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Os três pecados
GABRIEL JOSE

Andava apressado e esbaforido. Olhando para os lados e com medo. Havia acabado de roubar uma mala cheia de dinheiro. A muito que deslizava neste desvio e caia sempre neste pecado. Da última vez, que quase morreu, prometera que iria parar. Mas não adiantava, este hábito era difícil parar.

Então, com mala em punho, tomou o beco da Catalúnia e passou por entre pessoas que conversavam sobre um roubo ocorrido a pouco. Gelou. Andou apressadamente, em ritmo frenético, escapou a vista dos comentadores.

Dobrou na rua do sindicato. Lá estava uma diligência policial. Então correu apressado pela rua do Ouvidor, passou por entre transeuntes, a mala na mão, a mão que estava suada. Agora suava não apenas suas mãos, mas o corpo todo. Todo ele era nervosismo e agitação.

Passou pela ponte Senador Castanhão e rumou para o Parque dos Casados. Lá, sentado em um banco, tranquilo e já suavizado do medo, viu-se sozinho.Então veio a vontade de contemplar o seu ganho daquele dia. Abriu a mala. E imediatamente foi tomado pela surpresa e decepção. A mala estava repleta de doces. Logo compreendeu. Pensara ter roubado um empresário rico, mas na verdade, havia roubado um confeiteiro, alguém que dominava a arte de fazer doces.

No entanto, seu trabalho não tinha sido de todo inútil. Porque se ele tinha fraqueza para a iniquidade do roubo, furtos e surrupios, ele também tinha, quase na mesma intensidade daquele, um segundo pecado: era um glutão de primeira categoria.

Comia com os olhos tudo que via. Mesmo que estivesse plenamente abastecido, mesmo assim era inclinado para a gulodice extrema. Olhou aquela maleta repleta de doces. Desejou-os. E imediatamente comeu-os todos, sem deixar farelos ou pó.

Saiu do parque e voltou andando placidamente, lambendo-se com o néctar do doce que ainda estavam nos lábios. foi andando, estava ainda com a maleta, agora vazia, nas mãos. Tomou novamente a ponte e lá embaixo jazia o rio Noronha. E como quem não iria precisar mais do restolho do seu roubo, jogou a mala para as águas do rio. Porque na verdade, ele tinha mais um terrível pecado em sua conta, ele odiava a natureza.


Este texto é administrado por: GABRIEL JOSE DA SILVA CAVALCANTE
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