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A crônica de Lala
a ladra de pedras
Erinaldo Ferreira do Carmo

Cada vez que passava na margem esquerda do rio, desde o seu primeiro dia na escola, Lala apanhava um seixo no chão e o guardava em sua mochila. Dois por dia. Um na ida e outro na volta. No interior da mochila, os seixos ganhavam espaço privilegiado, dentro do estojo, ao lado das canetas, dos lápis, da borracha. Quando o estojo estava cheio e a mochila já começava a ultrapassar o peso suportável, era esvaziado para dar espaço a outras pedrinhas. Mais de 400 seixos coletados a cada ano. Calcula-se que mais de 5 mil ao longo da vida escolar da garota, segundo o relatório final da polícia investigativa.

De acordo com o laudo pericial, os primeiros fragmentos de rocha foram escolhidos por se parecerem com bolas de gude, numa forma arredondada e lisa, com marcas e pigmentos diferentes. Com o passar dos anos, os seixos maiores também foram ganhando espaço na bolsa da menina. Os seixos em tamanhos e formas diferentes passaram a ser coletados porque se pareciam com ovos, com quibes, com coisas estranhas ou mesmo com nada que possa servir de referencial. Na escola de Lala, as crianças mais populares, das famílias mais abastadas da cidade, que habitavam o outro lado do rio, brincavam com objetos comprados em lojas, cobiçados por qualquer infante, ou até mesmo adolescente. Mas Lala suprimia o seu sonho de consumo com os brinquedos retirados do rio.

Em pouco tempo, no quarto da garota já não havia mais um único espaço que não tivesse ao menos uma pedrinha trazida por ela. Gavetas e prateleiras, armários e vasos, até nos bolsos das calças a mãe sempre encontrava pedregulhos quando ia colocar roupa na máquina. Em um dia de chuva, sua mãe enfurecida com tantas pedras desnecessárias, jogou todas na rua. A ira de Lala, ao ver seus brinquedos lançados fora, foi imediatamente substituída pela felicidade em ver as pessoas caminhando em frente à sua casa sem escorregar na lama que se formava com o alagamento. Com essa descoberta a menina achou que poderia contribuir para melhorar a vida dos moradores do lugar e passou então a dar nova utilidade às pedras do rio.

Em 12 anos de escola, Lala já havia transformado o espaço na frente de sua casa em um caminho de pedras. Carros não passavam por ali, mas naquela rua estreita as pessoas já caminhavam sem molhar os pés nas poças ou escorregar na lama. Em torno das plantas, no caminho do portão até a varanda da casa, no trajeto até a rua que levava ao rio, todo o caminho estava calçado com pedrinhas. É que a vizinhança, incentivada pela menina e admirada com os seus feitos, replicou a ideia de calçar a rua, fato que logo se expandiu entre os demais moradores da comunidade.

A ação iniciada por Lala não passou despercebida. Uma mania, para os colegas; um vício, segundo a família; e um crime, de acordo com as autoridades. É que no ano em que as chuvas caíram fortes na cabeceira do rio e a represa foi aberta pelo funcionário operador das comportas, a vasão inundou as ruas ribeirinhas, desde a igreja matriz e a praça do centenário, até a escola municipal e o prédio da prefeitura. Todo o bairro do Areeiro foi atingido. E a retirada das pedras havia alterado o ambiente natural, na afirmação dos especialistas, sendo apontada como a principal causa da enchente, visto que na margem direita do rio, onde foram construídas as mansões de veraneio dos ricos da cidade e onde a prefeitura havia erguido um muro de contenção entre os casarões e o rio, permaneceu intacta à enxurrada.

O prefeito alegou, utilizando a audiência da rádio local, que a retirada indiscriminada de pedras da margem havia contribuído para o desequilíbrio da natureza, o assoreamento do rio e a consequente vasão quando do aumento no volume de água. Contratados pela prefeitura, os ambientalistas vindos de cidades vizinhas para investigar o caso corroboraram a fala do chefe do executivo municipal. A professora da infância da garota concedeu entrevista para o jornalzinho da escola informando que já havia previsto este fim e houvera, doze anos atrás, orientado a sua aluna a devolver os seixos ao local de origem, ou todos acabariam pagando um alto preço a ser cobrado pela mãe natureza. Também se defendeu argumentando que nunca foram utilizados seixos do rio em suas aulas de educação artística.

O padre da cidade comentou nos vinte sermões consecutivos ao desastre ambiental que não se pode brincar com a natureza ou alterar as coisas que Deus estabeleceu. Para ele, as pedras estavam ali por uma decisão divina. E não se deve alterar o que o Pai criou. Até o juiz do distrito se pronunciou publicamente sobre o caso e admitiu que foi preciso emitir uma liminar autorizando a abertura de processo de investigação para o desvio das pedras e a imediata prisão dos possíveis responsáveis, para não atrapalhar as investigações, nem prejudicar o rigor na apuração dos fatos.

O professor de geologia da principal universidade da cidade vizinha foi chamado para esclarecer a população dos riscos de se retirar seixos da margem esquerda do rio. Outros acadêmicos participaram de programas de entrevistas e debates na rádio e na TV para partilhar suas opiniões sobre o assunto. Um desses intelectuais lembrou Brecht, “do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Outro citou Tolstoi, “classificar um homem, como sempre fazemos, de bom ou inteligente e um outro de mau ou estúpido é um erro. Também os rios, todos de água, são umas vezes mais estreitos, outros rápidos, outros largos ou calmos, transparentes ou frios, caudalosos ou tépidos. Ora, os homens são como os rios. Cada um traz consigo a semente de todas as qualidades humanas”.

