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O sentido da história como significado e direcionamento
Caliel Alves dos Santos

Resumo:
O artigo trata das filosofias da História e suas inter-relações.

A Filosofia da História se desenvolveu como um saber paralelo à própria História. Essa última se propôs a registrar e/ou interpretar, já aquela, ficou com o encargo de lhe atribuir um sentido.
     A pergunta básica feita pelos seus pensadores, tentou dar conta de responder: “o que seria a história?”; e por fim, estabelecer as leis do processo histórico, ou seja, seu direcionamento. Isso fez da disciplina algo nomotético e teleológico.
     No calor das primeiras eras das civilizações, quando as sociedades memorialistas ainda viviam no tempo da natureza, as diferentes temporalidades eram menos perceptíveis. Vivia-se o ciclo, a sincronicidade e a repetição.
     Foi só a partir da invenção da escrita que o passado, o presente e o futuro ganharam uma definição mais nítida. Um grande golpe para a memória, um pequeno passo para a História. O círculo virou uma linha reta. Surgiu assim o tempo diacrônico, permeado de causalidade.
     Vários foram os pensadores que viram no processo histórico a matéria-prima de suas reflexões. Para Nicolau Maquiavel (1469-1527), a história tinha um caráter pedagógico, mesmo que pragmático e elitista. Serviria a educação dos governantes (MAQUIAVEL, 2015). No livro O príncipe, ele não estabelece um direcionamento há nível das temporalidades ou um significado stricto sensu, mas a partir do momento em que ele traz uma aplicação prática, esse se torna o seu sentido.
     O filósofo francês René Descartes (1596-1650) será menos solícito a História, assim como um dia também foi Aristóteles. Para Cartesius, o estudo do processo histórico nos furtaria o direito de viver e compreender o presente (DESCARTES, 2013). Algo que para ele seria anticientífico. A História só seria reabilitada com sua nêmese napolitana.
     Giambattista Vico (1668-1744) a coloca no patamar de ciência. Para ele, os processos históricos se davam em ciclos tripartites que, se tornavam uma grande espiral, se expandindo, crescendo exponencialmente, baseado em ascensão e declínio da racionalidade.
     Veio o Iluminismo. A História deixou a periferia das academias e se tornou uma das suas principais discussões. Sua última cria, Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), declinou de tudo que não viesse do crivo da razão. Mas sua maior contribuição veio da dialética, a diacronia nascida do conflito e da negação dos opostos, embora esse processo se desse de modo restrito ao campo das ideias. O processo histórico se tornou o fato a ser estudado, em detrimento dos eventos, instituições e estruturas.
     Foi necessário Karl Marx (1818-1883) pôr a dialética na posição correta e vermos a história acontecendo pelas lentes do materialismo histórico. Assumindo essa perspectiva, talvez nos tornemos marxistas involuntários. Foi a obra marxiana a primeira a fazer o convite “você quer ser expectador da história ou aquele que irá transformá-la?”. Foi Marx a trazer o conflito de classes a cena do processo histórico, atribuiu sua responsabilidade de transformação aos seres humanos e tornou possível sonhar com novas perspectivas para a humanidade (MARX, 2000).
     Seu contemporâneo e hermético filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), retomava a percepção de uma circularidade na história. O ocasionalismo ornou o processo histórico de um semblante dadaísta. Nem o Espírito de Hegel, nem a luta de classes, a história humana era regida pelo acaso, e nos restava apenas fazer a genealogia das representações que os humanos fizeram de si mesmos e da realidade.
     Só no início do século XX um pensador marxista reabilitaria o materialismo histórico e a luta de classes no discorrer das temporalidades. Diferente das obras marxianas, Walter Benjamin (1892-1940) não via a humanidade marchando para um futuro promissor, a história estava mais para uma catástrofe consuetudinária. Comemorar o “progresso” era o mesmo que legitimar a posição das classes dominantes. Nem por isso a História e o historiador deveriam ser neutros, era preciso dar voz e vez aos excluídos do processo histórico (BENJAMIN, 1987).
     Historicizando as filosofias da História, é possível entender qual definição os seres humanos deram ao processo histórico e que direção ele toma. Esse saber não deve ser tomado como algo menor pelo historiador de ofício. Entender suas diferentes formulações nos dará maior dimensão historiográfica.



Referências

BENJAMIN, Walter. Teses sobre o conceito de História. In: Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
DESCARTES, René. O discurso do método. Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia): 2015.
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Nélson Jahr Garcia: 2000.



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PPGH - UFG. O tempo circular no Zaratustra de Nietzsche - Roberto Machado. Palestrante: Prof. Dr. Roberto Machado. < https://www.youtube.com/watch?v=-jMOcyjjc9o >. Acesso em: 14 dez. 2020.
Prazer, Karnal – Canal Oficial de Leandro Karnal. Nietzsche: por onde começar? | Scarlett Marton e Leandro Karnal. Apresentação: professora Scarlett Marton, professora titular de História da Filosofia Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), Mediação: Prof. Dr. Leandro Karnal. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=jbu_4pi0AWI >. Acesso em 14 dez. 2020.
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Biografia:
Caliel Alves nasceu em Araçás/BA. Desde jovem se aventurou no mundo dos quadrinhos e mangás. Adora animes e coleciona quadrinhos nacionais de autores independentes. Começou escrevendo poemas e crônicas no Ensino Médio. Já escreveu contos, noveletas, resenhas e artigos publicados em plataformas na internet e em algumas revistas literárias. Desde 2019 vem participando de várias antologias como Leyendas mexicanas (Dark Books) e Insólito (Cavalo Café). Publicou o livro de poemas Poesias crocantes em e-book na Amazon.
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