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Montanha-russa sentimental
(Decifrando A serpente no CCBB)
Roberto Queiroz

Toda vez que estreia no Rio uma nova montagem de alguma peça do dramaturgo Nelson Rodrigues (vulgarmente conhecido como anjo pornográfico) eu corro para o teatro, para ver do que se trata. Acompanho a obra de Nelson - que é visto, quase de forma unânime pela nossa classe teatral, como nosso maior autor no segmento - há bastante tempo e pode dizer que já vi de tudo um pouco neste setor. Desde blasfêmias visíveis à obra do dramaturgo até pequenas obras-primas dignas de nota.

Pois bem: digo com folga que fui ao Centro Cultural Banco do Brasil esta semana assistir a montagem do diretor Eric Lenate para A serpente, última peça de Nelson, e a coloco entre as montagens que vi do autor até hoje que mais me surpreenderam.

Falar de Nelson no teatro é sempre ardiloso e complexo (o próprio autor chegara a dizer em uma de suas entrevistas que diretor para montá-lo precisava "ser burro", porque os inteligentes, metidos a intelectuais não entendiam nada do que ele escrevia e só faziam merda). Seguindo esse raciocínio irônico e direto, acho que o autor, se vivo, gostaria de assistir a montagem de Lenate, que não se deixou abater pela complexidade do tema proposto e soube esmiuçá-lo de forma inteligente e sem apelar a mentalidade tacanha e ultrapassada dos dias de hoje.

A serpente conta a história de Lígia (Carolina Lopez) que vive o drama da separação de seu marido, Décio, a quem ama mais do que tudo e, no entanto, não vê reciprocidade da parte de seu cônjuge. Ele alega impotência, mas nunca se sente frustrado sexualmente quando está na cama com a amante (que é a própria empregada da casa). Resultado: da incompatibilidade de gênios, vem o desejo dele de que cada um viva a sua vida em paz.

Da parte de Lígia, entretanto, o que ela sente mesmo é inveja do relacionamento da irmã, Guida (Fernanda Heras) com o cunhado, Paulo. Chega a confessar para ela que nunca vira um amor tão sólido como o de ambos. Guida, pesarosa com toda a situação e vendo na irmã sua cara-metade, decide emprestar o marido à Lígia por uma noite. Para que ela se sinta desejada novamente.

É nesse momento que começa a grande catarse rodriguiana e o caos familiar se instaura. Lígia apaixona-se por Paulo e vice-versa. Porém Guida sempre acreditou que seu casamento fosse para sempre e percebe com nitidez o desinteresse do marido. Décio regressa e sente a diferença de clima na casa. Pronto. Está criado o cenário perfeito para que a tragédia - tema caro ao autor - se principie.

Observação: tudo isso se passa num cenário especificamente criado para gerar uma atmosfera emocional claustrofóbica. A decisão do diretor em colocar a cama do casal dentro de uma cela prisional é acertada. Digo mais: necessária. Quem conhece o universo do autor por trás de obras-primas como O beijo no asfalto, A falecida, Vestido de noiva e outros sucessos de público, sabe bem que Nelson adora provocar e ao mesmo tempo causar desconforto em seu público.

O demagogos de plantão e haters de internet (classe que vem fazendo a devassa na cultura nacional) de cara dirão: "trata-se de uma peça machista, misógina, que trata a mulher com desprezo, como reles objeto, e expõe o machismo em sua forma mais crua". Porém, esquecem eles, que Nelson Rodrigues faz isso de propósito. Sua intenção, quando expõe as relações amorosas a nu, é desmascarar a hipocrisia social naquilo que ela tem de mais latente. E nesse sentido o diretor exibe todo o questionamento moral por trás da decisão de Guida sem apelar para extravagâncias e exageros (como anda na moda atualmente no teatro brasileiro, repleto de personalidades e atores excessivos em suas intenções).

A serpente pode até ser rotulado como objeto menor dentro da vasta obra do polêmico (e extremamente relevante, até hoje!) dramaturgo. Contudo, graças a uma montagem inteligente, minimalista (fiquei encantado com a iluminação do espetáculo, que sempre é um ponto decisivo para que eu "compre" ou não a montagem) e correta, mas sem perder a ousadia que é peculiar no autor, consegue me fazer refletir sobre esses tempos atuais de muita libertinagem (confundida ad nauseam com liberdade) e conservadores de meia-tigela querendo botar ordem na casa num país que sempre teve a pecha de desgovernado.

Procurem. O espetáculo fica em cartaz até o fim do mês.


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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