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Não, meus amigos e minhas amigas, não estou parodiando o ícone do absolutismo francês Luiz XIV que teria afirmado séculos atrás “Le etat c’est moi”. Lembram-se da aula de história geral sobre o Rei Sol que sintetizou em sua frase toda a extensão e o poder por ele encarnado como soberano da França? Lembram? Em resumo, o recado foi mais ou menos este: “Não vem que não tem!! Estou acima das leis e por isto não apenas não devo a elas nenhum respeito, mas, também, e por isto mesmo, sou eu que mando na vida do reino e na dos súditos. Isto tudo de acordo com meu humor do dia”.
É verdade que do início do século XVIII para cá a ideia, a frase e a mensagem foram repetidas muitíssimas vezes em voz alta ou só no pensamento. Isto feito por ditadores e salvadores da pátria de todos os calibres: grandes, medianos e pequenos. Mas, esta pretensão não me pertence, na verdade tenho lembrado muito ultimamente de meu passado anarquista, que na realidade nunca existiu verdadeiramente.
Mas, o fato é que fico muito aborrecido com frases como “O Brasil não tem jeito”, “só no Brasil mesmo” ou, “Le Brésil n’ést pas un pays serieux” para voltar a França, agora a de De Gaulle. Na verdade este tipo de frase, para mim, é uma expressão de um pensamento que se quer muito crítico, mas que sequer arranha a complexidade da realidade. Pior, isto sempre cheira a omissão, a descomprometimento. É bem o tipo de atitude de pessoas que atribuem a outros aquilo lhes cabem.
Há um exemplo muito prosaico se não fossem graves e trágicas suas consequências: jogar lixo na rua. Sei que isto passa por uma discussão filosófica e antropológica sobre o que é lixo ou não. Eu mesmo já me arrisquei nesta direção... Mas, mesmo que a noção de lixo ainda não tenha sido social e culturamente acordado entre nós, o fato é que tem gente que sabe o que é lixo e mesmo assim o joga na rua. Abre a janela do carro e manda para fora seja nas cidades ou nas estradas. Algumas destas pessoas são minhas amigas que me dão várias explicações tipo assim: “é para dar emprego aos lixeiros” ou “ando vontade de transgredir as regras” ... Esta última frase prefiro não comentar nada porque seria muito grosseiro, mas em relação a primeira vi hoje no “face” uma postagem onde aparecia um gari dizendo que se isto é verdade porque não tem ninguém querendo morrer para dar emprego aos coveiros. Boa.
E por aí vai. Há muito outros exemplos, mas preciso me controlar...
É óbvio que tem coisas que fogem ao nosso alcance. Claro que existe uma realidade que de certo modo se impõe sobre nós. Mas é também verdade que isto é ainda mais acentuado quando pensamos do ponto de vista individual e desconhecemos a existência da vida comum, da parte política da vida. Deste ponto de vista é fácil e cômodo emitir opiniões tão genéricas e sem nenhum efeito prático contra aquilo que criticam. É a famosa zona de conforto: “o governo não presta”, “político é tudo ladrão”, “meu país não presta” e “eu, claro, sou o máximo. Não tenho nada a ver com isto e ainda demonstro todo minha capacidade crítica me expressando de modo tão contundente e crítico no facebook ou nos espaços para respostas das reportagens on line.”
Acho que parte das causas deste tipo de coisa é fruto de uma realidade onde, por um lado, existe a liberdade de expressão e, por outro, falta disposição e disponibilidade para se ir além do óbvio. Também, creio, tem a ver com uma relação de dependência que temos com os meios de comunicação de massa para formar e emitir opiniões. Mesmo quando vende a ideia de independência e de crítica, parte desta mídia não passa do denuncismo ligeiro e cínico. O que na verdade é um (como hoje estou gastando todo meu francês) “jeu de scène” Mas para ser coerente não vou ficar aqui culpando a baixa qualidade de parte considerável de nossos telejornais e revistas semanais. E antes que alguém me acuse, vou logo dizendo: sou totalmente contra qualquer forma de cerceamento da imprensa, mesmo que ela não valha nada.
O fato é que repetir exaustivamente que o país e que os políticos não prestam pouco ajuda a resolver os problemas que nos assolam. E para dizer o que penso sobre como poderíamos explicar isto vou ter de puxar a “sardinha para minha brasa”. O pessoal fugiu das pouquíssimas aulas de filosofia, história, geografia, sociologia e literatura do ensino fundamental e médio. No ensino superior, o pouco mais 13% que o frequenta não vê muito sentido em estudar estas matérias e que melhor seria se fossem totalmente eliminadas. “Afinal, perfumaria por perfumaria fico com a do shopping”.
E assim nos tornamos brasileiros, não é mesmo Cazuza? Acho que o Brasil não está fora de nós, não está lá. Está em nós, está aqui. Está em nossas relações pessoais e com o poder público. Está em nossas justificativas que usamos para insistir em fazer algo mesmo sabendo que não deveria. Se, como disse, existem situações que fogem ao nosso poder, existem outras que dependem de nós mesmos. Estes são os momentos que temos o poder de dizer sim ou dizer não. É quando podemos dar continuidade ou fim a uma boa ideia ou a uma boa ação. Não é sempre que isto acontece, mas acontece...
É preciso colocar em questão nossa compreensão sobre nós e nossa relação com o Brasil. Da minha parte, sempre acho um bom exercício, às vezes, pensar que o Brasil sou eu.
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