Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Zumbi, mais que ação, um ideal
Caliel Alves dos Santos

Resumo:
De personagem histórico a protagonista de shonen de lutas.

Antes de tratar do quadrinho que eu li, o Zumbi em ação do Fernando Gomes, é necessário que eu faça uma pequena introdução. Zumbi dos Palmares é o personagem histórico mais comentado do país ultimamente. Não digo isso apenas por estarmos no Novembro Negro — utilizado pela publicidade a exaustão —, mas sim pelos debates históricos acerca desse homem.
     Para os pensadores... quero dizer, pseudointelectuais da extrema-direita, Zumbi, o mesmo que libertava negros da escravidão, possuía ele próprio escravos!? Nada disso tem o mínimo de fundamento historiográfico. Nenhuma fonte até hoje fez esse tipo de comprovação. Se houve negros e pardos que possuíram escravos, ou Estados africanos que se serviram do escravismo, isso não deve ser usado para legitimar o racismo atual.
     As ilações e especulações esvaziadas de historicidade, ou melhor, contexto histórico, distanciam esse homem negro do seu tempo e do espaço. Mas porque tornar logo Zumbi o vilão do regime escravocrata? Simples, para produzir misologia, pulverizar ignorância, legitimar o racismo produzindo a falsa ideia de que aquele que libertou seus iguais era um oportunista.     
     Quando li o mangá do Fernando Gomes, assim o chamo devido sua estrutura narrativa, vi a oportunidade das pessoas se interessarem um pouco por essa história tão maculada por ideologias vãs. O quadrinho toma algumas liberdades poéticas, algo plausível, visto que o autor produziu uma ficção com elementos históricos, e não apresentou uma tese de Doutorado em História do Brasil Colônia.
     Em Zumbi em ação, o nosso protagonista nasce em 1655 no Quilombo de Palmares, atual Alagoas. O filho de Dona Sabina cresceu um garoto levado, e ainda criança, acabou sendo capturado por um soldado após Zumbi jogar frutas nele. Há meio caminho ele acaba sendo resgatado por um tal Capitão Francisco. Se tornando seu tutor, o militar o leva para uma igreja em Porto Calvo, sendo batizado e educado lá.
     Depois de anos treinando esgrima com Francisco, Zumbi, agora bem mais velho, se junta ao seu mestre Capitão Francisco e luta contra bandoleiros pelas vilas e arraiais. Depois disso a história segue um ritmo mais rápido. Nos parece que o autor queria lançar algum panorama da vida desse herói nacional. A obra em one-shot se desenvolve como um longo flashback pelas mais de 30 páginas.
     A obra colorida ressaltou os grupos étnicos-raciais em conflito, bem como os mestiços. O desenho tem cara influência de mangá, mais pela sua estrutura narrativa do que pelos traços. De maneira resumida, a história traça a ascensão e queda de Zumbi como líder do Quilombo de Palmares. E mais que o traço em desenvolvimento, o que mais me incomodou foi o papel que Zumbi adquiriu na obra.
     Zumbi, embora protagonista, é um personagem mais passivo. Não estou cobrando fidelidade histórica do autor, talvez ele meso não tenha se aprofundado muito na história desse líder negro, mas, o Capitão Francisco como “sensei” de Zumbi ficou pouco crível e acabou atrelando a luta do personagem principal a motivações banais, infundadas até. Não achei crível. Não foi tão estimulante quanto sua luta pela liberdade.
     Ao longo da história o foco muda, mas o quadrinho é tão curto que isso acaba despercebido. O autor lançou outras obras, e Zumbi e Palmares são revisitados mais uma vez. O designer dos personagens é bacana, e mesmo adultos, nos remetem ao shonen de lutas. As lutas, mesmo não sendo o foco, são mal coreografadas e não dão o impacto necessário.
     Apesar dos impasses da obra, se você gostaria de ver Zumbi dos Palmares numa roupagem moderna e fantástica, adquira o seu exemplar. Talvez o maior destaque dessa obra seja despertar a curiosidade do leitor para acompanhar a trajetória desse homem que tanto contribuiu para a liberdade de homens e mulheres negras oprimidos pelo regime escravocrata português e brasileiro.
     Para adquiri o seu exemplar, acesse aqui:

     https://indieart.shop/p/zumbi/


Biografia:
Caliel Alves nasceu em Araçás/BA. Desde jovem se aventurou no mundo dos quadrinhos e mangás. Adora animes e coleciona quadrinhos nacionais de autores independentes. Começou escrevendo poemas e crônicas no Ensino Médio. Já escreveu contos, noveletas, resenhas e artigos publicados em plataformas na internet e em algumas revistas literárias. Desde 2019 vem participando de várias antologias como Leyendas mexicanas (Dark Books) e Insólito (Cavalo Café). Publicou o livro de poemas Poesias crocantes em e-book na Amazon.
Número de vezes que este texto foi lido: 52985


Outros títulos do mesmo autor

Resenhas Rosas cor de sangue Caliel Alves dos Santos
Resenhas A arma faz o bom soldado Caliel Alves dos Santos
Resenhas No inferno? Queime! Caliel Alves dos Santos
Ensaios Naruto e a pedagogia do oprimido Caliel Alves dos Santos
Resenhas Arte perfeita e destrutiva Caliel Alves dos Santos
Resenhas Era uma vez na Segunda Guerra Mundial Caliel Alves dos Santos
Resenhas Desçamos todos a cova Caliel Alves dos Santos
Resenhas No espaço sem fronteiras Caliel Alves dos Santos
Resenhas À espreita do insólito Caliel Alves dos Santos
Resenhas Guardando na memória para depois me alembrar Caliel Alves dos Santos

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última

Publicações de número 11 até 20 de um total de 139.


escrita@komedi.com.br © 2024
 
  Textos mais lidos
Coisas - Rogério Freitas 54631 Visitas
1 centavo - Roni Fernandes 54563 Visitas
frase 935 - Anderson C. D. de Oliveira 54555 Visitas
Ano Novo com energias renovadas - Isnar Amaral 54354 Visitas
NÃO FIQUE - Gabriel Groke 54300 Visitas
Na caminhada do amor e da caridade - Rosângela Barbosa de Souza 54284 Visitas
saudades de chorar - Rônaldy Lemos 54254 Visitas
PARA ONDE FORAM OS ESPÍRITOS DOS DINOSSAUROS? - Henrique Pompilio de Araujo 54183 Visitas
Jazz (ou Música e Tomates) - Sérgio Vale 54045 Visitas
Depressivo - PauloRockCesar 54006 Visitas

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última