitar o chão que serviu de tumba para seu pai.
Lá chegando, inicia uma reflexão e imagina estar conversando com ele.
_Pai, sei que não aprovaria minha atitude, mas com sua morte, fiquei refletindo sobre a sua vida.
Acompanhei seus esforços para dar a nossa família o seu melhor, e apenas conseguiu colocar comida na mesa.
Mamãe morreu por falta de atendimento médico.
Fui à escola somente um ano, já que tinha que ajudá-lo na lida.
Esse chão em que o enterramos, foi dado pelo dono dessas terras.
Lembro-me de ouvi-lo dizer para termos confiança na justiça divina, mas onde estava ela, quando mamãe morreu? E quando passamos fome? Ou ainda quando não pude ir à escola?
Eu estava resignado com minha sorte, mas pensando sobre a atitude de nossos governantes, conclui que em nada era diferente do que fiz.
A causa dessa guerra foi exatamente a invasão de outros países.
Quem invadiu, não o fez para livrá-los de opressores, mas sim para ampliar seu território e dominar o mundo.
Sempre foi e será assim. Estou certo que os oprimidos nessa guerra, serão os tiranos na próxima.
Imaginando ter prestado contas a quem deveria, ele volta para sua casa.
O primeiro ano não foi fácil para “Antenore”.
Além do desazo, sua maior dificuldade foi com a mão de obra.
Os lavradores que ficaram na região, sabiam da historia daquelas terras, e se recusavam trabalhar para o novo dono, e muitos se mudaram da cidade, obrigando o usurpador contratar pessoas totalmente desqualificadas.
Para puni-lo ainda mais, sua esposa que nunca concordara com o roubo das terras, terminou por abandoná-lo, e deixou para trás os dois filhos do casal, e por absoluta falta de condições financeiras, foge para São Paulo, emprega-se como acompanhante de um casal de idosos e dessa forma também tem onde morar. Contudo, tísica, falece dois anos depois.
Cinco anos após, e apenas vendo seus empregados trabalharem, pois nada entendia de lavoura de café, começou imaginar novas falcatruas, e acaba sendo vitima de uma delas.
Carmela, sua filha sonsa e Orosimbo, seu braço direito chibante Imaginam e aplicam o golpe do falso sequestro, mesmo sem nada saber, Antenore envia uma enorme mala, e, no lugar do dinheiro para resgate, um cacho de bananas.
A filha desiludida com o fracasso do plano, e com o desarrimo demonstrado pelo pai, vai embora da cidade e nunca mais foi vista. Seu capanga, porem, seguiu servindo o patrão já que ninguém suspeitou dele.
Accioli instala-se em Campinas, em casa confortável, mas alugada, receava perder tudo novamente. Monta uma transportadora com dois caminhões usados, uma ousadia, já que não possuía experiências com esses veículos.
Contrata como motoristas dois moradores da cidade, enquanto aprendia sobre sua nova atividade, e providenciava habilitação para dirigir.
Ulisse Tosin, o mais chafalhão dos Italianos expulsos de suas terras, já na caravana de retirada, demonstrava ser o mais cenhoso e revoltado. Jurava vingança e garantia para si mesmo que um dia retornaria, mas naquela adversidade, a preocupação era sobreviver em uma cidade grande, onde, não conhecia ninguém.
Para sua sorte, São Paulo era na época conhecida como “A cidade que mais cresce no mundo” e clamava por mão de obra em todas as áreas.
Foi morar no bairro do Braz, local predominantemente habitado por Italianos, e através de um deles, consegue ter um estipêndio como cobrador de bondes.
Ulisse seguia sofrendo muito, lembrava-se sempre que sua fazenda era a maior de “Nova Oderzo” e que ele era o mais bem sucedido.
Estava depauperado, pois durante a guerra construiu um “BUNKER” enorme ao lado de sua casa na fazenda, sendo esse abrigo subterrâneo escavado a 8 metros do nível do solo.
Era completo e ele o construiu por temer ataques aéreos caso o conflito mundial chegasse ao Brasil, mas lhe custou muito dinheiro, e que agora lhe fazia falta.
Tosin, jamais comentou essa construção com ninguém, apenas sua família sabia da existência do “BUNKER”.
Facondo Murari abre em São Paulo, uma casa de massas.
Rapidamente tornou-se um enorme sucesso, e este passa ser o restaurante mais frequentado pela colônia, e por paulistanos de todas as classes sociais.
1954 – Na capital do estado fora comemorado o 4º centenário de fundação da cidade, e uma noticia do jornal choca os leitores.
Encontraram uma moça morta, dentro de um saco com pedras em uma lagoa.
Guerino, filho de Accioli, agora com 23 anos reconhece a vitima por foto, ela era até dias antes sua colega de escola.
Lê nos jornais que ela era namorada do filho de “Antenore” e desconfia ser ele o autor do crime.
Mas seu álibi é forte. Quando interrogado na policia, diz que a vitima estava grávida dele, e que não seria capaz de tal ato. Guerino estranha, pois não havia essa prenhes, e averiguando, descobre que sua colega era gêmea idêntica da falecida, e resolve procurá-la.
Ao encontrar sua colega de escola, a quem ele confundira com a vitima, surpreende-se com suas afirmativas: O objetivo de sua irmã era de engravidar e ter um herdeiro para as terras de Nova Oderzo, e que Antenore Filho ao descobrir ser essa sua intenção, e que não havia amor da parte dela, resolveu matá-la.
Durante novos depoimentos, Guerino, leva sua ex-colega até a sala onde estes ocorrem, Antenore Filho, ao vê-la sem saber que aquela era a irmã de sua namorada, desatinado grita: Sai assombração, eu a coloquei dentro de um saco, como esta aqui agora?
Era o que faltava, uma confissão.
O rapaz sai dali preso.
Intimamente Guerino sente-se recompensado, e pensa: Seu pai haverá de sofrer por isso.


