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Amante e cunhado
Cláudio Thomás Bornstein



     A vida requer estratégia. O amor também. Foi isto que João pensou quando bolou o plano. Na verdade, ele não bolou plano nenhum. As coisas foram acontecendo, ao longo do tempo, de uma forma natural, como as coisas acontecem. Naturalmente.
     João era dado a um Manoel, um Francisco e um José, mas na cidadezinha onde ele morava, isto era um problema. Podia cair na boca do povo e como tinha reputação a zelar, era chefe de repartição, ia perder autoridade, e, sem autoridade, onde é que ia dar?
     Ele costumava ser cuidadoso na escolha. Só escolhia menino novo, destes que não namoram, passeiam sozinhos na praça, e, nas festas, ficam de lado, sem jeito, deslocados, encabulados. João observava atentamente, colhia informações, escutava e aguardava o momento oportuno.
     Na época de S. João, todo ano tinha festa no pátio da paróquia. O forró estava comendo solto, pares dançando juntos, apertadinhos, mantendo a boca do povo ocupada.
     Manoel estava num canto, não dançava, não puxava conversa com as meninas, tímido, desajeitado.
     “Como é Manoel, desanimado?”
     “Não, estou cansado”
     “É a coisa aqui é devagar quase parando. Cidadezinha pequena, sabe como é? Atraso de vida. Só dá forró. Voltei do Rio de Janeiro, semana passada. Lá que a farra é boa. Carnaval, boate e folia.” E tacava a falar das suas aventuras, deixando entrever, nas entrelinhas, subentendido, dito sem dizer, o que é que lhe interessava.
     O outro, que nunca tinha saído dos rincões da mata, bebia as palavras, olhos acesos, boca aberta, fogo na imaginação.
     Depois de atear o fogo, João ficou olhando o lume se espalhar. Fez uma pausa longa para estudar o efeito. “Qualquer dia te levo lá para passear, se divertir um pouco.”
     Mas Manoel era de família humilde. “Ai, quem dera, mas e a grana?”
     “Ora, isto a gente vê. Para tudo tem jeito. Posso emprestar, depois você devolve.”
     E a conversa morreu ali. João tinha dado o primeiro passo, tinha plantado a semente. Agora era esperar ela germinar.


     João tinha comprado uma casinha afastada, na beira da mata. Tinha sido um depósito de material e ferramentas, mas ele foi reformando, no capricho. Dizia que era para alugar, mas, longe de tudo, quem ia querer? Acabava ele usando, de vez em quando, para espairecer, esquecer de tudo, esfriar a cabeça. Era o que dizia.
     Morar mesmo, João morava bem no centro da cidadezinha, perto da pracinha principal. Foi na pracinha que ele voltou a encontrar Manoel. Conversaram, trocaram impressões.
     “Te falei outro dia da minha viagem. Tirei umas fotos. Você não quer ver? Está lá na minha casinha, na boca do mato. Levei para lá para ver na calma, sem pressa nem afobação.”
     E lá foram os dois. Era meia hora de caminhada. Subia a serra, descia a serra, a estrada ia dando voltas sinuosas e na sinuosidade da estrada foram se enredando, os passos se trocando, num troca-troca de passos e sinuosidades.
     Chegando na casinha, abriram a porta e entraram.
     Eu, que sou o narrador, vou ficar de fora, esperando, que é para não embaraçar as ideias e a imaginação. Senão posso perder o fio da meada e me atrapalhar.
     Vou ficar olhando a noite estrelada, porque a lua ainda não nasceu. Vejo em volta só estrelas. No céu, as estrelas de verdade. No chão, os vagalumes, estrelas caídas do céu.
     A única coisa que atrapalha o brilho da noite faiscando nas estrelas, é a luz amarelada que sai da janela da casinha. Mas logo, logo, também isto se resolve. A luz se apaga e agora é só a natureza e o seu espetáculo. Quem, no entanto, olhar bem, prestar bastante atenção, vai ver que da chaminé da casinha, começam a surgir umas fagulhas, uns pontinhos luminosos, fogo subindo pro céu.


