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Cobiça
Eduardo Antonio Damasio da Silva

A cobiça é um desastre, Sam. O horário do expediente bancário, já havia sido encerrado. O gerente da pequena agência, após ter escutado o que o suposto maçante cliente lhe dissera e olhado para o distintivo que lhe fora apresentado, se desfez pensativo. Fora uma operação rápida. O verme, senhor Luke, 40 anos, deixou o estabelecimento, algemado e ladeado por dois homens. “O pesadelo acabou, titia. Luke acaba de ser preso.” Olhando a rua, através da vidraça, completou: “Está sendo colocado na viatura, neste instante. Diga ao primo que o tormento acabou.” Tão logo a ligação se encerrou, a autora, Ava, caixa da instituição, dirigiu−se à mesa do subgerente, onde uma pequena e perplexa concentração acontecia e disse que o mundo era pequeno. “A que se refere?” Inquiriu o subgerente. “Quando, há um ano, coloquei os pés nesta agência − disse ela – resultado de uma transferência ocasional, ao bater os olhos sobre o senhor Luke, disse pra mim que era ele cópia fiel do primo. Iria comentar, porém contive-me. Dias depois, numa amistosa conversa mantida com o senhor Luke, deixara escapar que conhecia o meu saudoso bairro. Já, com a pulga atrás da orelha, fiz ouvido de mercador e, ao verificar seu prontuário, constatei que éramos conterrâneos.” “Pensava que Luke fosse natural de Gleide.” “Assim também pensava.” Reagiram espantados. O subgerente, indagou o que Luke teria praticado, pois os policiais não detalharam. Ava respondeu que havia destruído duas famílias. “Não é possível!”. No entanto, Sam, o telefone tocou, silenciaram e o subgerente atendeu. A dois mil quilômetros dali, a notícia da prisão do malfeitor de Mila corria na extensa rua do bairro de classe média. O entra-e-sai na residência de número 74 era intenso. Caleb, 40 anos, primo de Ava, era o centro de ‘cordial’ atenção. “Agora é seguir a vida, Caleb. Em nenhum momento julguei ser você um monstro.” Disse uma vizinha, acariciando-o emocionada. “Pena que Jenson, não esteja mais entre nós para presenciar este momento. Seria importante.” Pronunciou pensativo um senhor se referindo à ausência da testemunha-chave... O ex−sogro de Caleb, magoado e ferido com a vida, relutava adentrar a residência, mas, convencido por alguém, acabou cedendo. Fazia anos que ele e o ex−genro não ficavam frente a frente. Foram amigos. Houve comoção. “Eu sei que você nunca dava partida no carro, bruscamente, rapaz. Aliás, não havia naqueles dias motivo para assim proceder. Apeguei−me a isso. Volte a cuidar da vida e me perdoe pelo cego distanciamento.” Então, Sam, estando o telefone de volta à base, o subgerente informou aos subalternos indignados que a diretoria estava ciente de tudo. Aguardaram, juntamente com a polícia, a expedição de ordem judicial para que a prisão fosse realizada. Não iriam contratar advogado para defender o senhor Luke, pois o quadro estava bem definido. “Sofremos muito. – disse Ava – Eu residia com titia. Tudo acontecera há quinze anos numa tarde de quarta−feira. Mila, a namorada de meu primo, uma vistosa garota, residia na mesma rua a uns cem metros de nossa residência. Segundo o então falecido, senhor Jenson, o meu primo havia parado o carro à porta da residência de Mila e, assim que ela entrou no automóvel, partiu bruscamente. O carro de meu primo era conhecido por todos os moradores da rua. Não que houvesse nada de extravagante, mas era o carro do “bom de bola”, Caleb.” Em depoimento, o senhor Jenson, equivocadamente, afirmou que era Caleb quem estava ao volante. O meu primo se encontrava no cemitério em visita ao túmulo de titio. O guardador de automóveis confirmou mas não foi levado em consideração. O corpo de Mila fora encontrado dois dias depois, no cais, no interior de uma pequena embarcação. Havia sido violentada. Estava prestes, assim se acreditava, que o corpo seria atirado ao mar. Havia uma pedra enorme e corda no interior da embarcação. Caso a intenção tivesse sido consumada, seria o fim. Foram longos meses de angústia. Todavia, o bendito exame de DNA o inocentara e, para completar, o automóvel usado pelo anônimo fora recuperado. Não fora, portanto, o meu primo o autor da barbárie. Caleb saiu da prisão arrasado, abandonou o curso de Medicina e jamais colocou os pés na rua. Assim que passei a desconfiar do senhor Luke, relatei a história à diretoria do banco. Orientaram−me a procurar a polícia. Prepostos da Justiça e da polícia estiveram aqui. A ação foi discreta. Coletou-se do trapo, material para exame de DNA: fio de cabelo, ponta de cigarro. O resultado foi compatível com o da pessoa que a violentara e provavelmente a assassinara.” “Quem sabe se não há outros crimes nas costas.” “Quem sabe.” ... O verme do Luke, Sam, confessou tudo: o roubo do automóvel, o sequestro, o estupro e o assassinato. Contou que tinha cruzado apenas uma vez aquela rua e os filmado ... Merecidamente, Sam, terá o sol de volta aos setenta e cinco anos de idade.


Biografia:
Um apaixonado por contos que gosta de escrever pequenas histórias.
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Outros títulos do mesmo autor

Contos Superação Eduardo Antonio Damasio da Silva
Contos Cobiça Eduardo Antonio Damasio da Silva
Contos Revés de uma brincadeira Eduardo Antonio Damasio da Silva
Contos A visita da morte Eduardo Antonio Damasio da Silva


Publicações de número 1 até 4 de um total de 4.


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