“Antenore”, por cupidez, quer comprar as terras de seu vizinho, e diante da recusa do proprietário em vendê-las, decide comburir suas plantações.
Imagina ele que assim obterá sucesso em seu intento.
“Jagunços” chefiados por “Orozimbo” espalham pelos cafezais da fazenda pretendida por Antenore, materiais inflamáveis e combustíveis, iniciando assim um incêndio nelas.
A conflagração é imediata e sem controle, foi nesse momento que o vento muda de direção e sem rumo destroem também os cafezais de todas as fazendas ao redor, inclusive as de “Antenore” incluindo sua moradia.
“Orozimbo” é combusto com gravidade e perde a visão, seu patrão nada faz para ajudá-lo.
O facínora possuía seguro de todos os seus bens, imaginava ele que ao recebê-los ainda teria lucros, já que seus cafezais estavam infestados por pragas, replantaria tudo novamente e com melhor qualidade.
Mas seu capataz sentia-se enviperado por ter sido abandonado, e resolve vingar-se.
Revela às autoridades que aquele incêndio fora criminoso, e envia a seguradora cópia da nota fiscal onde prova a compra pelo seu patrão, dos produtos utilizados para provocar a queima, e indica o local onde enterrou todas as latas por ele utilizadas.
A seguradora se nega a efetuar a indenização e passou a apurar as responsabilidades.
A policia busca pelos outros incendiários.
“Antenore” não consegue fugir da cidade, e se lembra de que embaixo de sua casa queimada havia um “BUNKER”, espera o negrume da noite, dirige-se para lá sem ser visto por ninguém.
Poderia ali se esconder em segurança por meses.   
A policia segue inutilmente em suas buscas.
Certo dia, alguém cortando caminho pelas terras incendiadas, rompe com um arado, o fio que fornecia energia para o “BUNKER”, interrompendo o bombeamento de ar e tornando impossível a abertura de suas portas. “Antenore” prevê seu fim.
Lembra-se da esposa que o deixou e morreu tísica, de seu filho preso, da tentativa do golpe da barriga daquela que seria a sua nora movida pela ambição de ser a dona de suas terras roubadas, recorda-se de sua filha que depois de seu desaparecimento ele descobriu que ela tentou extorqui-lo.
O espoliador chora contrito, acaba conhecendo a Justiça Divina. Sabe estar enterrado vivo e sem oxigênio seus últimos dias de vida serão inevitáveis.
“Antenore” já combalido escreve varias cartas.
Meses depois, quando todos já haviam desistido das buscas, Tozim a passeio por Nova Oderzo, vai rever sua antiga propriedade, e ver o que dela restou, e de seu “BUNKER”.
Ao encontrar a porta deste fechada, chama a policia, e esta encontra o corpo totalmente decomposto de “Antenore”.
Seus restos mortais e tudo o que mais havia por lá foram recolhidos para averiguação.
“““ “““ Dias depois, o delegado convoca os antigos donos daquelas terras para informá-los que “Antenore” deixou varias cartas testamento, doando suas terras para os seus legítimos donos, e um pedido aos seus filhos:” Respeitem meu ultimo desejo” não contestem minha decisão.
Com isto acreditava o delegado que em poucos dias as terras voltariam ser deles.
Esta previsão se confirmou cinco anos depois.
FIM

Por Tito Cancian - italianodeoderzo@hotmail.com

    

     



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