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Baseado em mentiras sinceras
(o bicho-homem e o que ele fez com o mundo)
Roberto Queiroz

."Parece que foi ontem, só que não". Era o que eu costumava dizer quando mais novo toda vez que me depara com alguma mudança no mundo, qualquer que fosse ela. Mesmo uma mudança mínima, boba, quase imperceptível. Eu dizia essa mesma frase. "Parece que foi ontem, só que não". E desse tempo o que ficou foi apenas o NÃO. Escrito assim mesmo: em maiúsculas. Como um grito desesperado.

Eu me prometia, quando mais novo e já com uma bagagem literária interessante, que um dia iria entender o ser humano e suas sucessivas escolhas infelizes. Eu não conheço outra espécie animal em todo o mundo capaz de fazer tantas escolhas equivocadas! Nem mesmo o macaco (que, dizem, é nosso antecessor direto). Desisti. Parei de tentar entender o bicho-homem. Não passa de perda de tempo tentar elucidar a única espécie animal em toda a fauna capaz de ser agente da sua própria destruição e ainda por cima se orgulhar disso.

Parece mentira, mas não é. Vá lá... Talvez uma mentira sincera, daquelas que o Cazuza disse numa canção que lhe interessavam. Mas na prática, prática mesmo, o que fica é a derrota viva, inconteste. O sentimento de impotência diante da fatalidade do mundo.

Vejamos a criação, o planeta terra, o berço da civilização, ou como você quiser chamar. Outrora (e não tem tanto tempo assim) milhões foram aos estádios assistir Pelé e Garrincha nas copas de 58 e 62. O primeiro tornou-se atleta do século que acabou não faz muito tempo. O segundo, nos últimos tempos mais associado à biografia Estrela Solitária, de Ruy Castro, que narrou toda sua trajetória de dor, alcoolismo e derrotas sucessivas, já foi o mais cinematográfico de nossos jogadores, motivo de estudos por conta de suas pernas tortas e dribles precisos. Hoje? Ah meu Deus!!!! O maior ícone do futebol hoje é um reles top model português que é tão arrogante, mas tão arrogante, que às vezes me pergunto se será ele de fato um ser humano ou uma mísera máquina, sem sentimentos. E na retarguarda dela um sem número de esnobes, prepotentes, que não passam de pessoas sem noção que piamente acreditam que um jogador de futebol deve ser tratado com a mesma ênfase de um presidente da república, de um primeiro ministro ou de um santo pontífice. Loucos tempos!

Quer um outro exemplo? Migremos então para o mercado musical que já nos exportou nomes como Miles Davis, Villa-Lobos, Bethoven, Mozart, Chopin (para falar dos clássicos eu precisaria de um artigo só para eles, então interrompo momentamente por aqui...), a própria beatlemania - eu sei que muita gente detona o quarteto fabuloso britânico, mas se os caras conseguiram criar toda aquela legião, algo de grandioso devia haver ali -, a tropicália, a bossa nova, as vanguardas, a ópera de Puccini e Bizet, enfim... Como disse antes: o tema é por demais complexo. Quer dizer: era. O que é música hoje, sentão uma sucessão de ruídos, palavrões, provocações, falta de sentimento ou mesmo de solidariedade pelo próximo? Terra de bundas, invertidos, posers, tiradores de selfies e ordinary people, que buscam a fama a qualquer custo entre uma invenção bizarra e outra. E pior: ganham prêmios, são reverenciados, rotulados de celebridades. É... Celebridade não é mais a mesma coisa.

E no tema do celebritismo cabe um capítulo à parte para a tal de beleza (assunto do qual já falei por aqui tempos atrás). Mulheres cada dia mais masculinizadas ou mais anoréxicas - sim, há dois pólos extremos, minhas amigas! Podem escolher! - e homens do tipo metrossexual (que se meu pai estivesse vivo e os visse, certamente não conseguiria pronunciar a palavra ou o contexto por falta de entendimento na matéria). Ser belo ou andrógino ou diferente ou esquisito ou... Quer saber? No final das contas, parecem todas as opções uma mesma opção. Que me elucidem os que forem melhor entendidos no assunto.

Nas artes plásticas entronizamos o banal como obra-prima. As selfies são o mais próximo que se pode chamar de fotografia hoje em dia e não é preciso nenhuma especialização ou formação para se aventurar na "arte" de registrar... A si mesmo. Cinema? Sétima arte? Não. Fazer rir, rir, rir, como hienas desesperadas, enquanto pseudoatores fingem interpretar diante de tela monólogos obsoletos escritos por boçais que, no meu tempo, não seriam aprovados no Vestibular. Há uma outra versão parecida no teatro: os temíveis standup comedies, pegos de empréstimo da terra de Donald Trump, atual dono do mundo e doido para estourar uma terceira guerra mundial. Resumindo: não é preciso ser bom no que faz. Na verdade, muitos nem sabem de tato o que estão fazendo. Mas o que interessa mesmo é: eles têm fãs, geram audiência, logo são artistas.

Diminuindo um pouco a abordagem para o mundo real (eu disse real? Desculpa... Às vezes eu me empolgo), chego a questão dos relacionamentos - sociais e amorosos - e esbarro nas extraordinárias redes sociais. Eles invadiram o seu quintal, o meu, dos meus vizinhos, dos nossos professores, do meu gerente, enfim, ninguém escapou. Não há como escapar. Twitter, facebook, tumblr, instagram, whattsap... Tem de tudo. Menos conversar olho no olho, cara a cara, porque o celular, o lap top, a lan house, as tecnologias não deixam. E olha que eu nem entrei na questão do second life e dos jogos em rede, duas pragas do final do século passado que agora prometem tomar conta do cenário.

Mas não se podia esperar nada de diferente. Ou podia? O que esperar de um mundo onde a mesma empresa que produz o videogame mais famoso do planeta também produz um sistema de drones capaz de destruir uma cidade de 10, 15 mil habitantes em poucos segundos? Pois é... A guerra, outrora homem a homem, armas em punho, também virou um game no melhor estilo Counter Strike. Apocalipse, vilão que matou o Super-Homem na hoje cult história em quadrinhos que inspirou o diretor Zack Snyder em um de seus longametragens para a Warner/DC, sentiria-se certamente diminuído diante da inventidade (e da maldade) humana.

Este é, provavelmente, um dos textos mais derrotistas que escrevi em todo o tempo que produzo material para esse site. Mas também é um dos mais lúcidos. O bicho-homem - como especificado no subtítulo - está mais parasita do que nunca. E por conta dele o mundo parece viver seu últimos dias (eu disse: parece). Qualquer aquecimento global, manifestação política ou crise dos refugiados, que correm desesperados atrás de uma nova casa, uma nova nação para viver, é pinto perto do que a humanidade fez de fato com o mundo.

A questão é: ainda preferimos fingir que tudo não passa de um boato, de uma invenção ou teoria da conspiração criada por aqueles que não tem mais o que fazer. Será? Então por que você, caro leitor deste protótipo de articulista, ainda acorda de manhã? Digo: acorda mesmo.

Quando você descobrir, me acorda que eu venho aqui e destruo a publicação.


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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