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Contradicionalismo
Uma aula básica para viver num país sem rumo
Roberto Queiroz

Resumo:
Pequena reflexão sobre o mundo contraditório em que vivemos

Esta semana me peguei pensando em meu pai. Isso sempre acontece perto da data do seu aniversário e nos últimos anos (leia-se: depois que ele faleceu) isso tem acontecido com mais intensidade. Lembrei dando assistindo os eternos especiais de fim da ano da Rede Globo com o rei da Jovem Guarda, Roberto Carlos. Ele tinha aversão das combinações de vestuário que o lider do iê-iê-iê usava durante suas apresentações, principalmente a mistura terno com tênis. "Isso é o cúmulo da contradição. Será que ele não percebe a cafonice e a falta de estilo disso?", ele resmungava sempre.

     Parei para pensar em seus questionamentos acerca do cantor mais detalhadamente nos últimos anos e me dei conta do quanto o su discurso a princípio fora de tom, despropositado, se transformou num gênero social dentro do país.

     Viramos, meus caros leitores, gostemos ou não, reféns da contradicão nessa nação macunaímica e tupiniquim desde criancinha!

     E chegando a essa triste conclusão, saio a campo pela sempre tão amada (e odiada) internet à procura de elementos que corroborem o meu discurso até então fatalista. Portanto, vamos a eles:

     Nada é mais óbvio no Brasil dos últimos três anos do que as famigeradas "manifestações pacíficas", assim mesmo, entre aspas. Pergunto-me a todo momento, quando ouço pessoas defendendo o pacifismo do ponto de vista de quem se manifesta contra o Governo vigente (mas não somente a ele, também em outras esferas): desde quando uma pessoa que questiona um modelo governamental, que está saturada de ser feita de palhaço e vê seus direitos básicos sendo vilipendiados, será de fato um questionador pacífico? Não digo isso como defensor de guerras ou mortes em série, mas como um indivíduo perplexo diante do fato de que um grupo social ou extratos da sociedade (normalmente as mais favorecidas) considerem possível tal pacifismo. Parece-me típico da cultura dos que nada sofrem reclamar da batalha dos que pouco ou nada têm para sobreviver.

     No mesmo bojo político da questão, penso e repenso o extraordinário conceito das guerras santas, que viraram marca registrada do final do século XX para cá. Já dizia Renato Russo, líder da banda de rock Legião Urbana, em seu antológico álbum As quatro estações ao vivo, de 2004, ser a ideia em si, "uma contradição em termos". Mata-se em nome de Deus, de Alá, de Maomé ou qualquer outra entidade religiosa ou representação do criador. Os fins, neste caso, não só justificam os meios, como são os próprios meios em si. Triste sina dos alienados e fanáticos que pensam verdadeiramente serem os donos da verdade cristã da nova era, o chamado neoliberalismo.

     Não bastassem as guerras desnecessárias, os conflitos sem objetivo válido, vivemos um momento de adoração ao corpo marombado. E o maior exemplo torpe dessa mentalidade está claramente exposto nas chamadas mulheres masculinizadas (e acreditem: o Brasil vem se destacando como top de linha nesse setor). Andem pelas ruas. Prestem atenção. Perguntem-se, vocês, homens: há quanto tempo não vemos uma mulher de formas curvilíneas - no melhor estilo Sandra Bréa, Luciana Vendramini ou Carla Marins - andando pelas ruas das suas capitais? E mais: quantas mulheres de corpos exacerbados, construídos à base de esteróides, você viu somente nessa semana? (Respostas na caixa de comentários, por favor!). Saudosos tempos em que mulheres tinham traços definidos, corpos-violão e vozes afeminadas. Hoje, corruptela do mundo UFC, elas conseguem ser "mais macho que muito homem", como bem apregoou Rita Lee em um de seus maiores sucessos, Pagu.

     Os jovens merecem um capítulo à parte em toda essa discussão contraditória. Eles são capitães dessa filosofia extremista de misturar alhos com bugalhos sem o menor critério. Que o diga o mercado editorial norte-americano que produz o indecifrável gênero Young Adults (no caso, livros que se encaixam numa categora meio-termo, entre a literatura infanto-juvenil e a adulta). Quê?! Finalmente: eles são jovens ou adultos, afinal de contas? Acho que se perguntarmos nem eles mesmos sabem explicar ao certo a equação. É nesse segmento que se encaixam algumas franquias famosas da atualidade, como a série Percy Jackson, de Rick Riordan; a trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins e A culpa é das estrelas, do fenômeno iterário John Green, que os brasileiros também têm aprendido a amar. Vá entender o universo particular dessa gente!

     E para não deicar o assunto esfriar, por que não salientarmos a nova moda musical do momento em nossas terras? O genial, o magistral, o único Sertanejo universitário. Sim, meus colegas e amigos quarentões. Não leram errado, não! Sertanejo e universitário combinados. E pensar que no meu tempo de adolescente universitário que era universitário se dizia rebelde, de vanguarda, outsider, amante do rock n' roll e do inconformismo. Hoje a trilha sonora do mundo acadêmico é um discursinho meia-boca feito por donos de fazendas e vultosos patrimônios que se autointitulam "humildes até a medula", não passam de reles empreendedores (palavra essa, por sinal, que é a contradição em si mesma, se pararmos para analisá-la!). Meu Deus, por que é que eu tinha de envelhecer mesmo? Onde está a tal da sabedoria advinda com os anos?

     Para fechar em grande estilo regresso ao mundo literário, mas dessa vez num termo mais genérico, pois atende às mais distintas classes e faixas etárias. Falo da maior invenção do mercado editorial nos últimos anos: a literatura de auto-ajuda. O problema é: desde quando se auto-ajuda o leitor que lê obras escritas por megaempresários e sofistas que nada mais desejam do que encher de ainda mais dinheiro as suas já polpudas contas bancárias? Autoajudar-se, para mim, tem uma definição completamente diferente dessa dada pela mãe dos povos do século XXI, a gloriosa globalização.

     Chego ao fim de minha explanação exausto de tantos contrassensos e incoerências e com uma certeza: vivemos a era do contradicionalismo. Quanto mais confuso, inverossímil, melhor. E para aqueles que não entendem ou acompanhar o formato, só há duas opções: adequar-se ou procurar o isolamento.

     Eu sei faz tempo da minha escolha. E vocês?


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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