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A Poética do Sentir
Flora Fernweh

Tenho um compromisso recíproco com a escrita: somos eu e ela cúmplices do sentimento. Enquanto ela me permite o retorno à minha existência, sou eu o canal pela qual ela reverbera. Ouso dizer que sou a mais beneficiada nessa equação, embora a poesia nada seja sem o instrumento que a coloca no mundo, pois reflexa é a poesia, de alma em alma, no ricochete infinito que ecoa desde os tempos mais remotos, quando o homem, iniciado no raciocínio transcendente de seus costumes terrenos, passou a buscar a sua verdade.


Mas sou apenas uma transmissora daquilo que sinto, sem aversão à minha instrumentalidade, que é inerente à quem tão devotadamente escreve, ante o imperativo categórico que é a palavra. E o que é sentir senão interpretar aquilo que até então era externo? Ensimesmo-me, e o sentir ganha forma, não é mais um fenômeno alheio de mim ou reduzido à sensorialidade do corpo, mas sim um ato que vem a agregar o espírito pela elaboração pessoal daquilo que ele representa e faz nascer.


A um só tempo, escrever me aproxima de aspectos profundos daquilo que sou, e me torna distante da indiferença que povoa a mediocridade destituída de criação. Escrever é o meu norte e o meu contratempo, é meu impulso vital, é minha razão e o meu chamado. Basta a palavra e o sentimento se perfectibiliza, mas para o sentir, a palavra não basta, as letras fogem, a poesia se dissipa, e o que resta é a sensação invadindo o pensamento. Pensamos porque escrevemos, ou escrevemos porque pensamos? A resposta é simples, a escrita precede o pensamento, porque é a escrita uma forma de pensar, a primeira e a última.


O pensamento racionaliza o sentimento que passa rente à pele, bem como o sentimento que nos atravessa como flechas. Pensar é sentir, e o vício na inércia daquilo que passa pela mente é sinônimo de fatalidade. É preciso, pois, criar o que se pensa, e isso apenas se alcança com o senso empírico fundamental de uma existência plena. É preciso, sobretudo, submeter-se à intensidade que a vida exige de quem dela busca algo além, como quem persegue a morte e quase a encontra. Escrita, sentimento e pensamento, eis a tríade. Se escrever é o mais nobre e pensar é o mais cobiçado, sentir é o mais fino.


O sentimento nos individualiza, porque cada um o vive à sua maneira, embora universalizável pela poesia que dele decorre. Sentir é abrir espaço para que a escrita encontre a brecha necessária para subsistir, porque embora ela seja anterior ao pensamento, a poesia é posterior ao verbo, que no princípio, tudo era. A escrita é composta de matéria bruta lapidada pelo esmero de uma mente livre, unindo o objeto ao dom. Se sentir me torna grande, escrever me torna imensa. E se escrevo, é porque muito sinto, se tanto sinto, é porque escrevo. Sinto muito!


Biografia:
Sobre minha pessoa, pouco sei, mas posso dizer que sou aquela que na vida anda só, que faz da escrita sua amante, que desvenda as veredas mais profundas do deserto que nela existe, que transborda suas paixões do modo mais feroz, que nunca está em lugar algum, mas que jamais deixará de ser um mistério a ser desvendado pelas ventanias. 
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