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AS DUAS FACES DA VIDA
ROGÉRIO RIVELLINO SABIONI

Resumo:
Uma nova perspectiva, pode fazer toda a diferença.

... O vento soprava pela janela, deixando a sombra daquela cortina envelhecida, num tom amarelo desbotado, dançando pelo chão do quarto. A meia luz, ela deitada na cama, numa mão o frasco contendo milhões de motivos para por fim a tudo, na outra a foto da filha, que há muito abandonou, numa época onde as ilusões eram maiores que a realidade. Agora, tem consciência de que despida de qualquer certeza, não resta mais nada, a porta atrás se fechou, e então acredita que só lhe restou um caminho. Em meio ao deserto que se tornou sua cabeça, onde nada novo nasce, há centenas de anos, ela segue sedenta por alguma verdade, tudo que acreditou até hoje, não existe, todos oásis que avistava, ao se aproximar se tornavam areia, e por mais que andasse pelo deserto, sempre teve frio, um frio na alma, a certeza de que sempre esteve sozinha. Ainda sente saudades das poucas vezes que Tia Maria lhe afagou os cabelos, lembrança esta, guardada a sete chaves para que o deserto de sua alma não a descore ou transforme também em pó. Pensa, chora, afirmando a si mesma que jogou sua vida fora, quantos caminhos tortuosos a trouxeram a este quarto, este momento. Levanta-se e vai até o espelho manchado pelas infiltrações do velho prédio, fixa os olhos ao espelho e procura semelhanças com quem vê na imagem, descobre neste momento que não se reconhece, aquela menina que sonhava ser jornalista, conhecer todo o mundo passou quarenta anos num raio de 50 quilômetros. Por um instante pensa se ainda daria tempo de fazer algo, de mudar o rumo deste caminho, e sim, porque não poderia voltar atrás, afinal sempre caminhou em direção ao meio de seu deserto, nunca tentou andar em qualquer outra direção. Bastou um pensamento, para que sua alma sentisse um breve brisa no rosto, depois de anos num escaldante calor, um frescor mesmo que momentâneo, assustou-a, e arrancou bruscamente das certezas incertas. Em sua cabeça, teve a coragem de abrir uma fresta e deixou um pouco de luz entrar, então se deu conta de que sempre teve medo do "não", mas em todas as situações da vida, o "não" ela sempre teve, então porque temê-lo?
Levantou de súbito, arremessou o frasco contendo milhões de "nãos" pela janela, arrancou as cortinas e deixou o sol entrar, sentiu o calor nas faces e sua alma se aqueceu. Sentiu uma alegria, ao olhar os detalhes da foto, sentiu vontade de resgatar algo que estava perdido, voltou a sentir-se viva. Abriu a bolsa, derramou todo seu conteúdo sobre a cama, separou tudo que a prendia ao deserto, e descartou na lixeira do quarto. Voltou ao mesmo espelho, fixou o olhar, cumprimentou com prazer aquela nova pessoa, ajeitou os cabelos, encaminhou-se até a porta, respirou fundo, abriu a porta, e viveu...


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