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Quando eu era feto
perto de virar gente
já sentia o discreto
burburinho adjacente...
Mamãe cozinhava para a família
papai discutia a homília
o cão lambia o osso
meu irmão tinha espinhas no rosto...
Sentir não é bem o termo
talvez percepção de neném
era ainda um lugar ermo
por perto mais ninguém...
Às vezes um papo acelerado
me deixava meio intranquilo
então mamãe fazia afago
e já passava o perigo...
Quando chegou a hora
d'eu avistar o mundo
alguém me puxou para fora
daquele lugar tão fundo...
O mundo era isso?
Cheio de cores,
frio, calor, cheio disso
que chamam de flores...
Foi duro me acostumar
sem o mundo submerso
que eu respirava sem ar
porém de um jeito certo...
Daí em diante foram só surpresas
que aconteciam de instante em instante
é claro que depois do feio a beleza
depois da velocidade o constante...
Ainda hoje me lembro de quando quase era
uma forma precisa com contornos definíveis
algo como uma humana e imprecisa esfera
com possibilidades mais que incríveis...
Perto de falar com Deus téte-a-téte
recupero visões quase que de forma incolor
mas nas quais já havia a presunção
avant la lettre
de que já havia o colorido
tingimento do amor...
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