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Não, eles não são apenas manequins
(uma crônica sobre artistas de rua)
Roberto Queiroz

No programa Lazinho com você, apresentado pelo ator Lázaro Ramos, há um quadro chamado "me representa" em que o artista baiano se traveste da pessoa que lhe escreveu uma carta pedindo ajuda para resolver uma pendenga ou conflito familiar. E no programa da semana que eu assisti, um artista de rua (e homossexual) pede à Lázaro que o ajude a fazer as pazes com seu pai, que nunca entendeu a sua escolha profissional. Ver o programa me fez pensar num antigo rapaz que trabalhava como estátua viva ali no Largo da Carioca, no centro da cidade. Nunca mais o vi e fico me perguntando o que foi que fizeram com ele. Será que não era do RJ e voltou para a sua terra? Será que foi agredido? (teve tanta gente nos últimos anos sendo agredida gratuitamente e pelos motivos mais levianos). Enfim... Onde foi parar aquele moço?

Artistas de rua. Eles estão por aí, por toda a cidade, defendendo sua arte, seu espaço, sua sobrevivência. E mesmo assim são discriminados da maneira mais vil, sórdida e covarde com que se pode tratar um ser humano.

Repito aqui as palavras de um colega meu, também artista: "quem foi que disse que ser artista é sinônimo de ser contratado da Rede Globo ou ator hollywoodiano? Acertou em cheio, meu caro! Temos uma visão por demais deturpada do que seja o artista ou mesmo a arte. Arte, para muitos, é confundida com divertimento, entretenimento, por vezes gratuito, vazio, alienado. Com o simples papel de fazer as pessoas gargalham ou rebolarem o esqueleto.

Infelizmente, na prática, a história e bem outra. E os artistas de rua, esses mesmos que grande parte da sociedade esnoba ou criminaliza, chama de vagabundos, todo dia, são o expoente máximo da verdadeira arte. São eles que vão ao público, que encaram o bem e o mal da profissão sem as tintas coloridas e os contratos multimilionários que a grande maioria sonha. Nem tudo na vida é status, poder, dinheiro, e quem melhor para saber disso do que os homens e mulheres que encaram as vias públicas atrás de um mínimo de atenção, tendo que enfrentar frio, chuva, calor atroz, preconceito, desconfiança e o que mais estiver disponível na hora.

Nos EUA, vá ao matrô e o você entenderá o quanto o artista de rua é valorizado. Eles estão em todos os locais. Na Calçada da Fama de hollywood eles são muito mais do que a versão B dos artistas famosos que você tanto ama. Não, meus amigos! Eles são a certeza de que essa história não morrerá. É bem verdade que com a chegada dos cosplays e da Comic-con eles perderam parte de sua relevância, mas não significa que perderam seu charme e que o público não queria mais socializar com eles. Pelo contrário...

Já aqui, neste país que ama ser subdesenvolvido (pois somente isso exlica a terrível vocação desta nação para ser perdedora, colônia ou subalterna à outras nações), o buraco é mais embaixo. Aqui, principalmente agora, tempo de fanatismos religiosos arraigados e visões políticas cafajestes, ser artista de rua é tão profissão de risco quanto ser árbitro de futebol ou policial militar. Não se reconhece uma das figuras que deveriam estar entre as mais emblemáticas do país.

Eu já me perguntei algumas vezes se me tornaria um grande artista de rua. Gosto de andar pelas vias públicas, pelos bairros, apreciar as características de cada bairro, de observar as pessoas, de tentar entender que país é este onde vivo há mais de quatro décadas...

Talvez eu não seja a pessoa ideal para exercer o ofício, talvez eu seja estressado demais e acabasse por levar tudo para o lado truculento da questão. Contudo, tenho uma admiração imensa por esses senhores e senhoras que com tão pouco conseguem parar pessoas com pressa (para ir ao trabalho, à escola, a um compromisso médico, etc) e transformar seus mundos, ali, naquele exato momento.

E tem gente que chame isso de vilania, de falta do que fazer, de vagabundagem!

Artistas de rua não são manequins expondo grifes caríssimas, não são totens nem bibelôs, do tipo que se joga fora quando ficam velhos ou empoeirados. Não, não e não. Artistas de rua são seres humanos. Cuja única diferença foi: eles decidiram encarar o combate da vida de frente. Diferentemente daqueles que preferem se esconder atrás da covardia proporcionada por suas vidas luxuosas.

Obrigado. Por existirem.


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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