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AGRIDOCE
Havia um leve cheiro de merda e de crisântemos no ar. O cheiro de merda vinha do banheiro de um dos quartos vagos, com algum problema no encanamento, o cheiro de crisântemos vinha do lixo, pois fora lá que Lúcia tinha jogado as flores que tinha ganhado naquela manhã.
- Crisântemos são flores para quem já morreu.
Os dois brigavam todos os dias, várias vezes ao dia. Mário e Lúcia, esse estranho par que a vida unira, apenas duas das quarenta e seis almas residentes neste hotel velho, no centro velho, na parte velha da velha cidade.
Haviam brigado muito na madrugada anterior, o quarto deles é ao lado do meu, eu ouvia tudo, não tinham dito nada além do que pode ser dito em uma briga de casal.
- Puta.
- Corno.
- Sou corno porque você é uma puta.
- Me deixa em paz seu sujo.
- Não sua bruxa velha, você jamais vai se livrar de mim.
Era um casal diferente, não existia suavidade ou harmonia, sequer sugeriam algo parecido com isso, não formavam um casal de telenovelas, de folhetim, não eram sequer um casal “normal”, formavam um par mais à Fellini.
Eram totalmente assimétricos, se é que realmente existe alguma simetria entre um casal.
Ele jovem, trinta e poucos anos, alto, forte, bem apessoado; um idiota completo, falador, falava alto, gesticulando e cuspindo nos outros, peidava e arrotava alto.
Lúcia tinha quase sessenta anos, muito magra, pele muito clara, dentes sujos de cigarros, flácida, rosto macilento, evangélica, tão evangélica que mudava de igreja toda semana.
Em minha opinião Lúcia era uma bruxa de cidade, afinal das contas elas existem, se suas magias e amarrações dão certo eu não sei, mas elas existem e muitas, Torquemada não conseguiu acabar com elas. Eu mesmo já conheci várias.
Lúcia lançara sua magia sobre Mário e eu sei qual foi, ela me contou.
Mário a conhecera há uns seis anos, acabara de sair de um casamento, estava só e deprimido, foi morar no hotel.
Procurou Lúcia. Era a única mulher no hotel, a única possibilidade. Ela sorriu, desviou o olhar e corou (se revelou, como Ana Karenina), ele a tocou, ela tirou a mão, ele pediu, ela não deu. Deu depois de quase duas semanas e, segundo ela, deu como nunca tinha dado na vida. Junto com o carinho, o corpo, a língua e o prazer, Lúcia deu outra coisa para Mário, cocaína.
Essa foi a receita da magia: solidão, sexo e pó.
Lúcia tinha uma cara tão séria, tão senhorinha, como afinal conhecera cocaína? Melhor dizendo, crack, a cocaína pura é muito cara.
Seu antigo namorado, um sujeito que tinha uma câmera nas mãos e muita merda na cabeça; se dizia cineasta, mas na verdade, apenas fazia alguns filmes pornográficos de vigésima nona categoria, em alguns casos ele também era o ator, pois bem, foi ele que apresentou o crack a Lúcia e óbvio, ela gostou. Fez um filho nela também.
Esse sujeito morreu de overdose e não contente com tudo, presenteou Lúcia com uma outra coisa, um vírus da Aids.
Quando conheceu Mário, Lúcia foi muito honesta, contou sobre seu problema. E o que parecia lógico e trivial não aconteceu. Mário não a abandonou, não foi embora, ao contrário se apaixonou ainda mais. E fez com ela um pacto mortal em nossos dias, pediu para transar com Lúcia sem usar preservativos.
- Você está louco? Você vai pegar a doença.
- Não importa, eu amo você, se você morrer eu morro também.
- Mas quem te falou que eu vou morrer? Não se morre mais disso hoje em dia, além do que eu vou ficar com a consciência pesada se você pegar Aids.
- Já disse, não vivo sem você, se você não morre disso eu também não morro, você só morre se me deixar.
Lúcia percebeu o tom de ameaça na voz de Mário, mas ela também gostava dele, e a idéia de ser amada por um homem bem mais jovem a atraia. Foi nesse exato instante que Lúcia entendeu o poder que exercia sobre ele, seu olhar emanou um brilho estranho e o pacto foi selado naquele instante.
Começaram a se amar sem proteção nenhuma, de todas as formas.
Isso faz quase três anos.
Mário morreu há dois dias, mas não devido a Aids, aliás, até onde sei ele nem contraiu o vírus, sabe Deus lá como. Morreu devido a um “objeto de metal, cortante e pontiagudo” (vi o atestado de óbito) que perfurou seus pulmões, uma faca.
Lúcia tinha razão, a Aids não mata, o que mata são as doenças oportunistas, não só as do corpo, mas as da alma também.
Mário não suportava ver Lúcia conversando com ninguém, a não ser comigo, por eu já ser velho e acabado.
Não a deixava em paz de forma alguma, quando saia para trabalhar (e era um cavalo para trabalhar, como também para todas as coisas) telefonava de hora em hora. Ficava violento quando ela preferia assistir ou ouvir programas evangélicos a conversar com ele, é até estranho, ele transava com ela sem camisinha, mas não aderia a sua lenga-lenga religiosa.
Discutiam todos os dias e todas as noites, também muitas madrugadas, discutir é quase maneira de dizer, porque na verdade quem falava era ele, ela se limitava a dizer:
- Não grite, não encha o saco dos outros hóspedes.
Quando acabava o crack era muito pior. Nesses dias havia, além dos xingamentos, ameaças, às vezes muitos tapas até chutes e socos.
E depois de espancá-la ele chorava, suplicava seu perdão, lembrava a ela o pacto que tinham feito.
Fazia tempo que ela começou a odiá-lo. Ordenava ao seu Deus que o matasse, mas Mário era forte.
Naquela manhã, Mário acordou cedo, estava bem disposto, saiu, resolveu comprar flores para Lúcia; fazia tempo que não lhe fazia um agrado.
Comprou crisântemos porque os achou bonito, não sabia da ligação dessas flores com os finados. Aliás, ligação mais idiota. Mas Lúcia sabia e naquela manhã estava mais de mau humor que nos outros dias. Naquele dia não suportaria ninguém, menos ainda Mário.
Jogou as flores no lixo.
Mário se encheu de droga e começou a discussão, como não conseguia ofendê-la de forma nenhuma, usou a única coisa que a tirava do sério: Deu uma tapa no filho de Lúcia.
Com o olhar perdido e choroso pediu perdão e deitou-se.
Ouvi quando Lúcia saiu com algumas roupas e o filho uma hora depois.
Apenas no começo da noite daquele dia uma ligação anônima foi feita para a policia.
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