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Conta Que Estou Ouvindo
J. Miguel

Conta Que Estou Ouvindo
- Aqui é o Bispo Moreira, você está no ar, com o programa “Conta Que Estou Ouvindo”!
- Alô, Bispo? Meu nome é Maria dos Prazeres.
- Sim, Maria... Conta que estou ouvindo, irmã. Diga o seu problema.
- Bispo. Eu estou com problemas com o meu pastor...
- Sim, irmã... qual o problema?
- Eu tenho vergonha de falar... – a mulher soluça, parece prestes a chorar.
- Pode falar, irmã. Deus sabe de tudo. Se você não tiver vergonha dEle, Ele também não terá de você...
- Tá bem, Bispo. Sabe, quando eu estou sozinha, o pastor chega perto, começa a esfregar a minha perna, depois ele começa a fazer carinho na minha perna. Eu finjo que não estou percebendo...
- Irmã, desculpe perguntar, mas onde isso acontece? Na sua igreja?
- Não, Bispo. Na minha casa.
- O seu pastor vai na sua casa?
- Ele mora nos fundos...
- Sim, prossiga!
- Então, ele fica lá fazendo carinho na minha perna. O senhor sabe, não é? Poxa! EU sou gente...
- Claro, irmã. Pode contar...
- Pois então, de repente, parece que uma coisa se apossa de mim, aí eu não consigo me conter.
- A senhora é solteira irmã?
- Não, Bispo. Sou casada. Isso só acontece durante o dia, quando meu marido está trabalhando.
- O pastor vai na sua casa enquanto seu marido está fora?
- Vai, Bispo.
A voz do Bispo parece carregada de ódio.
- Prossiga irmã.
- Então, o pastor começa a lamber a minha perna, meu joelho...
- Lamber, irmã?
- É Bispo.
- E depois?
- Aí, Bispo, como eu disse, eu levo ele para o meu quarto. E a gente faz... o senhor sabe, não é?
- Irmã, que terrível.
- Estou vivendo em pecado, Bispo?
- Claro, irmã. Mas pior ainda está esse pastor. Me diga, irmã, como é o nome dele?
- Totó.
- ???

Estamos novamente no ar, aguardando seu telefonema. Aqui é o Bispo Moreira com o programa “Conta Que Estou Ouvindo”. Alô?
Voz em falsete:
- Alô!
- Qual o seu nome, meu amigo, minha amiga?
- Priscila.
- Priscila é o seu nome de registro?
- Não, é José.
- Irmão! Se você nasceu homem, é essa a vontade de Deus. Não fique chateado, mas vou chamá-lo de José, está bem?
- Eu preferia Priscila, mas se o senhor insiste...
- Insisto, meu irmão, insisto. Conta que estou ouvindo, José.
- Pois é isso, Bispo. Eu só to ligando porque a minha amiga, Cristina... ela é assim como eu, mas eu não sei o verdadeiro nome dela...
- Não tem problema, José, vamos chamar de AMIGO, está bem?
- Ta bom, Bispo. Sabe, meu AMIGO caiu doente e ficou mooorta de preocupação, pensando que era... que era... a MALDITA, o senhor sabe?
- Aids?
- Cruzes! Te esconjuro, pé de pato, mangalô três vezes...
- Fique calmo, meu irmão. Aqui, na rádio de Deus, só a Palavra dEle tem força.
- Então, “seu” Bispo. O meu amigo ficou doente e pensou logo que fosse...
- Aids.
- Isso. Aí ele foi fazer aqueles exames todos...
- Já sei: deu positivo e ele mandou que você me ligasse, pedindo uma oração por ele...
- Não Bispo. Deu negativo e ele pediu que ligasse para tranqüilizar o senhor. É a Cristina, que faz ponto na...
CLIC!
Entram os comerciais da rádio.
- Bem irmãos. Estamos de volta com a nossa programação, aqui é o Bispo Moreira, com o programa “Conta Que Estou Ouvindo”. Alô?
- Que porra de ligação foi aquela?
- Errr... quem está falando?
- A Celeste, sua mulher, seu bispo de merda! Que porra de ligação foi aquela?
- Minha senhora. Modere o seu linguajar...
- Eu falo o palavrão que eu quiser, seu veado! E se você desligar essa porra, eu desapareço, levo as crianças, raspo a conta do banco e transfiro aquele dinheiro da conta do Paraguai. Vou desaparecer com seus filhos e o dinheiro! Desliga, pra você ver uma coisa...
- Errr... Dona Celeste, a senhora está muito nervosa... acalme-se...
- Pára de me chamar de dona, desgraçado!
- Celeste... em casa conversamos... estamos no ar...
- Não, filho da puta! Quero saber que porra de história é essa, daquele veado.
- Que história?
A grande verdade é que todo homem, quando flagrado, finge que não sabe do que está se falando.
- Da Cristina...
- Que Cristina?
- Que te ligou ainda há pouco, seu puto! Não finja que não sabe do que está falando...
- Celeste... estamos no ar...
- Foda-se!
- Vou desligar...
- Experimenta, corno, filho da puta! Experimenta para ver se eu não desapareço com as crianças e o dinheiro. Quer saber? Mudei de idéia. Vou deixar as crianças com você. Vou desaparecer com o dinheiro, apenas.
- Celeste... que dinheiro, minha filha?
O Bispo já está falando rangendo os dentes.
- O que você desviou durante todos esses anos. Quer saber o total? Estou com o último saldo aqui...
- Celeste, minha irmã... você não percebe que o maligno está agindo sobre você?
Enquanto fala, o Bispo anota em um bilhete para que mandem dois seguranças na sua casa, amordaçar a mulher.
- Maligno é o caralho! O único maligno que eu conheço é você, seu veado de merda!
- Irmã... contenha seu palavreado. Eu não quero desligar, mas se continuar, podem tirar o programa do ar.
- Se tirarem, você está fodido!
- Irmã...
- E tem mais. Sabe o pastor Eliseu? Somos amantes. Toda quarta-feira à noite, quando você vai para a Congregação, ele me leva para um motel.
Bispo Moreira lança um olhar fulminante para o Pastor Eliseu, que está a seu lado na rádio.
Eliseu engole em seco, passa um dedo no colarinho, como para afrouxar a gravata e sussurra:
- Ela está falando isso apenas para provocar... não é verdade...
- Eu sei que ele está aí do seu lado. Ele tem uma cicatriz no saco. Manda ele mostrar...
- Eliseu, filho da puta!
Eliseu sai correndo do estúdio.
- E tem mais! Sabe o caseiro do nosso sítio? Já dei pra ele também.
- Você é uma puta! Vagabunda, piranha...
- E você, além de corno é veado! V-E-A-D-O! Veado!
- Piranha!
Barulhos na linha telefônica. Ouve-se o aparelho caindo no chão. Ao longe, a voz da mulher:
- Socorro! Alguém chama a polícia. Estão me matando...
Alguns instantes de silêncio e entra uma outra voz feminina, nem um pouco parecida com a de Celeste:
- Amorzinho? Sou eu, a Celeste...
- Sim?
- Eu estava mesmo com o maligno no corpo. Mas, devido à oração dos fiéis da rádio, me libertei.
- Milagre!
Ao fundo ouvem-se novamente ruídos de luta.
(J. Miguel 31/ago/2006)



Biografia:
"Fazer chorar é fácil; desafio mesmo é fazer rir."
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