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Aradia Rhianon

Dia de de Faxina
Tem dias que a gente amanhece com a sensação de que tudo ao nosso redor está empoeirado.
Os nossos conceitos que ficavam empilhados nas prateleiras do cérebro, parecem velhos, por mais que a gente se esforce para jogá-los fora, sentimos um apego desnecessário ao que ficou para trás.
As gavetas e escaninhos estão cheios de manuscritos, notas, observações, cuja letra mal traçada, na pressa de nossas considerações, nem dá mais para decifrar o que é.
Sem contar com os inúmeros álbuns de memória incompletos, cujas páginas há muito já mortas, deixam seus farelos pelo chão.
A gente começa a analisar, e vê que está tudo precisando de uma grande faxina, tem vezes que dá vontade mesmo, de ir ao mar da tranquilidade e jogar tudo na praia, esperar as ondas levar tudo para o fundo. Sabemos que não vai adiantar, alguma hora qualquer o “lixo” vai voltar e ficar boiando na superfície, causando mais poluição.
Imagino pegar tudo, arrumar em pilhas e fazer uma enorme fogueira, depois ficar apreciando as espirais de fumaça se despedindo de mim, deixando minhas entranhas livres, e eu poder comemorar, dizendo: finalmente!
Não estou enguiçada, nem quebrada, estou mesmo empoeirada, precisando de faxina.
Tão difícil encontrar “alguém” que nos ajude a se livrar do pó, do lixo, do trabalho danado, que é limpar a mente. Ah! Se eu soubesse, penso logo arrependida, não teria deixado ficar este caos ao meu redor. O que vou fazer? Este tipo de limpeza só pode ser feito por mim mesma.
Não é fácil, nem difícil, mas precisa ter paciência para avaliar com equilíbrio e razão. Selecionar o que não serve mais, e conservar com carinho o que quero guardar para sempre.
Logo decido fugir da tarefa tão árdua. O sol brilhando lá fora, me convida para a praia. O telefone não para de tocar é mais um daqueles vendedores de mentiras querendo me capturar, minha energia, meu dinheiro, esgotar com a minha paciência.
Não tenho mais tempo para escolher, e resolvo fazer a faxina. Sentada ali na minha poltrona preferida, comecei sem saber ao certo, se fazia direito ou não. É um trabalho chato e nada divertido, solitário também. A chatice foi tamanha que adormeci.
Sonhei que estava com meu anjo protetor, ele sorria para mim e me levava até o edifício da minha mente. Falei para ele, que eu estava resolvida a fazer uma verdadeira faxina em minha vida.
Ele riu da minha decisão, e com uma doçura que só os anjos possuem ficou ao meu lado, me dando dicas e me ajudando a selecionar os arquivos mais queridos para guarda-los com carinho, e os que eu não podia e nem deveria mais tocá-los ele me ajudou a removê-los para a usina de transformação do universo. Atendendo ao seu chamado alguns garis angélicos se apresentaram e logo me ajudaram a remover definitivamente a loucura que eu tinha acumulado.
Acordei ao entardecer, sentia perfume de rosas ao meu lado, foi o presente que ele me deixou para lembrar-me do nosso encontro.
Olhei para as flores na varanda de minha casa, e o mundo já não parecia empoeirado, ergui os olhos para o alto, e encontrei a mata verde que cerca minha casa. O vento balançava as folhas das mangueiras e das jaqueiras, trazendo aquele perfume de primavera a minha alma.
Eu estava feliz, a faxina que eu pensava tão árdua tinha sido feita, com a ajuda de meu anjo.
Jurei para mim mesma, não deixar mais acumular tanta poeira. Com a alma leve e sentindo-me alada para novos voos, fui preparar o jantar, estreando uma receita muito nova, mas exótica, aprender a tratar os pepinos para que eles não causem mais indigestão.


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