Mas esses foram até vaiados e perderam feio o debate para os que utilizaram argumentos midiatizados, ou do senso comum, ou ainda embasados nos palpites dos legalistas, que lembravam do artigo 155 do Código Penal que diz que comete furto quem “subtrair para si ou para outrem coisa alheia móvel”, com pena de até quatro anos de reclusão. Isso sem deixar de falar do argumento religioso, trazido pelo pastor da vila, que também teve sua congregação inundada, e citando Apocalipse 12:15, aos gritos alardeou que “a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar”. E assim, como uma moda, toda a população se expressava pela condenação pública da ação desmedida daquela pequena ladra.

A emissora de televisão enviou da capital uma equipe de reportagem para acompanhar o caso. A primeira notícia veiculada por esse canal, que colou todos os moradores da cidadezinha no sofá para acompanhar as notícias, anunciou que, de acordo com as autoridades locais, a ação irresponsável da garota teria contribuído significativamente para a destruição da camada de ozônio, o desmatamento da mata atlântica e de forma indireta para o aumento do desemprego no país. Em uma chamada com a manchete ladra de pedras afunda o país na lama, a repórter falou, com o zoom na câmera, que a força tarefa organizada pelo ministério público e pela polícia federal já havia iniciado a operação petrasveró, ou pedras d’água, do grego πέτρες (pedras) e νερό (água).

A operação acabaria chegando a sua 45ª fase, sempre com delações premiadas que apontavam para a responsabilidade da garota. A professora, todos os colegas de sala, os vizinhos e os nove vereadores da cidade foram ouvidos pela polícia e todos confirmaram as denúncias anteriores, sempre apontando para a menina como a chefe de uma grandiosa quadrilha. Os pescadores foram acusados de conivência, por nunca terem proibido a garota de furtar pedras abertamente. Alguns desses, em prisão preventiva, delataram a farsa dos pais de Lala, que sabiam de tudo, desde o início, e não fizeram nada para impedi-la.

As mães da comunidade passaram a proibir os filhos de andar do lado esquerdo do rio; a prefeitura levantou empréstimo e retirou verbas da educação e da saúde prometendo erguer uma ponte, facilitando para os moradores a passagem para o lado direito, onde no futuro as crianças poderiam transitar em segurança para a escola, os agricultores poderiam ir ao trabalho e as donas de casa também conseguiriam seguir nesse novo caminho construído para ir ao mercado.

Presos, os pais e amigos da garota foram alvos das mais severas investigações policiais e denunciados publicamente pela mídia. Os policiais descobriram que o pai havia colado na prova de matemática quando este estudava, por mera coincidência, na mesma escola de Lala. A mãe, em descoberta revelada pela imprensa, fora incentivadora dos crimes praticados pela filha, quando esta brincava com Lala, ainda criança, de pular amarelinha marcando o chão com seixos retirados do rio. Localizaram no celular de uma vizinha fotos antigas que comprovavam a criminalidade praticada em família.

Um garoto da comunidade, vizinho de Lala, revelou aos jornalistas de plantão que fora namorado da criminosa, e ambos eram acostumados a tomar banho pelados no rio, mas ele nunca incentivou a menina ao desvio das pedras. Logo alguns moradores descobriram que tudo era boato, uma armação do menino que sonhava com a fama e tinha inventado essa história só para aparecer nos noticiários.

Presa em sua própria casa, Lala não conseguia sair sem ser apontada pelos vizinhos como a criminosa, responsável pelo alagamento das ruas; vista pelas crianças como a única culpada pela destruição da escola; responsabilizada pelos pescadores pelo desaparecimento dos peixes; e denunciada pelos desalojados como a causadora de todo o mal que sobrevinha sobre eles.

Dois anos depois da catástrofe natural, a vida seguia normalmente nas redondezas. O prefeito fora reeleito com a renovação das promessas de que um dia levaria todos os pobres a uma condição igual à dos ricos das mansões do lado direito do rio. Esse era o maior desejo de todos os moradores do Areeiro. Mas, para isso, inicialmente a prefeitura teria que levantar mais verbas, através do aumento de impostos, para poder importar seixos que seriam recolocados ao longo do curso do rio. Também foi criada uma taxa emergencial para reforçar o muro de contenção que protege as mansões de veraneio.

O servidor que tomava conta da chave da comporta na época da inundação, agora já aposentado, foi homenageado na câmara de vereadores como herói municipal e até ganhou a ilustre medalha de Salvador dos Pobres. Lembrou que naquele fatídico dia teve que tomar a decisão mais importante de sua vida: deixar que a barragem transbordasse e alagasse toda a cidade, nas duas margens igualmente, ou abrir as comportas e salvar o centro comercial e a zona de veraneio, sacrificando apenas uma margem. Sua sábia decisão poupou o centro financeiro da cidadezinha e o seu mérito fez jus à honra ora lhe concedida simbolicamente em forma de medalha. Agora, feliz em ter honrado o seu papel de servidor público, à bem da sociedade, ele iria voltar para sua casinha humilde no Areeiro.

Reclusa em seu isolamento, Lala lembrava do mal que fizera ao mundo inteiro. Todos os dias pensava no quanto ousou em querer mudar um mundo que não quer ser mudado.


Biografia:
Professor, Cientista Político e Sociólogo e-mail: erinaldocarmo@gmail.com
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