     João e Manoel ainda se encontraram algumas vezes na casinha, mas aquilo era perigoso. Na cidadezinha tudo se sabia, tudo se acabava sabendo. Havia que botar as coisas nos eixos, ou como se diz, regularizar a situação, porque o que está regularizado, regularizado está.
     Para começo de conversa, João arrumou um emprego para Manoel. Na repartição é claro, porque ali quem mandava era ele. Assim, o contato ficava mais fácil e menos suspeito. Podia combinar os encontros, ter as conversas, sem levantar desconfianças.
     Mas, a longo prazo, era pouco. Havia que dissipar as dúvidas porque a boca do povo está sempre à cata de notícias.
     É aqui que as três irmãs de João passam a figurar: Rosa Maria a mais velha, Maria Rosa a do meio e Rosemary a mais nova. Três rosas em botão, três botões de rosa. Todas três querendo desabrochar, principalmente a mais velha que já estava mesmo em idade de casar. Muito tímidas, muito recatadas, estavam esperando o irmão apresentar rapaz ajuizado, decente e trabalhador, de preferência com emprego e carteira assinada.
     Neste sentido Manoel vinha mesmo a calhar. E, de quebra, acabavam-se as suspeitas e as insinuações. Ficava claro que com a aproximação, a amizade e o emprego novo, João estava só procurando ajudar Rosa Maria a se arrumar na vida.
     Não foi difícil convencer Manoel. Ele era flexível, versátil, pau para toda obra. O que ele queria mesmo era se arrumar na vida, sair da pobreza e da miséria que ele tinha conhecido em casa. O emprego ele tinha arrumado, mas João podia se cansar dele, e aí como é que ia ser? Agora, entrando na família, era diferente. Rosa Maria era menina bonita, prendada, caprichosa, sabia cozinhar e costurar. Com ajuda do cunhado, ele comprava uma casinha, que Rosa ia mantendo limpa e arrumada. E, de quebra, ganhava prestígio, reputação e ainda ganhava uma família respeitada na cidade. Que mais ele podia querer?
     Foi exatamente assim que as coisas aconteceram. Manoel e Rosa Maria se casaram e João foi o padrinho. Um ano depois tiveram um filho, um ano depois mais um, e teriam tido mais, se o tempo permitisse, e se a casa em que moravam tivesse mais espaço, mas João tinha teimado em colocar limites.
     Os encontros de João e Manoel na casinha na boca do mato tinham rareado, mas, em compensação, volta e meia, eles faziam uma viagem. A viagem era grande e demorada. João já não era mais garoto e queria a ajuda e a companhia do cunhado para carregar as malas, e resolver os problemas que iam aparecendo. Era o que dizia.
     Rosa Maria ficava, porque havia que cuidar da casa e das crianças. Na verdade, ela até preferia, porque cidade grande, terra distante, gente desconhecida, barulho e confusão, não era bem o que ela gostava. Além disso, em troca dos cuidados e da dedicação, ganhava uma mala recheada de presentes.
     O arranjo teria durado a vida toda se Manoel não tivesse se cansado. Um certo dia, depois de uma viagem daquelas, longa e demorada, tinha chegado para João, no maior respeito e consideração, que era para não magoar, não ferir, porque ele queria a amizade do cunhado, lhe queria bem, lhe tinha carinho e afeição.
     Manoel tinha falado com cuidado, porque ali, tratava-se de sentimento e toda cautela era pouca. Mas ele, Manoel, precisava arrumar a vida, acertar o rumo, aprumar o juízo. Aquelas viagens longas e constantes perturbavam o ritmo e a vida do casal, e apontando para a barriga disse que já não era mais garoto.
     João compreendeu e, além disso, que mais lhe restava se não compreender? Havia que se conformar, partir para outra.


     É aqui que Francisco e Maria Rosa entram na minha história. Ou melhor, é assim que a minha história continuaria. Eu só não conto porque é mais ou menos semelhante, e eu tenho o maior respeito pelo tempo e pela paciência do leitor.
     Depois do Francisco e da Maria Rosa tem ainda o José e a Rosemary. Mas, e depois? Afinal, João só tinha três irmãs e todo estoque de planos e estratégias é finito.
     Mas, como eu já disse, aqui não se trata de plano. Aqui se trata de coisas acontecendo, naturalmente.
     Naturalmente pode ter acontecido que João, ele também, se cansasse da vida de viajante errante. Pode ter resolvido sossegar. Pode ter construído um caramanchão na casinha da boca do mato e hoje planta orquídeas.
     Para aqueles que preferem final mais trágico e menos natural, existe sempre a possibilidade do plano não ter dado certo. Em certo momento, Maria Rosa ou Rosemary desconfiaram das viagens prolongadas, e resolveram acabar com a farra.
     Só como observação, e visando defender a versão do happy end, devo dizer que a probabilidade disto ter acontecido é pequena, porque ali todo mundo só tinha a ganhar, mantendo o silêncio e a discrição.
     A terceira e última possibilidade é a que mais me atrai e é por isto que eu a deixei por último. Vai ver que José não se cansou, vai ver que ele não criou nem barriga, nem juízo. Nem precisou arrumar a vida porque a vida dele já estava arrumada. Ele continua por aí, viajando com o João por este Brasil a fora.


Biografia:
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